Siga o DCO nas redes sociais

Polêmica com Emir Sader
Golpe ou “falta de consciência do povo”?
Em artigo do dia 2 de janeiro, Emir Sader atribui à “falta de consciência do povo” a responsabilidade pela ascensão da extrema-direita.
emir sader
Polêmica com Emir Sader
Golpe ou “falta de consciência do povo”?
Em artigo do dia 2 de janeiro, Emir Sader atribui à “falta de consciência do povo” a responsabilidade pela ascensão da extrema-direita.
Sociólogo Emir Sader. Foto: ASCOM/Jornal Grande Bahia
emir sader
Sociólogo Emir Sader. Foto: ASCOM/Jornal Grande Bahia

No dia 2 de janeiro, o portal Brasil 247 publicou o artigo E agora, Brasil?, assinado pelo sociólogo Emir Sader. No texto, Sader discute rapidamente a situação do país e apresenta o livro E agora, Brasil?, que reúne escritos de diversas figuras com atuação na política nacional. Chama atenção, no entanto, que Sader elabora uma tese confusa para justificar o avanço da extrema-direita: a de que os brasileiros “valorizam” cada vez menos a “democracia”.

A tese de Emir Sader sobre a “desvalorização” do que chama de “democracia” aparece em vários momentos do artigo:

Que os brasileiros valorizem cada vez menos a democracia é uma grande vitória da direita e uma grande derrota para as forças democráticas. A direita governa contra a democracia, estreitando suas margens, atacando seus valores, exercendo o poder de forma autoritária, liberando as polícias para o uso indiscriminado da força contra a população mais pobre.

(…)

O povo não costuma valorizar a democracia porque ela não lhe trouxe muitas coisas. Na saída da ditadura, o governo Sarney foi um misto de continuidade do velho regime e de elementos novos, que esgotou o impulso democrático que vinha da resistência à ditadura.

(…)

A democracia não tinha representado mudança das condições de vida da população em relação à ditadura. O povo brasileiro não tinha por que valorizar a democracia.

Da forma como Emir Sader expõe o problema, poder-se-ia concluir que o povo brasileiro, incapaz de compreender os fenômenos ao seu redor, não teria atingido a maturidade suficiente para contemplar o valor universal da democracia. Isto é, a democracia seria, portanto, uma espécie de auge da civilização, um valor sagrado que deveria ser defendido a todo custo, embora houvesse muita gente que não tivesse a “consciência” de sua superioridade.

Essa tese, no entanto, apresenta dois problemas centrais: em primeiro lugar, a democracia não é um valor universal, é apenas um regime sob o qual o capitalismo procura ocultar toda a sua podridão; em segundo lugar, o povo brasileiro, muito diferentemente do que coloca Sader, não carece de uma “conscientização” para entender o que é melhor para si.

Que a democracia deve ser refutada pelos trabalhadores de todo o mundo, já está exaustivamente comprovado. Todas as democracias que existiram até hoje foram democracias burguesas – portanto, verdadeiras ditaduras da classe dominante sobre seus subjugados. Em todas as democracias que existira, a burguesia era sempre a classe que controlava todas as instituições – deste modo, a democracia era nada mais que uma farsa para os trabalhadores que lutavam pelos seus direitos.

A democracia norte-americana acabou de assassinar um líder popular iraniano, a democracia brasileira substituiu uma presidenta democraticamente eleita por um capacho do imperialismo em 2016, a democracia colombiana vem promovendo uma perseguição sangrenta a toda a oposição há anos, os códigos penais em todo o mundo engordam a cada período que se passa… A democracia, portanto, não é um valor universal, é um recurso para perpetuar a dominação da burguesia.

Já a tese de que o povo precisaria ser “conscientizado” da necessidade da democracia é, por si, absurda, pois levaria à conclusão de que haveria um setor da sociedade que já teria alcançado a “consciência” da importância da democracia, segregando o mundo entre uma fração a ser educada e uma fração educadora. O problema de tal hipótese de que seria necessário considerar que a fração educadora foi educada também, o que tornaria a questão da “democracia” uma espécie de saber divino, desvinculado da experiência prática dos seres humanos.

No fim das contas, a tese absurda de que os brasileiros não souberam “valorizar” a “democracia” apenas serve para culpar o povo pela situação em que o país se encontra. Afinal, se os brasileiros fossem conscientes dos benefícios da “democracia” – consciência essa que Sader, implicitamente, atribui para si -, a extrema-direita e sua ofensiva contra os direitos democráticos não teriam qualquer êxito.

Essa tese, embora esteja disfarçada de autocrítica por parte do sociólogo – Emir Sader aponta que a esquerda não procurou “promover a consciência democrática na massa da população” -, serve apenas para que os ideólogos da esquerda pequeno-burguesa ocultem a verdadeira responsabilidade pela situação em que o mundo se encontra. Não faltou ao povo “valorizar” a “democracia” – até porque o povo é, por definição, democracia. Onde o povo procura se reunir, há organizações democráticas. Independente das lições dos ideólogos pequeno-burgueses, os trabalhadores, no último período, procuraram se sindicalizar, formar comitês de luta contra o golpe, comitês de greve e todo tipo de associação que são muito mais importantes para os direitos da população do que o parlamento burguês.

O que faltou – e tem faltado -, por parte das direções da esquerda pequeno-burguesa é justamente isso: uma política que organize os trabalhadores para o enfrentamento contra a direita. É nisso que se apoia o fascismo, o golpismo e toda a ofensiva contra os povos do continente: diante da falta de iniciativa das direções da esquerda nacional, diante da indisposição em se chocar com o regime político, a direita se sente à vontade para passar por cima de qualquer direito democrático.