Capitulação à direita
Centrais assinam nota em que propõem a união com “forças democráticas” para enquadrar o governo Bolsonaro
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Centrão comemora o impeachment/golpe de 2016 contra Dilma. |

Em nota divulgada pela CUT na tarde desta quarta (26/02), em seu site, esta e demais centrais sindicais assinaram documento em que se pronunciam sobre o último episódio do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro de ataque ao Congresso, na qual convocou sua base eleitoral para atacar publicamente o Congresso nacional. Na nota as centrais fazem um chamamento à “todas as forças sociais na defesa da liberdade, das instituições da democracia”.  O texto ainda traz algumas conclusões difíceis de aceitar para qualquer defensor dos direitos democráticos, como dizer que Bolsonaro foi eleito em 2018 democraticamente e que, não podemos aceitar os reiterados ataques à “nossa democracia e à estabilidade social conquistadas com a atual constituição federal”.

Realmente são conclusões que exigem um grande esforço de criatividade e que denunciam, na verdade, um esforço grande de adaptação à política golpista da burguesia nacional. Para que não nos esqueçamos, a manipulação do processo eleitoral de 2018 foi uma das maiores fraudes na extensa lista de manipulações da nossa história política, a qual excluiu da disputa o principal candidato, o ex-presidente Lula, através de uma perseguição política de uma operação comandada de fora do país, a Lava a Jato, apreensão de materiais, cassação de milhões de títulos eleitorais, etc. Segundo que a dita democracia e estabilidade social conquistadas são realmente uma peça de ficção, pois a violação aos direitos democráticos e liberdades individuais são incontáveis diariamente, que dirá nestes 32 anos. Grandes exemplos tem os trabalhadores que, por exemplo, nunca tiveram, de fato, o tal do direito de greve – a greve dos petroleiros recém encerrada mostra muito claramente, quando o TSE declarou ilegalidade à greve determinando que 90% dos petroleiros trabalhassem – no processo eleitoral, é mais popular que água saber que é um processo completamente controlado pelo capital, em que lideranças populares, comunitárias e pobres não tem chance alguma, só para citar dois exemplos.

Estas concepções demonstram uma flagrante adaptação ao atual regime golpista, buscando aceitar que seja “virada a página do golpe” assim como o quer a burguesia desde 2016 a qual vem buscando uma forma de estabilizar o regime político golpista e acabar com a polarização política.

Entretanto, a parte mais flagrante da nota é seu aspecto geral, exemplificado pela conclamação final, “à todas as forças democráticas”. Proposição que escancara uma grande capitulação à direita em detrimento de uma política que deveria ser independente e conduzir a classe trabalhadora num enfrentamento real a esse governo e ao golpismo, único caminho para frear todos os ataques. A capitulação se embasa na tese que, somente as forças políticas da esquerda e a classe trabalhadora não são suficientes para enfrentar o governo Bolsonaro, sem explicar o porquê, é claro, assim seria necessário somar forças com outros setores que, no caso, seria as forças políticas do Centrão – DEM, PSDB, MDB principalmente. Um grave erro político, pois estas são as forças políticas criadoras do bolsonarismo, que ao não conseguir derrubar os governos do PT nas urnas lançou mão de elementos da extrema direita aliado a um processo golpista, abrindo uma nova etapa política no país.

Essa descrença na força da classe trabalhadora e consequente proposta de união à direita golpista está sendo adotada por boa parte da esquerda, a qual diz querer combater o governo Bolsonaro, mas na verdade busca primeiro uma conciliação com o Bolsonarismo e em seguida uma reforma no seu projeto de destruição. O que fica claro na nota “Precisamos ultrapassar essa fase de bate-bocas nas redes sociais e de manifestações oficiais de repúdio aos descalabros do presidente da República”. Essa política visa não só não combater o governo Bolsonaro, mas dar-lhe sobrevida, mantendo-o até 2022 ou 2026, o que seria um desastre monumental para o país, haja vista todo o estrago que foi feito somente em 2019.

Essa é a política da Frente Ampla proposta encabeçada pelo PCdoB e que está propondo “aos quatro ventos” alianças com Fernando Henrique Cardoso, Luciano Huck, Rodrigo Maia e que, certamente não teria nenhum problema em negociar com o próprio Bolsonaro e os genarais, como já foi dito por Rui Costa e Flávio Dino, por exemplo, caso este quisesse.

Assim, é preciso destacar que, como maior Central do país e, a única que realmente se constitui como uma pelo seu tamanho, a CUT deve propor à classe trabalhadora uma política que seja independente da política da burguesia, visando apresentar ao país uma via de enfrentamento ao governo Bolsonaro e ao golpismo, pois a classe trabalhadora é a força mais poderosa nos países capitalistas, sendo ela a única capaz de enfrentar a burguesia. Buscar uma aliança com a burguesia golpista somente terá o efeito contrário ao anunciado, que será o crescimento da extrema direita e avanço dos ataques à população.

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