Uma demagogia muito direitista
Senador pernambucano apresenta balanço dos dois primeiros anos do governo Bolsonaro: castigou muito pouco o povo
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S¿O PAULO, Brasil - 26 de novembro de 2018: O ex-presidente da Rep¿blica Fernando Henrique Cardoso, durante entrevista para revista Veja, em sala do Instituto Fernando Henrique Cardoso. foto: Caio Guatelli
Fernando Henrique Cardoso | Foto: Caio Guatelli

Circula nas redes uma publicação do mandato do senador Humberto Costa (PT-PE) que revela até onde a esquerda pequeno-burguesa carreirista está disposta a ir para manter seus privilégios no regime político:

Como fica claro na imagem, Humberto Costa, que era, até pouco tempo, líder do PT na bancada do Senado Federal, se preocupa em demonstrar que Bolsonaro falhou em uma série de pautas que nada têm a ver com a esquerda ou qualquer atuação minimamente progressista. Em resumo, a propaganda veiculada pelo senador pernambucano poderia ser resumida da seguinte maneira: “direitistas, Bolsonaro não é de direita de verdade”.

Enfiar a Lava Jato no ralo deveria ser mérito de qualquer governo minimamente progressista. A operação, afinal, foi um dos principais pilares da derrubada criminosa do governo de Dilma Rousseff e da prisão completamente ilegal do ex-presidente Lula. Destruir a Lava Jato deveria ser um compromisso da esquerda. O mesmo pode-se dizer do “combate à corrupção”: é uma farsa montada para que o regime político se torne cada vez mais controlado por expedientes antidemocráticos. A Lava Jato, neste sentido, não é uma exceção, mas sim a regra de toda e qualquer operação anticorrupção estabelecida nos marcos das instituições burguesas.

O combate à violência é outra pauta tipicamente reacionária. A violência é apenas a reação do povo à desorganização total da sociedade que a política neoliberal causa. Cabe à esquerda lutar contra a política neoliberal, e não utilizar o problema da violência para aumentar o aparato de repressão do Estado. As privatizações e a reforma tributária são vigarices tradicionais da burguesia: entregar o patrimônio do País para os capitalistas e expropriar os pobres em favor dos bancos.

Se Humberto Costa defende qualquer uma dessas pautas e critica Bolsonaro, já perdeu por completo o rumo político e deveria estar no PSL, no PSDB ou qualquer outro partido da direita. Se, no entanto, seu objetivo é apenas demonstrar que as pautas horrendas da direita não são devidamente defendidas por Bolsonaro, e que, neste sentido, Bolsonaro não deveria ser apoiado pela direita, isso expressaria, de qualquer modo, uma política muito direitista e errada.

Este tipo de concepção, de que Bolsonaro não merece a “confiança” de quem é de direita “de verdade” só poderia ter um único fim: pedir a direita que invista todos os seus recursos em outro direitista que não seja Bolsonaro. É como se Humberto Costa fosse até o prédio da FIESP e gritasse: senhores industriais, se vocês querem uma reforma tributária, contratem João Doria, Rodrigo Maia ou qualquer outra pessoa, mas demitam Bolsonaro. Uma coisa completamente absurda.

A questão central é: por que estaria o ex-líder do maior partido de esquerda do País no Senado tão interessado em dar conselhos à direita? Teríamos de partir do princípio de que, em seu cálculo, esses conselhos, por algum motivo, levariam a esquerda a evoluir para uma situação política mais favorável. Não passa, contudo, de uma ilusão. E de uma ilusão comum somente entre aqueles que estão acostumados a encontrar na burguesia um meio para alcançar os seus objetivos. A classe operária, castigada todos os dias pela classe dominante, não tem esse tipo de esperança inútil.

Quando Humberto Costa apela para a burguesia para que se livre de Bolsonaro, está promovendo um processo típico de anulação da esquerda. O papel da esquerda sempre foi, afinal de contas, o de mobilizar os oprimidos para que se choquem contra seus opressores e tenham as suas reivindicações atendidas. Isto é, se o povo passa fome, o papel da esquerda é unir o povo em torno de um programa para combater a fome. Se o povo está imerso em uma pandemia, o papel da esquerda é unir o povo em torno de um programa para combater a pandemia. Mas não é disso que se trata a posição de Humberto Costa. O que o senador propõe é simplesmente substituir o programa que a esquerda deveria ter diante do avanço da extrema-direita pelo programa neoliberal da direita nacional. Uma política, no fim das contas, de total traição aos trabalhadores.

Um capacho da burguesia, como Fernando Henrique Cardoso, tem toda a legitimidade para se jogar aos pés de seus patrões e pedir para assumir o lugar de Bolsonaro. É o que fez, por exemplo, o PSDB em uma bizarra publicação comparando os governos Bolsonaro e FHC:  pic.twitter.com/x0x6FyrQaq.

Já a esquerda não poderia se prestar a esse papel. Na medida em que vai se anulando enquanto uma força capaz de organizar os trabalhadores em torno de seus interesses, e ainda mais se prestando ao papel de confundi-los ao mostrar os inimigos como aliados, a esquerda vai também se distanciando cada vez mais do povo. Afinal, uma condição fundamental para organizar o povo é ter a confiança do povo. E essa política de terceirizar a luta política por meio da direita não traz confiança alguma.

O papel de Humberto Costa, neste caso, é, inclusive, ridículo. Porque ele próprio sabe que jamais terá a oportunidade de ocupar o lugar de Fernando Henrique Cardoso. Por ser ligado à esquerda, Humberto Costa jamais terá a plena confiança da burguesia para ser seu legítimo representante. Seu papel é apenas defender, como um súdito, os interesses da direita no interior da esquerda.

Não é a primeira vez que esse tipo de consideração aparece da boca de Humberto Costa. Pouco após o o golpe contra Dilma Rousseff, o senador falou que seria necessário “virar a página” do impeachment. Uma clara demonstração de que aceitaria de bom grado o novo regime político.

A política de Humberto Costa é a política da ala direita da esquerda nacional. Isto é, da ala mais reacionária, mais próxima da burguesia, corrompida por seus privilégios e cada vez mais distante dos interesses de suas bases. É preciso combater duramente esse tipo de tendência nas fileiras da esquerda: o carreirismo pequeno-burguês, inimigo de todo movimento operário, é capaz de conduzir a esquerda para o precipício tão somente para satisfazer os interesses mesquinhos de poucos indivíduos. É preciso, em contraste com essa política, de colaborar com a direita a todo custo, organizar os militantes sinceros da esquerda na luta pelo Fora Bolsonaro e Lula presidente.

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