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Fascismo, um projeto burguês
Bolsonaro e Trump não são “malucos”, são a burguesia contra o povo
Um fundamento idealista e individualista de pensamento, não é capaz, nem de longe, de dar conta da realidade histórica da sociedade atual e de suas contradições.
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Fascismo, um projeto burguês
Bolsonaro e Trump não são “malucos”, são a burguesia contra o povo
Um fundamento idealista e individualista de pensamento, não é capaz, nem de longe, de dar conta da realidade histórica da sociedade atual e de suas contradições.
Elisabeth Roudinesco (Foto de domínio público)
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Elisabeth Roudinesco (Foto de domínio público)

Em entrevista à imprensa burguesa, Elisabeth Roudinesco, psicanalista e historiadora francesa responsável por biografias de Freud e Lacan, afirmou que as massas, em determinadas condições, podem eleger presidentes “malucos” como Bolsonaro e Trump, mas isso não vai durar.

“No momento, temos o populismo. Quando os povos elegem presidentes como Bolsonaro e Trump, podemos nos desesperar. É verdade que as massas elegem malucos, ditadores. Mas isso não pode durar. É uma conjuntura particular, com o aumento das desigualdades. Existe o desgosto do mundo com a classe política. Isso dá a impressão de que o povo quer um poder forte. Mas é uma ilusão.”

A historiadora não esconde o fundamento idealista e individualista de seu pensamento, em uma base teórica que, como se percebe, não é capaz, nem de longe, de dar conta da realidade histórica da sociedade atual.

Para Roudinesco, presidentes como Bolsonaro e Trump são fenômenos relacionados a um determinado impressionismo individual que se generaliza nas massas. São resultado de uma mórbida vontade popular, pessoas individuais que, num tipo de surto coletivo, passam a querer um “poder forte”. E tudo por conta de um simples “desgosto com a classe política” criado pelo “aumento das desigualdades”.

No fim das contas, a culpa por termos um Bolsonaro no poder, por exemplo, é toda do povo.

Nada mais longe da realidade.

Bolsonaro, Trump e o avanço da extrema-direita pelo mundo inteiro, hoje e nos anos 20 e 30 do século XX, longe de serem fenômenos isolados ou simples produto de uma obscura necessidade popular por um “poder forte”, são resultados simples e diretos de um projeto de poder da classe dominante mundial, a burguesia.

Um produto de classe, cujo objetivo, ainda mais simples, é o de aniquilar toda e qualquer organização popular, mesmo aquelas que ainda possuam alguma ligação de dependência com a burguesia, como os partidos reformistas, por exemplo.

Longe de serem frutos desta sinistra vontade popular por ditadores, os governos fascistas enfrentam enorme resistência popular, e, não fosse o completo ensurdecimento de toda e qualquer oposição – como ocorre quando são completamente bem-sucedidos, como no caso de Hitler – o que há é a explosão da impopularidade, revolta e rebelião popular em todos os países onde estes monstros da burguesia – e não simples “malucos” – chegam ao poder.

Considerar que Bolsonaro, por exemplo, é fruto dessa espécie de “pulsão” por um poder forte, é demonstrar completo desconhecimento de todo o processo golpista que o elegeu, desde o impeachment de Dilma até a prisão de Lula, retirando-o na marra das eleições.

Para obter este resultado, a burguesia produziu toda uma campanha difamatória através de toda a mídia capitalista, construiu manifestações de rua artificiais, gastou milhões para comprar deputados e senadores para depôr a presidenta que nada devia, cooptou diversos setores do judiciário, que, à base de todo tipo de fraude, que vão desde torturas psicológicas até sentenças sem qualquer fundamento, passando pela total subversão do processo, até torná-lo uma simples inquisição medieval, conseguiram condenar Lula, sem provas e sem crime.

Embora “malucos” sempre possam existir, os próprios fatos pelos quais passou o Brasil até chegarmos nas eleições de 2018, por exemplo, demonstram que aquele pleito não foi manifestação de nenhuma vontade popular por ditadores, nenhum gosto especial por termos um cabresto, um chicote ou uma metralhadora apontada contra nossas próprias cabeças.

O que houve foi um evidente projeto de endurecimento do poder de repressão burguês contra o povo, aliado a uma debilidade das lideranças de esquerda, que, muitas inclusive, justamente caíram no mesmo tipo de ilusão para a qual a autora se dirige, ao considerar que tudo se trataria de uma fase, e que não iria durar.

O projeto fascista sempre está à mão da burguesia. Sempre que ela precisar impôr a exploração em níveis inaceitáveis, ela lançará mão do fascismo. Destruirá sem titubear qualquer aparência de democracia, e irá fazer tudo o que puder para acabar com toda e qualquer forma de liberdade ou de organização popular.

Para compreender o que ocorre hoje no mundo, em que a luta de classes se acirra e o jogo de forças chega a suas vias mais brutais, a visão amorfa de sociedade como simples conjuntos de pessoas individuais não é mais suficiente. Para dar conta de nossa realidade, é necessário ter como base a teoria que se funda nas classes sociais que são produzidas necessariamente pela sociedade. A única teoria que leva este pensamento a fundo é o marxismo.

Através do marxismo, a causa da extrema-direita chegar ou aproximar-se do poder no mundo inteiro fica simples e clara: o fascismo não é obra passageira de “malucos”, nem fruto de uma difusa morbidade popular, é a ameaça permanente de monstros, da burguesia.