Haddad em Nova York: “o que é bom para Bolsonaro é bom para mim”

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O candidato à presidência pelo PT Fernando Haddad esteve em Nova York para o lançamento da Internacional Progressista e participou de diversas palestras para explicar a atual situação política no Brasil. Durante uma palestra na Universidade de Columbia, Haddad fez diversas afirmações que causam muita estranheza e confusão.

Durante a palestra, o petista afirmou que tem uma avaliação positiva sobre a política econômica de Bolsonaro e que haverá sucesso. Haddad afirmou que “não pode ver como dado o fracasso, que pode ocorrer, mas não é pressuposto da nossa avaliação.”

Ainda completou que: “Em primeiro lugar gera um fluxo de caixa muito importante e dá fôlego, com a venda de ativos estatais, o que ocorreu com o primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com venda de estatais, o que bancou a sobrevalorização do câmbio por quatro anos…Vamos ter crescimento em 4 anos porque estamos há 4 anos sem crescer e isso vai dar um respiro para o governo.”

A afirmação é extremamente estranha e dizer que privatização de estatais, corte de gastos e ataques a população vai fazer a economia crescer e obter sucesso, como nos anos sombrios de FHC, além de muito superficial, é incorreto. O governo Bolsonaro, nesse sentido, não pode ser comparado com a política neoliberal de Fernando Henrique Cardoso pois a situação política e econômica atual é extremamente diferente dos anos 90.

No período anterior ao primeiro mandato de FHC, o Brasil vinha de um período de hiperinflação dos anos 80 e inicio dos anos 90, chegando a valores de mais de 2.000 %. E se elegeu em um pacto de unidade entre a burguesia nacional e internacional, através da política de combate a hiperinflação e estabilização monetária, que foi o Plano Real. Também havia um cenário favorável na economia mundial de crescimento e investimentos externos a procura de novos mercados. Já o fascista Bolsonaro chegou ao poder através de uma enorme fraude (com a proibição de Lula ser candidato, caixa 2 etc) e com enorme crise dentro da própria burguesia, pois não era o candidato preferido.

Outro dado importante é que a população brasileira nunca tinha visto uma onda de privatizações tão grande e rápida. FHC privatizou todo o setor de mineração, telefonia, ferrovias, setor elétrico, telecomunicações, petroquímico e fertilizantes e bancos estaduais. Além disso, o governo vendeu as chamadas ações excedentes (em relação à garantia do controle acionário) da Petrobrás. Apesar de toda essa entrega, houve grande confusão sobre as consequências dessa política de liquidação do patrimônio estatal.

Em contrapartida, a política dos tucanos levou a profundos cortes no orçamento do Estado, gerou desemprego e miséria entre a maioria da população e estagnação da economia, que resultou em três pedidos de empréstimo para o Fundo Monetário Internacional (FMI) que somaram US$ 86 bilhões para não haver falência do Estado. Essa política gerou uma enorme crise dentro do governo tucano no segundo mandato e um clima de instabilidade política que resultou na ascensão do Partido dos Trabalhadores para o governo.

Por isso, é incorreto afirmar que Bolsonaro vai ter sucesso na sua política econômica. Como vimos no governo de FHC, colocar em prática uma política econômica de entrega das riquezas, retirada de direitos, terra arrasada e pagar as dívidas em dia não vai obter sucesso no governo. Pelo contrário, a tendência é que essa política agrave a economia do país, inclusive porque diferentemente dos anos de FHC, hoje o cenário internacional é desfavorável e de profunda crise das principais economias capitalistas.

Confusão e desestímulo aos militantes na luta contra o golpe

As declarações de Fernando Haddad revelam uma enorme confusão entre os dirigentes da esquerda e um desestímulo aos militantes que lutam e se organizam para combater a extrema-direita e o golpe. A declaração que o governo do fascista Bolsonaro vai dar certo é um desestímulo e um sinal para que os militantes esperem as próximas eleições.

Na palestra, Haddad demonstrou a enorme confusão sobre a situação política e mesmo sobre a caracterização de que há um golpe de Estado no Brasil. Afirmou que é “estranho” Sérgio Moro participar do governo Bolsonaro e que a continência de Bolsonaro para o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, é “indevida”.

Não há nada de estranho sobre a participação do Juiz Moro no governo Bolsonaro, pois é um pagamento pelos serviços prestados. O próprio Lula na carta enviada a reunião da Direção Nacional do PT diz que “se alguém tinha dúvidas sobre o engajamento político de Sérgio Moro contra mim e contra nosso partido, ele as dissipou ao aceitar ser ministro da Justiça de um governo que ajudou a eleger com sua atuação parcial. Moro não se transformou no político que dizia não ser. Simplesmente saiu do armário em que escondia sua verdadeira natureza”.

Sobre a continência de Bolsonaro a Trump deveria ser denunciado como um capacho dos EUA e que há enormes interesses do imperialismo na fraude que levou Bolsonaro a presidência da República. As declarações de Haddad são mais uma evidência dos problemas que levam o PT à paralisia diante do golpe e apenas fortalecem a extrema-direita e aumentam a confusão entre os militantes da esquerda.

A caracterização correta sobre o governo Bolsonaro é que ele é cheio de contradições que o prejudicam e que se encontra num período extremamente crítico do regime político e econômico capitalista. Ainda não há uma unidade perfeitamente harmoniosa dentro da burguesia e dos golpistas sobre o novo governo, muito embora esteja claro que ele é um governo da força dominante da sociedade, que é a burguesia em seu conjunto e o imperialismo. Mas realmente há enormes contradições e o sucesso da implementação da política econômica de Bolsonaro vai depender dos movimentos de esquerda e dos trabalhadores. Se houver resistência real e concreta desses setores, a extrema-direita vai ter a vida dificultada e poderá se ver confrontada com a força da classe operária.

Portanto, a esquerda deve se levantar e exigir o Fora Bolsonaro e impedir que realize a sua política de terra arrasada no governo. Se o fascista Bolsonaro obtiver sucesso na economia haverá uma ofensiva ainda maior contra os setores de esquerda e nos ataques a classe trabalhadora.