Globo “lacrou” na entrevista de Bolsonaro, mas também derrubou Dilma e apoiou a reforma trabalhista

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Jair Bolsonaro (PSL) é um fascista típico: impõe-se no grito, pela força, fala e age sem ouvir nem pensar, pronto a destruir tudo aquilo que não compreende. Em sua entrevista ao Jornal Nacional na noite da última terça (28), ele não foi diferente.

Chamou o pódio do estúdio de “plataforma de tiro”, gritou, interrompeu constantemente os entrevistadores, foi evasivo e expôs ao vivo em rede nacional o seu lamentável estado de confusão mental e os limites de sua compreensão da política e do mundo.

De modo geral, Bolsonaro orgulha-se de sua mediocridade e de sua incapacidade em elaborar políticas públicas. Afinal, ele não voltava suas atenções para as demandas da população, ressaltando que ocupava-se tão somente de manter seu mandato, e acrescentando “sempre integrei o baixo clero em Brasília, se tivesse ocupado – na política – altos postos, com toda certeza eu estaria envolvido na lava-jato em Brasília”. Está feita a promessa.

Como se sabe, após uma visita aos Estados Unidos no final de 2017 – quando bateu continência para a bandeira daquele país – Bolsonaro logrou algum contato com setores do imperialismo. Isso não apenas o levou a abandonar o discurso nacionalista típico do fascismo, como também o associou ao Chicago boy e discípulo de Milton Friedman, Paulo Guedes (fundador do Banco Pactual e do Instituto Millennium – um dos berços ideológicos do golpe em curso no Brasil).

Bolsonaro não se importa com políticas públicas – a ponto de referir-se ao responsável pela pasta da Agricultura como “Ministro da Agronomia”. Fez questão de ressaltar inclusive que não comporá um ministério com indicações políticas – como se no sistema atual não dependesse dessas alianças para a aprovação de matérias no Congresso. Bolsonaro acha que salário é questão de competência, mas não perde a oportunidade de se queixar dos baixos salários das Forças Armadas.

Bolsonaro, aparentemente, assim como tantos outros políticos do “baixo clero”, preocupa-se somente com os assuntos comezinhos relativos a pequenas oligarquias paroquiais que o levaram ao poder, e que não dizem respeito a políticas de Estado nem aos interesses da maioria da população explorada. Foi o que se viu no Show de Horrores da Câmara dos Deputados, quando se votou o impeachment de Dilma Rousseff, num passo decisivo do golpe de Estado que se aprofunda no País.

Sua capacidade argumentativa é tão débil que mesmo os âncoras de plástico da Rede Globo que o entrevistavam – William Bonner e Renata Vasconcellos – conseguiram encurralá-lo com questionamentos que vão pouco além do senso comum (abaixo do qual está a visão de mundo do candidato).

Após ser questionado sobre a ausência de políticas de redução da desigualdade de gênero em seu programa, tentou um ataque pessoal a Vasconcellos, argumentando que se ela tem salário mais baixo que seu colega de trabalho, deve ser devido a sua incompetência. A jornalista ponderou o óbvio: o que estava sendo discutido era a política do candidato, e não a vida profissional de seus interlocutores.

E o ex-capitão do exército prosseguiu em sua linha coprológica de raciocínio: ombreou com o empresariado ao criticar todo e qualquer direito trabalhista, atacou a PEC do Trabalho Doméstico – que garantiu jornada máxima de trabalho, horas extras e FGTS aos trabalhadores do lar –, defendeu o extermínio da população pobre pela polícia, que para ele deve atirar primeiro e perguntar depois – como numa guerra. O show de asneiras era tal que os entrevistadores não tiveram dificuldades em colocá-lo contra as cordas munidos simplesmente da capacidade mínima de articular com lógica o raciocínio.

Esmagado pelo senso comum, acuado por jornalistas da corporação que está à frente do golpe de Estado, restou a ele apelar para o argumento de autoridade, de modo a safar-se. Lembrou que a Rede Globo não apenas apoia sua política como floresceu como grande império das comunicações nas costas da brutal ditadura militar implementada no Brasil após o golpe de 1964, a que ele mesmo chama carinhosamente de “revolução”.  Lembrou aos apresentadores da emissora as palavras de seu fundador, Roberto Marinho, em editorial de 1984 – às portas da redemocratização:

Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada.

Globo e Bolsonaro são crias da mesma cepa: o imperialismo e sua relação com o militarismo no Brasil. A Globo apoiou o golpe de 1964. A Globo promoveu e apoia o golpe de 2016. O ataque de seus funcionários a Bolsonaro serviu apenas como escada para que ele pudesse fazer de sua entrevista um palanque para desempenhar o papel de palhaço que sempre fez na Câmara dos Deputados – difícil de ser encenado com companhias tão bizarras quanto os demais candidatos que comparecem aos debates televisivos. Serve ainda para reforçar sua função de espantalho, perto de quem candidatos mais alinhados ao establishment – direitistas como Alckmin, Marina, Amoedo ou Ciro – parecem até civilizados. Não o são: tanto quanto Bolsonaro – ou até mais – esses candidatos e a Globo nada mais farão que aprofundar o golpe em curso no país. A Globo apoiou derrubada de Dilma e todas as reformas do governo Temer, ressentindo apenas não haverem sido elas mais brutais e profundas.

Além de setores despolitizados, evidentemente a Globo granjeou com essa estratégia o apoio de parte da esquerda pequeno-burguesa, para quem a dupla televisiva de entrevistadores “lacrou”. Afinal, essa esquerda não sabe o que é luta de classes e não vê nada na política além de eleições. Certamente concordam com o editorial da Globo publicado há cinco anos – quando já se armava o golpe no Brasil – ao retratar-se publicamente por sua política ditatorial e militarista. “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma” – uma contradição em termos pois mesmo os limitados direitos democráticos só são conseguidos com luta e com mobilização popular.