Há 50 anos, os Beatles produziram um dos melhores albuns da história do Rock: o famoso Álbum Branco

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O disco The Beatles, que ficou conhecido como Álbum Branco, chega aos seus 50 anos . O ano era 1968, os Beatles — o maior, mais criativo e importante grupo de rock da época (e de todos os tempos) estava em ebulição. Tinham perdido seu empresário (Brian Epstein), recebido críticas negativas (pelo filme Magical Mystery Tour) e começava a sofrer com as desavenças entre seus integrantes e a aparição de Yoko Ono.

Foi nesse cenário de início de caos que a banda voltou da Índia carregada de novas composições que acabaram se transformando no primeiro e único álbum duplo da sua carreira.

A maioria das canções do disco foi composta durante a meditação transcendental em Rishikesh, na Índia com Maharishi Mahesh Yogi. Embora fosse uma meditação profunda concebida inicialmente para livrar os membros de todas as obrigações e aflições de seu mundo, Lennon e McCartney davam suas escapadas para, clandestinamente, “irem ao quarto um do outro esboçar algumas ideias.” Lennon recordaria tempos depois: “Eu escrevi minhas melhores músicas lá.” Beirando quase quarenta músicas que foram inicialmente arranjadas e gravadas em Kinfauns, na casa de Harrison em Esher.

Mas, as transformações que o mundo viu naquela época embalaram os sentimentos que inspiraram os músicos do grupo sem dúvida alguma. Em um contexto mais amplo, e só para citar alguns eventos importantes da época, lembramos as manifestações e agitações sociais da França em maio de 1968, quando ideais revolucionários atuavam em diversas partes do mundo.

Um primeiro destaque pode ser feito para a Guerra do Vietnã, travada entre EUA e os norte-vietnamitas de 1959 a 1975. A Guerra do Vietnã, em 1968, encontrava-se exatamente em sua fase mais violenta, iniciada com a Ofensiva do Tet. Essa ofensiva foi organizada pelos exércitos norte-vietnamitas com o objetivo de forçar a retirada das tropas americanas. Apesar de ter sido um fracasso militar, foi a responsável por criar uma imagem extremamente negativa do governo dos EUA.

As imagens dos combates e das violências cometidas pelas tropas americanas espalharam-se pelo mundo e motivavam protestos tanto nos EUA quanto na Europa. Além disso, em abril de 1968, Martin Luther King foi assassinado. Sua morte provocou inúmeras revoltas nos EUA e, claro, também se refletiu nos grupos estudantis da França.

Outro evento importante que estava em curso desde o início de 1968 e que repercutia nos meios estudantis franceses eram os acontecimentos da Primavera de Praga. Na extinta Checoslováquia acontecia uma tentativa do governo de realizar reformas no país no sentido de romper com o autoritarismo imposto pelos soviéticos. Os acontecimentos em Praga eram acompanhados de grande mobilização estudantil.

Por fim, vale o destaque para a luta armada revolucionária que estava em curso nos países sul-americanos contra as ditaduras militares instaladas em diversos países, além da luta pela independência que era travada no continente africano, que estava em seu processo de descolonização. Esses movimentos revolucionários repercutiam bastante nos movimentos estudantis franceses, que eram muito influenciados pelo marxismo trotskista e pelo maoísmo.

Todo esse contexto colocava os grupos estudantis franceses em um grande estado de efervescência, que acabou tendo o seu gatilho acionado com reformas propostas pelo governo francês para o sistema educacional do país.

Todos esses acontecimentos fizeram que, de certa forma, o grupo trabalhasse para fazer um álbum que refletisse um pouco disso tudo, e fosse até  fragmentos de muitas coisas. E, por isso mesmo, até não fosse necessária a inclusão muitos dos sucessos conhecidos até ali que consagraram a banda, o que, sem dúvida foi muito audacioso da parte deles.

O álbum foi lançado em 22 de novembro de 1968, com um capa toda branca, que contrastava com a explosão de som e cor de seu antecedente, “Sgt. Peppper’s Lonely Hearts Club Bland”, com 30 canções com espírito acústico, em um amplo leque de estilos, com 1h33min de duração, sendo o mais longo já feito por eles, além de único duplo da carreia.

Os Beatles foi a banda mais famosa do mundo, em apenas 10 anos de vida, o quarteto quebrou muitas barreiras, recordes, paradigmas e ainda conquistou tantos fãs, que já naquela época pudemos ver o fenômeno conhecido como beatlesmania.

Eles certamente não inventaram o negócio da música, mas, como outros grandes artistas (por exemplo, Beethoven), tiveram um efeito inegável em todo o setor que obrigou a indústria a acompanhá-los, mudando completa e permanentemente quase tudo sobre o mercado musical.

Só para citar alguns, eles foram os pioneiros a utilizar o que hoje conhecemos como “videoclipe”, clipe musical, e também foram os primeiros a se apresentarem em um estádio, o Shea Stadium de Nova York (EUA), uma ideia considerada quase absurda demais para ser considerada em 1968.

Nesse mesmo ano, como o rádio americano preferia ter música em AM e talk radio (programação falada) em FM, e a maioria das estações AM tocava música em um formato único de três minutos, o que significava que qualquer single significativamente mais longo ou mais curto do que três minutos era ignorado por emissoras AM, porque destruiria seu formato repetitivo. Quando os Beatles lançaram “Hey Jude” como single em agosto de 1968, com quase 7 minutos e meio de duração, as estações AM simplesmente cortaram a música na marca de 3 minutos, o que impedia os ouvintes de curtir sua parte favorita da canção: “Na na na nanananaaa”. Na rádio FM KSAN de San Francisco, o pioneiro Tom Donahue prometeu tocar “Hey Jude” inteira, bem como apresentou outras ideias inovadoras (blocos de música livres de comerciais, tocar álbuns inteiros em uma hora, etc) como um meio para atrair os ouvintes de AM para a sua estação de FM, e, eventualmente, a ideia pegou em todo o país. Dentro de dez anos, as estações de rádio americanas tinham trocado quase completamente de programação, com música em FM (formato tal que é usado até hoje e em muitos países, como o Brasil).

Por fim, pode-se dizer que, quanto as técnicas de gravação em estúdio, que The Beatles (e seus engenheiros de gravação) ou foram pioneiros ou popularizaram Rastreamento Duplo Artificial (ADT), backmasking, feedback de afinação, distorção, equalização, efeitos estéreo, multitracking, compressão, “microphoning”, etc. Apesar dos Beatles não serem creditados com a invenção da maioria destes truques de estúdio, eles foram responsáveis por inúmeras músicas diretamente inspiradas em artistas desesperados para copiar seus sons originais.

Embora “Hey Jude” nunca tenha tido a intenção de ser inclusa em nenhum LP, foi gravada durante O Álbum Branco e foi lançado como single antes do disco. O lado B, “Revolution” foi uma versão alternativa de “Revolution 1” presente no disco (que Lennon queria ter lançado no single mas os outros três disseram que era muito lenta). Então foi gravada essa nova versão, mais rápida, mais distorcida, quase uma canção precursora do que viria ser o Punk, e um solo de teclados inspirado de Nicky Hopkins foi gravado e colocado como Lado B. Foi o primeiro compacto lançado pela Apple Records e o mais vendido da carreira dos Beatles. Em 1976 foram lançadas 4 músicas desse disco como singles e parte da coletânea “Rock ‘n’ Roll Music”: “Back in the U.S.S.R.”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Julia” e “Helter Skelter”.