Eleições municipais
“O PCO propõe a dissolução da Polícia Militar e o estabelecimento de polícias municipais controladas diretamente pela população”
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Hugo Damasceno | Foto: Diário Causa Operária

Na reta final da campanha eleitoral, entrevistamos o candidato a vereador do Partido da Causa Operária na cidade de Santa Bárbara, Bahia. Hugo Damasceno, 43 anos, é professor de História e militante do PCO. Concorre nessas eleições com o número 29029.

Diário Causa Operária: como e quando conheceu o PCO?

Hugo Damasceno: eu conheci o PCO quando entrei no curso de História da Universidade Estadual de Feira de Santana. Eu descobri que o PCO tinha um militante em Feira de Santana. Tive contato com ele em outros encontros do movimento estudantil, nas assembleias universitárias, e a postura que ele defendia me chamou a atenção. Na época, contudo, acabei ingressando no PT.

Eu entrei no PT porque havia uma verdadeira ditadura montada aqui em Santa Bárbara, uma ditadura do carlismo. Aqui tinha um ditador chamado Fernando de Fabinho, que mandava prender, mandava bater, fazia miséria. E o PT estava na luta contra esse sistema. Eu me ajuntei nessas fileiras e não me arrependo.

DCO: quanto tempo passou no PT?

HD: cerca de 15 anos. Na minha saída, me reencontrei com o PCO, na busca de um partido de esquerda, para não fazer que nem a maioria, que sai do PT e vai para a direita. Eu falei: não, vou sair do PT, mas tenho de ir para a esquerda, para eu sentar em uma cadeira que me cabe. Eu procurei o PCO, o pessoal me recebeu bem, fui filiado, estou hoje militando no PCO e sou candidato a vereador em Santa Bárbara, na Bahia.

DCO: por que resolveu sair do PT?

HD: eu saí do PT porque não tinha espaço para fazer a política que eu defendia, com base no projeto democrático e popular que o PT dizia querer fazer. Mas, por incrível que pareça, não havia espaço para esse projeto. Não falo nem de um projeto comunista, mas simplesmente de um projeto democrático e popular. Foi aí que eu percebi que havia um desencontro entre o programa do partido e sua prático. Cheguei a perder um concurso do estado por perseguição política, porque eu queria dizer a minha palavra, não o que estava colocado na minha boca.

DCO: como é o governo do PT em Santa Bárbara?

HD: não tem nada de projeto democrático e popular. A única coisa que o prefeito tem feito é calçar ruas. Nenhum projeto social, nada de política pública para os trabalhadores, negros mulheres e os oprimidos em geral. Nenhuma política de desenvolvimento rural, absolutamente nada, é só calçar ruas. Então, nem mesmo os mecanismos democráticos que o PT tinha antes, como orçamento participativo, audiência de 100 dias de governo etc. o governo está usando. Os governos hoje são ainda mais à direita, mais conservadores. A sensação que tenho é que trabalhei como arquiteto para os outros morarem, e não eu. Por isso procurei o PCO, que é um partido de esquerda, baseado no marxismo. Hoje estou fazendo uma casa para que eu e os meus companheiros possam morar.

DCO: e qual a avaliação do PCO em relação ao PT em Santa Bárbara?

HD: Apesar de nossas divergências, o objetivo de nossa campanha não é atacar o PT. Afinal, apesar de nossas críticas, estamos juntos com os companheiros do PT na luta contra o golpe e, inclusive, estamos convocando toda a esquerda a se unir em torno do Fora Bolsonaro e da candidatura de Lula.

Nossa única crítica mais dura se deu antes da campanha, quando critiquei o autoritarismo com o qual o PT tratou a pandemia aqui. Com lockdown, com toque de recolher, com ameaça de prisão, ameaça de multa. Eles chegaram ao ponto de ameaçar as pessoas com uma multa de R$1,450,00. E eu disse assim: olha, ameaçar de multa um trabalhador que ganha R$150 por mês, e tem muita gente que só ganha isso, um trabalhador desempregado, de uma multa de R$1,400, é como me ameaçar de uma multa de R$85 mil. O peso para uma pessoa desempregado é maior ainda. É uma violência muito grande. Eu denunciei essa violência, falei que era um absurdo, que o governo não podia decretar toque de recolher. Que ele, no fim das contas, estava agindo como um prefeito de direita, e não um prefeito de esquerda, que deveria educar a população, chamar os conselhos de bairro, fazer o debate com as pessoas, explicar a necessidade do uso das máscaras, material de higiene etc.

DCO: por que as eleições são antidemocráticas?

HD: as eleições são um jogo de cartas marcadas. Por exemplo, um partido como o PCO não tem direito a um único segundo na televisão. O jogo é feito para os partidos da direita serem beneficiados. Não tem nada de democrático nas eleições. O período das eleições é, inclusive, mais antidemocrático que o período fora das eleições.

DCO: se o PCO não tem a ilusão de ser eleito, qual o nosso objetivo na campanha?

HD: a gente tenta politizar a eleição. A gente tem uma estratégia que é derrubar Bolsonaro, tirá-lo da presidência da República. Afastar os golpistas e tentar eleger o ex-presidente Lula. A gente usa as eleições para propagar essa mensagem, para fazer agitação e propaganda dessa estratégia do Partido. É claro que também estamos interessados em discutir as questões locais, as condições de vida do povo, mas sempre vinculando com essa luta nacional.

DCO: como tem sido a campanha em Santa Bárbara?

Hugo: temos ido nos terreiros de matriz africana, porque eu sou ogã em terreiro de candomblé, temos conversado com as pessoas, procurado as categorias, com os garis, pessoal da jardinagem, pessoal da limpeza, da pintura das ruas, com os agentes comunitários de saúde, com os agentes de endemia, com os companheiros da ABA (Agência Barbarense de Árbitros), já que eu fui secretário de esportes por um tempo. Enfim, temos tido um contato direto com as pessoas, além de fazer panfletagens e a campanha de porta em porta.

DCO: como o PCO se posiciona em relação à candidatura do PT em Salvador?

HD: a simbologia que tem a Polícia Militar para a juventude negra e periférica é a simbologia do extermínio. Os jovens negros e de periferia andam apavorados com a presença da Polícia Militar. E aí, você escolher uma pessoa que é símbolo desse extermínio, porque ela é mulher, é negra, mas a gente tem que olhar a função social dela. O que ela faz para sobreviver? É uma major da Polícia Militar, que extermina os jovens negros do País. O PCO tem uma política oposta, nós propomos a dissolução desse instrumento e o estabelecimento de polícias municipais controladas diretamente pela população. É um grande retrocesso do PT, mas é bem a cara do Rui Costa, da ala direita do PT. A gente não pode esquecer que no extermínio que houve em Salvador, se não me engano com 9 negros assassinados, ele comparou os policiais com “artilheiros na cara do gol”.

DCO: como a vida do negro piorou durante a pandemia?

HD: piorou muito porque o povo negro é o povo mais exposto na pandemia. Não é porque o vírus é racista, mas sim porque, em termos de condições de sobrevivência, o negro está mais vulnerável à ação do vírus. A fome ataca mais o povo negro, a miséria ataca mais o povo negro, a falta de infraestrutura, a falta até mesmo de sabão em casa para lavar as mãos ataca mais o povo negro. Então, o vírus encontrou, no povo negro, um público mais acessível para ele, vamos dizer assim. E, além de tudo, muitas experiências de pequenos negócios que empregavam, em sua maioria, negros, fecharam também. E muita gente que tinha sua barraca na feira, uma barraca de cachorro quente, se viu, de uma hora para a outra, sem renda e sem ter como sobreviver. Então, teve duas ameaças, a ameaça do vírus e a da piora das condições de vida. No final, eles se encontraram: a piora das condições de vida e a propagação do vírus. E aí, a maior parte da população que foi exterminada pelo vírus pertence ao povo negro. Então, as condições de vida que já eram desiguais em um país como o nosso pioraram bastante com o advento da pandemia e suas consequências políticas, econômicas e sociais.

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