Direita no controle
O aprofundamento do golpe de Estado na Bolívia se aproxima articulando as novas eleições presidenciais para legitimar a direita e a extrema-direita no poder.
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Crpoedios: Mitra Taj/Reuters |

Evo Morales, que governou a Bolívia de 2006 a 2019, quando foi deposto por um golpe de Estado, foi apoiado pelos camponeses indígenas do pobre Altiplano Andino, que falam idiomas autóctones como o quéchua e o aymará, enquanto seus adversários são os políticos das províncias das planícies, que fazem fronteira com Brasil, Paraguai e Argentina, e têm forte presença branca, concentrando, historicamente, o poder econômico do país.

O golpe de Estado que derrubou Morales, teve início em unidades da Polícia nas cidades de La Paz, Santa Cruz, Sucre e Cochabamba, que se rebelaram contra a vitória eleitoral que o reelegeu presidente. A revolta teve início em Cochabamba, quando um policial com o rosto coberto anunciou no Quartel-General da Unidade Tática de Operações: “Estamos amotinados”.

Atualmente, na província do Chapare, localizada no trópico de Cochabanba, a população tem se colocado contra o reconhecimento da autoridade da polícia, a ponto do Ministro do Governo, Arturo Murillo, alertar sobre a necessidade de retornar a presença do Estado na região. As lideranças da região argumentaram que perderam a confiança nos homens uniformizados, que declararam um motim e depois levantaram a demissão do ex-chefe de Estado.

Os produtores de folhas de coca na área expulsaram a polícia após uma apreensão, que ocorreu depois da renúncia do ex-presidente Evo Morales, e da assunção de Jeanine Áñez à Presidência de forma ilegítima e contra a vontade popular. Cerca de 85 policiais destinados a realizar tarefas de segurança nesta área foram retirados para Cochabamba, depois que as unidades policiais foram atacadas, e a segurança na área ficou a cargo de um órgão de segurança do sindicato. Os produtores de coca anunciaram que não permitirão seu retorno.
No fim de semana retrasado, a líder da coca Segundina Orellana, confirmou que havia perdido a confiança na polícia. “Nossos afiliados discordam do retorno da polícia. Se eles querem voltar, primeiro precisam pedir perdão de joelhos ”, disse ela.

As tensões sociais provocadas pelo amotinamento da polícia contra Morales, acirra uma luta que vem de longe, e piorou com o programa de erradicação dos cultivos ilegais na Bolívia, e que já tinham deixado a região do Chapare, principal região produtora de coca ilegal, em clima de guerra.

A Bolívia, que é o terceiro produtor de coca no mundo, depois de Colômbia e Peru, embora tenha na planta milenar a matéria-prima para a fabricação de cocaína, desde os tempos pré-coloniais tem a sua utilização pelos nativos para mastigar, fazer chás, e aplicar em rituais religiosos.

A folha de coca, originária dos antepassados incas dos cocaleiros da região, é o produto central da cultura indígena local, cujo temor pela sua perda tem assombrado os nativos da região, não só por ser algo que faz parte da identidade daquele povo, mas também por ser a única atividade econômica da região.

Uma das duas principais etnias indígenas que compõem a população boliviana, a aymará, com forte presença na região do chapare, também sofreu duro ataque de etnocídio nos últimos 500 anos de ocupação da América. E são eles que afirmam: “Não deixaremos que nos tirem mais nada.”

A principal reivindicação dos cocaleiros do Chapare é a manutenção de um “cato” (medida equivalente a 1.600 m2) de coca para cada uma das 40 mil famílias. E isso depois da redução de cerca de 32 mil hectares, em 1997, para menos de 1.500 hectares. Com essa determinação, os camponeses chaparenhos viram sua principal fonte de renda desaparecer, provocando uma onda de protestos que está longe de ter um fim.

Mas a direita no poder, que pretende dizimar a população indígena impondo o seu branqueamento, e, enquanto isso não ocorre, evangelizá-los, para torná-los mão-de-obra dócil à exploração, se ocupa com o aprofundamento do golpe, preparando novas eleições sem Evo Morales, que era um dos principais defensores da cultura indígena e líder sindical antes mesmo de se eleger presidente em 2006. Muito provavelmente, a região que radicalizou a sua posição contra os golpistas, ficará sem representação nas eleições, o que não será nenhuma surpresa, mas trará muito mais revolta da população local.

Com as eleições, Jeanine Áñez prepara a legitimação da direita no poder de forma fraudelenta, através de uma verdadeira farsa eleitoral, algo contra o que toda a população indígena já vem se opondo, que é a grande maioria da Bolívia, a exemplo dos cacaleiros do Chapare.

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