Perigo iminente de censura
O governo fascista de Bolsonaro censura e modifica histórias de livros infantis e é criticado pelo escritor infanto-juvenil Pedro Bandeira
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
pedro_bandeira (1)
O escritor Pedro Bandeira | Foto: Divulgação

Por enquanto, ainda não estamos vendo a queimas de livros em praças públicas, mas mesmo assim a hipótese não poder ser descartada no atual contexto em que o Brasil vive. Mas a inexistência de fogueiras, não significa muita coisa, pois o medo dos livros, e de tudo que eles podem oferecer, se reinventa todos os dias, em artimanhas veladas, de Damares e outros bolsomimions de plantão, muitas vezes investidas de valores morais e disciplinares. Pretensamente iniciadas por famílias preocupadas com a “má influência das leituras” em suas crianças e adolescentes, é que surge a onda de denúncias e perseguições a livros de literatura nas escolas brasileiras.

Com toda a razão, escritores, educadores e especialistas em infância, acusam o governo fascista de Jair Bolsonaro de censura pelo programa, da Sealf (Secretaria de Alfabetização), subordinada ao MEC (Ministério da Educação) com o lançamento da coleção “Conta pra Mim”, parte do programa de literacia familiar, mostrando sua falsa moralidade. Entre os quarenta livros na lista, como “Chapeuzinho Vermelho” e “João e Maria”, o programa traz versões novas, mais tradicionais, ou seja, hipócritas, ao gosto dessa direita que está cancelando a esquerda.

Posto que infelizmente, ainda hoje, para muitos, como a classe média hipócrita, a literatura infantil e a juvenil deve ter a função de ensinar de acordo com a “moral” de alguns grupos sociais, a burguesia mais especificamente, porque isso não cabe para “proteger” as crianças pobres. Na versão dos fascistas, não há beijos entre os personagens, mortos são substituídos por presos e bruxas desaparecem. Uma figura marcante para várias gerações de jovens, Pedro Bandeira, um dos mais importantes escritores brasileiros de literatura infantil e infanto juvenil, autor de sucessos como “A Marca de uma Lágrima e “A Droga da Obediência”, escreve uma carta sobre o programa. Leia abaixo texto de Bandeira sobre o assunto.

“Agora eu explico porque tinha medo da história, mas queria ouvir tudinho de novo. Que naquele tempo o que eu tinha mais medo era de ser abandonada por você e pela mamãe, como aconteceu com o João e com a Maria. Eu tremia de medo, mas sabia que estava no seu colo quentinho, bem distante do abandono.

E eu pedia pra ouvir a história de novo, até ficar convencida de que eu nunca, nunca seria abandonada por vocês! Mas nessa nova história que você me contou não tem nada disso! As crianças não são abandonadas pelos pais! Elas saem pra passear na floresta e não é o João que tem a ideia de levar pedrinhas coloridas no bolso pra ir marcando o caminho de volta; A a mãe deles que dá as pedrinhas pra eles! Como a gente vai tremer ouvindo isso? Cadê a graça da história?

Se eu não tivesse tremido com ela do jeito que você me contava, acho que ainda hoje eu estaria morrendo de medo de ser abandonada…

Outro problema não era a Chapeuzinho Vermelho? Na que você me contou e repetiu várias vezes, a mamãe dela mandava que ela fosse por um caminho mais seguro, mas ela achava que já estava grande e decidiu seguir por seu próprio caminho. Por isso acabava encontrando um lobo, que não era um lobo de verdade, era um sujeito de conversa mole, que elogiava a capinha vermelha dela, dizia que ela era bonitinha e perguntava onde ela estava indo e onde era a casa da vovó. E, apavorada com a lábia do lobo, eu ficava pensando que não deveria dar a menor bola pra desconhecidos, que poderiam fazer comigo e com a vovó coisas que eu nem sei bem o que sejam…

E a Branca de Neve? A que eu conhecia dizia que a rainha invejosa da beleza da Branquinha virava uma bruxa pra matar a pobre, mas os anões no final jogavam a bruxa do alto da montanha pra ela nunca mais voltar. Eles matavam a inveja da beleza!

Mas nesse novo livrinho a inveja não morre: ela vai pra cadeia, de onde poderão ser libertada um dia e novamente sair por aí perseguindo tudo que lhe dá inveja! Nessa história que você ganhou de presente, acho que eles quiseram fazer tudo mais bonitinho, mas acabaram fazendo uma coisa mais assustadora pra mim: a bruxa malvada continua viva dentro das pessoas e pode até ficar soltinha da silva com um tal de habeas corpus que eu nem sei bem o que é…

E o “Flautista de Hamelin”, então? Ele afoga os ratos que infestavam a cidade, mas, quando não lhe pagam o que ele havia pedido pelo trabalho, ele não toca outra musiquinha pra levar pra longe as crianças da cidade! Desse jeito, que história é essa? O que quer dizer? Cadê a graça?

E tudo isso acontece com as outras historinhas que você ganhou do presidente. Nem me conte nada disso de novo. Quero as histórias que você, a mamãe e a vovó sempre me contaram, que me davam medo, mas me faziam feliz e me ajudavam a crescer. Essas outras histórias bobinhas com desenhos sem graça, leve pra longe de mim.

Olha, papai, se eu soubesse escrever, era isso tudo o que ia contar pra você.

Uma beijoca da sua filha.”

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas