Pauta identitária
O que está na mira dos identitários não são os opressores, mas a cultura humana
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Estatua do Charles Darwin no Museu de Historia Natural de Londres | Foto: Getty Images
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Estatua do Charles Darwin no Museu de Historia Natural de Londres | Foto: Getty Images

A política identitária colhe seus frutos, estes, contudo não são as conquista democráticas dos setores oprimidos. Por tornar a luta política real dos oprimidos contra os opressores uma disputa meramente ideológica, de “narrativas”, por reconhecimento, seus resultados são também puramente etéreos, por seu caráter moral, pequeno-burguês e confuso, também os resultados são contraditórios, são em realidade nocivos aos interesses dos próprios oprimidos, que dizem representar, assim como ao conjunto da sociedade.

Vejamos um caso, o Museu de História Natural de Londres, um dos mais tradicionais do mundo, decidiu, seguindo a pauta dos movimentos identitários, realizar um “revisão” – ou seja, censura – de seu acervo em busca de objetos, salas e estátuas e personalidades científicas que possam ser considerados “ofensivos”, podendo estes até serem retirados de exposição, apagados, “cancelados”. O Museu considera também nomear ou reescrever nomes ou descrições que utilizem termos racistas, o que um crime contra a memoria histórica querer reescrever um documento histórico.

A notícia foi veiculada no jornal britânico The Telegraph, que informou também que o Museu disponibilizou a sua equipe um artigo “científico” que “problematiza” as conexões imperiais ligadas à ciência. Segundo o artigo, os “museus foram criados para legitimar uma ideologia racista”, o que implicitamente coloca a necessidade de destruí-los, mas é a concepção “teórica” que orienta a “revisão”.

E nem mesmo gigantes do pensamento, como Charles Darwin escaparam à censura, uma exposição do grande biólogo inglês passará também pela revisão, trata-se da exposição sobre a expedição às Ilhas galápagos em 1835, o manuscrito surgido dos estudos ali realizados foi fundamental para a o aparecimento da Origem das espécies, de 1859, uma das maiores conquistas científicas da cultura humana. Mas segundo o artigo que orienta essa “revisão”, essa expedição teve um caráter colonial, pois “sua jornada compartilhada na América do Sul foi com a intenção de permitir maior controle britânico na região”.

Outras personalidades científicas importantes que estão na mira dos revisores são o cientista sueco Carl Linnaeus e a do naturalista irlandês Sir Hans Sloane, um dos fundadores do Museu Britânico. Linnaeus tem considerações racistas em relação aos africanos, definindo-os como “astutos”, “indolentes” e “negligentes”. Já um dos fundadores do Museu, Sloane, sofreu sua primeira represália, seu busto foi retirado do pedestal e colocado em um armário e uma sala interna, isso porque era dono de escravos na Jamaica a mais de três séculos atrás.

Naturalmente, trata-se de um atentado contra a cultura e a memória histórica, que um museu tem o dever de preservar. Os cientistas aqui descritos constam no museu, não porque sejam, racistas, escravocratas ou pró-imperialistas, se é que é assim mesmo, mas por sua contribuição científica. A memoria histórica não se faz a partir de um tribunal moral, mas com expressões importantes do desenvolvimento progressivo da humanidade.

A política revisionista identitária tem um paralelo evidente, notadamente por sua origem social, a pequena-burguesia, com a política do revisionismo histórico da extrema-direita. Essa procura recontar a história de tal maneira que os crimes horrendos dos opressores passem por feitos heroicos e a luta do povo pela sua liberdade, por coisas horrendas, o identitário, também quer recontar a história, mas para retirar todos os elementos negativos e contraditórios dela, apagá-los, ou seja, falseado-a, o que significa praticamente eliminá-la, já que há pouco de perfeitamente puro e bom nela. Mas essa é sua verdadeira cruzada moral.

O objetivo desta manobra é eliminar as contradições da sociedade capitalista idealmente, sem ter de revolucioná-la, destruí-la no mundo real, uma vez que o identitarismo tem apenas como horizonte histórico a sociedade capitalista. Mudam, pois, o campo da luta, tirando-a do mundo real, da luta contra a classe dos opressores, transportando-a para o mundo dos símbolos, das ideias, da moral, luta entre idéias, símbolos e moral boas e más.

Creem que ao mudar a história, purificá-la, retirando seus aspectos negativos, eliminam também as ideias preconceituosas e negativas que atormentam a humanidade, como se essas brotam na cabeça das pessoas ex nihilo, sendo reforçadas pela história e pelos símbolos, não as veem como emanações da estrutura de dominação econômica de uma classe contra outras.

Além de não fazer avançar no mundo real nem um centímetro a luta da oprimidos – eliminar a opressão; a escravidão, etc., da memória histórica não elimina-á da realidade, mas ao contrário, apenas a camufla – a política identitária leva, não raras vezes, a posições reacionárias e bárbaras, como a imposição de uma revisão histórica a um museu. A história da ciência e a história da humanidade devem ser preservadas tal como se desenvolveram com suas contradições, pois é essa história real que nos constitui.

Para que estas ideias sejam extirpadas da sociedade humana é necessário eliminar a base econômica que mantém setores oprimidos e da qual emana todo tipo de preconceito, ou seja, o capitalismo, e a classe social que a sustenta, a burguesia, última classe de exploradores da humanidade. Esse é o destino de todos os setores explorados, a luta de morte contra capitalistas pela sua liberdade e direitos.

Destruir o legado cultural do passado, apagar as pegadas da humanidade que entre risos e lágrimas nos trouxeram até aqui não resolve o problema de ninguém, mas com certeza deixará ignorante a humanidade em relação a si própria.

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