Nessa briga não tem “mocinho”
A guerra protagonizada por Doria e Bolsonaro não passa de uma disputa entre a direita para garantir 2022
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Bolsodoria
Doria e Bolsonaro juntos contra a população | Foto: Redes sociais

Quando a pandemia chegou no Brasil já se sabia mais ou menos o estrago que ela poderia causar. Antes de chegar na América Latina já havíamos visto seu poder de fogo na China e na Europa. Notícias vinham todos os dias sobre o estado de calamidade dos países com infectados, os números aumentavam de maneira vertiginosa, todo o sistema de saúde ficava rapidamente sobrecarregado e as pessoas trancadas em casa. Não foram poucos os vídeos de pessoas fazendo apelo aos seus governos pois estavam presas com um defunto dentro de casa.

Mesmo assim, o Brasil esperou o vírus chegar, acomodar-se e se sentir-se em casa. Absolutamente nenhuma medida foi tomada para amortecer o impacto do vírus. Muito pelo contrário, estávamos em pleno carnaval e nada parecia preocupar o governo, nada que não fosse reprimir a população e calar os “Fora Bolsonaro!” “Ei, Bolsonaro, Vai tomar no c*” e outros gritos muito populares que se ouvia ao pôr o pé fora de casa. Os que hoje se dizem opositores de Bolsonaro, “científicos”, “civilizados”, “democratas”, também não fizeram absolutamente nada.

Assim que passou o carnaval e o primeiro caso foi divulgado em São Paulo, também não houve nenhum preparo do governo e o mercado mostrou sua capacidade autorreguladora: o frasco de álcool custava mais de 50 reais, o papel higiênico e as máscaras além de caras tornaram-se produtos em falta.

Somente quando a crise estava consagrada é que começaram a ser tomadas algumas parcas medidas de saneamento dentre todas as recomendações de epidemiologistas no mundo inteiro. Porém só o suficiente para poder fingir que algo estava sendo feito. Nada de testes em massa, coisa que até hoje, quase um ano depois do início da pandemia, não aconteceu, nada de isolamento e paralisação total de todos os setores não essenciais, “fique em casa” somente para as parcelas abastadas da classe média, e muito menos construção de hospitais e produção de equipamento hospitalar para aumentar a capacidade do sistema público de saúde, nem sequer usar as escolas, hotéis, universidades etc como hospitais de campanha.

Quando a crise começou a se tornar uma bomba relógio em todo o país, manifestações apesar da pandemia e um altíssimo nível de rejeição do governo, a imprensa começou a defender que os governadores estavam se mobilizando para controlar o caos. Witzel no Rio de Janeiro, Doria em São Paulo e o dito esquerdista Flávio Dino no Maranhão foram os principais destaques dessa campanha, mas muitos outros estavam inclusos, como Rui Costa da Bahia, Renan Filho em Alagoas e assim segue a lista. Segundo a imprensa golpista, esses governadores, de maioria absoluta de partidos de direita que apoiaram diretamente a campanha de Jair Bolsonaro, estariam contrariando o Planalto para poder dar um combate à altura do vírus, os chamados governadores científicos, em oposição, claro, aos negacionistas de Bolsonaro.

A consequência de toda essa campanha foi apenas um enfrentamento teatral. O resultado seguiu o mesmo, nada de testes em massa, nada de aparelhos respiratórios, nada de paralisação total da economia, coisa que estava no poder desses governadores. No Rio de Janeiro, dos quatro hospitais de campanha que seriam abertos, apenas um abriu e teve de ser desmontado na surdina para que se pudesse inaugurar outro.

A esquerda pequeno-burguesa mergulhou de cabeça, tomando todo impulso possível, nessa campanha farsesca. Louvou-se os valentes governadores, falou-se em frente ampla progressista, ou científica ou pró-vida, e mais importante: fez-se campanha do “fique em casa” de maneira histérica atacando inclusive outros setores da esquerda e dos trabalhadores que foram protestar contra a falta de preocupação do governo com a pandemia. A única campanha feita foi um apelo para que as pessoas ficassem em casa. A pequena burguesia repercutiu de maneira histérica e no meio do ano quando essa campanha era insustentável, pois todos estavam de volta às ruas para trabalhar, transporte público lotado e ainda sem testes, transformou-se em “use máscara”, e o ímpeto para atacar aqueles que saíram de casa para protestar sumiu na hora de cobrar da direita o porquê do abandono dessa campanha.

Conforme as eleições municipais foram chegando, a imprensa falou cada vez menos no vírus e os “números” indicavam uma queda no contágio. Durante as eleições não se lia mais uma linha sobre o covid-19. Todos aqueles que defendiam multar quem saísse às ruas, enviar a polícia para desfazer aglomerações e outros meios absurdos de repressão, agora estavam aglomerados ou aplaudindo aglomerações na campanha de Boulos e Erundina para a prefeitura de São Paulo. Vale à pena lembrar que a direita chegou a planejar a vigilância de pessoas através do celular por vias legais para “monitorar o isolamento durante a pandemia”.

Nenhum dos candidatos durante as eleições colocou o vírus em pauta, a esquerda sequer denunciou a política criminosa da direita em São Paulo ou no Rio de Janeiro, o embate manteve-se entre os “científicos” e os “negacionistas”.

A esquerda aliou-se ao centrão para atacar os negacionistas de Bolsonaro, aliou-se com Paes no Rio contra Crivella e Maia na Câmara contra Bolsonaro. O problema dessa política é que Paes e Maia já declararam “dialogar” com o governo Bolsonaro (para não dizer que o colocaram no poder e são seu sustentáculo).

Passadas as eleições, o vírus voltou às manchetes e em menos de uma semana o que estava quase desaparecendo agora lota 100% dos leitos de UTI nas redes públicas.

Doria em conjunto com os meios de comunicação golpistas faz uma enorme propaganda de que será feita uma intensa campanha de vacinação com a CoronaVac em janeiro, e Bolsonaro tentou antecipar anunciando o uso do imunizante da Pfizer ainda em dezembro.

Ambas as campanhas são insuficientes, primeiro pelo pequeno número de pessoas que será vacinado, segundo pela falta de comprovação científica sobre os efeitos que podem causar. A corrida pela vacina se tornou uma queda de braço para 2022. Bolsonaro no desespero cogita confiscar a CoronaVac de Doria.

O único interesse é ter uma justificativa para liberar completamente o comércio, e usar a campanha como trampolim para as próximas eleições presidenciais.

O problema é que a esquerda, atualmente em menor escala, apoia Doria contra Bolsonaro como se o primeiro fosse portador de um interesse genuíno de resolver a pandemia. Nem o governador de São Paulo nem o presidente do Brasil estão interessados em salvar a população. Passaram os últimos meses ignorando a pandemia, e ainda não fazem nada para efetivamente combatê-la. A burguesia de conjunto está interessada na volta às aulas, no fim completo da quarentena e não está disposta a gastar com hospitais de campanha, leitos ou equipamento de saúde.

Doria está trilhando seu caminho para ser o Biden do Brasil, porém se houver a remota chance de a esquerda ganhar em 2022 através de Lula, e precisar se unir em torno de Bolsonaro, Doria será o primeiro a botar a fantasia de Bolsodoria de novo e ir à imprensa para pedir votos a seu atual adversário.

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