85 anos do compositor
Geraldo Vandré foi um dos maiores cantores e compositores brasileiros dos anos 60 com uma obra que refletia sua luta contra a ditadura militar
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
MUSICA=RIO DE JANEIRO Entrega doe prêmios do III Festival Internacional, no Monte Líbano 07.10.1968
Geraldo Vandré, 7 de outubro de 1968, no Monte Líbano, Rio de Janeiro. | Foto: Antonio Teixeira/CPDoc JB

Geraldo Vandré foi a expressão máxima da música brasileira nos anos 60, um período de extrema turbulência e radicalização política em todos os países do mundo, que afetou profundamente a cultura e a arte. Vandré expressava também os ideais do CPC da UNE, o Centro Popular de Cultura, que defendia uma arte de caráter nacional, com elementos de origem brasileira e que fosse apresentada diretamente aos trabalhadores. Vandré incorporou elementos da música nordestina e uma mensagem política de caráter revolucionário que foi bruscamente interrompida pelo aprofundamento da ditadura militar com a implantação do AI-5 em 1968.

Nascido em João Pessoa

Geraldo Pedrosa de Araújo Dias nasceu em João Pessoa, Paraíba em 12 de setembro de 1935, filho do médico otorrinolaringologista José Vandregíselo e de Maria Martha Pedrosa Dias.
Desde jovem demonstrou ter um gênio irrequieto, sendo internado pelo pai no Colégio São José em Nazaré da Mata no interior de Pernambuco. Demonstrou logo interesse na música, participando de vários concursos de calouros.

Em 1951 mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, fator vital para sua entrada na carreira artística. Em 1955, com o nome de Carlos Dias, apresenta-se num festival promovido pela TV Rio defendendo a música “Menina”, composição de Carlos Lyra. Nesse mesmo ano grava, com a ajuda financeira da mãe, um disco com duas músicas no estilo de Orlando Silva e Francisco Alves para mostrar o seu trabalho. Passou em várias rádios para mostrar seu disco e acabou conhecendo vários artistas como Luis Eça e Ed Lincoln. Foi então que mudou de nome para Geraldo Vandré, uma abreviatura do sobrenome do pai.

No ano de 1957 entra na Universidade do Distrito Federal e começa a participar do movimento estudantil, integrando-se ao CPC da UNE, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, onde aumentou seu laço de amizade com Carlos Lyra, seu primeiro parceiro musical.

Algumas de suas primeiras composições conjuntas são “Aruanda” e “Quem Quiser Encontrar O Amor”. Esta última se torna tema musical de “Couro de Gato”, curta metragem que marcará a estréia do diretor Joaquim Pedro de Andrade. O curta depois seria incluído como um dos cinco episódios do longa metragem “Cinco Vezes Favela” de 1962.

Forma-se em direito na Universidade do Estado da Guanabara em 1961 e consegue um emprego na Comissão Federal de Abastecimento (posteriormente Superintendência Nacional de Abastecimento ou SUNAB). Também nesse ano conhece Baden Powell, com quem faz várias parcerias como “Fim De Tristeza”, “Nosso Amor”, “Samba de Mudar”, Se A Tristeza Chegar” e “Rosa Flor”.

Estréia em disco

Estréia em disco no mesmo ano lançando um 78 rpm com “Quem Quiser Encontrar O Amor”, parceria com Carlos Lyra e no lado B “Sonho de Amor e Paz” de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Sob a influência das idéias do CPC da UNE começa a compor canções com elementos da música, poesia e ambientes nordestinos como o baião “Fica Mal Com Deus”. Nessa mesma linha compõe “Canção Nordestina”. Ao cantar a música pela primeira vez num show no Colégio Mackenzie em São Paulo a música foi recebida com espanto pela platéia pequeno burguesa que reclama: “isto não é bossa nova!”. O disco sai em disco de 78 rpm em 1963 com “Fica Mal Com Deus” no lado B.

Em 1963 casa-se com Nilce Therezinha Cervone (ou Nilce Tranjan). Ela o apresenta ao cineasta Roberto Santos, que encomenda a Vandré a trilha sonora para seu filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, lançado em 1965. Vandré também atua como figurante e co-produtor do filme. O tema de abertura, “Réquiem Para Matraga” foi incluida no terceiro LP do cantor, “5 Anos de Canção” de 1966. Como Vandré não tinha domínio da escrita musical ele cantava as suas melodias ao maestro, mas a cada vez de uma maneira diferente.

Nilce revela que logo após o casamento Vandré é preso por alguns dias em um navio-prisão ancorado em Santos (vapor Raul Soares). O episódio mostra que desde esta época o regime militar já tinha Vandré sob sua mira.

1964: Primeiro LP

O primeiro LP de Vandré, “Geraldo Vandré” foi lançado em 1964, mesmo ano do golpe militar. O disco inclui três parcerias de Baden Powell e Vinicius de Moraes (incluindo “Samba em Prelúdio”, regravada com Ana Lúcia). É um disco ainda sob a forte influência da bossa nova. Um dos destaques é o baião “Fica Mal Com Deus”, arranjada por Moacir Santos, composta por Vandré. A música tem poucos acordes, num estilo modal que se tornará uma característica do cantor.

“Hora de Lutar”, segundo álbum de Vandré é lançado em 1965. Cinco faixas são composições solo de Vandré (“Hora de Lutar”, “Ladainha”, “A Maré Encheu”, “Vou Caminhando” e “Canto Do Mar”), além de parcerias com Baden Powell, Carlos Castilho, Carlos Lyra e Erlon Chaves. Trouxe ainda “Sonho de Um Carnaval” de Chico Buarque (a segunda gravação de uma música do então jovem compositor) e “Asa Branca” em arranjo muito original.

Começa, então a participar dos famosos festivais de música. No 1º Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, interpreta “Sonho de Um Carnaval” de Chico Buarque, além de concorrer também como compositor com a música “Hora de Lutar”. Na finalíssima do festival “Sonho de Um Carnaval” termina em sexto lugar. Vandré diz que “o Chico não ganhou porque eu cantei mal”.

Em 1966 Vandré compõe junto com Gilberto Gil e Torquato Neto a música “Rancho da Rosa Encantada” que é inscrita no 2º Festival Nacional da MPB da TV Excelsior. A música não é classificada, mas outra composição de Vandré, “Porta Estandarte”, uma marcha-rancho, parceria com o baiano Fernando Lona, escrita no carnaval na cidade de Penápolis, vence o festival e abre novas portas para o cantor. No festival ela foi defendida por Airto Moreira (do Sambalanço Trio) e pela cantora Valeniza Zagni da Silva, mais conhecida como Tuca.

Nesse ano lança seu terceiro LP, “5 Anos de Canção”, onde todas as canções foram escritas por Vandré, algumas delas em parceria com Fernando Lona, Alaíde Costa e Baden Powell.

Com o sucesso de “Porta Estandarte” Vandré faz uma série de apresentações pelo nordeste com o acompanhamento de Airto Moreira (bateria), Heraldo do Monte (guitarra e violão) e Théo de Barros (baixo e violão), coletivamente conhecido como o Trio Novo. Com a entrada de Hermeto Pascoal (flauta) o grupo se torna o Quarteto Novo. Esse grupo instrumental adquire uma vida própria, lançando um notável LP em 1967 pelo selo Odeon. No repertório do disco estão cinco composições de Vandré como “O Ovo”, parceria com Hermeto.

Disparada

Numa viagem entre Catanduva e São Paulo Vandré compõe a letra de “Disparada”, uma parceria com Théo de Barros, que se torna uma de suas músicas mais celebradas. A música é lançada em compacto com “Canto Aberto” no lado B. Foi inscrita no 2º Festival da MPB da TV Record, com a emocionante interpretação por Jair Rodrigues. “Disparada” fica em segundo lugar, atrás de “A Banda” de Chico Buarque. Chico não concorda com o resultado, dizendo que “Disparada” era a vencedora do festival e que não aceitaria o prêmio. A situação é resolvida quando Chico é informado que ele e Vandré dividiriam o primeiro lugar.

Em 1968 Vandré compõe a canção “Che” com Marconi Campos da Silva. Esta homenagem ao guerrilheiro, líder da revolução cubana, é inscrita no Festival Mundial da Juventude em Sofia, Bulgária e defendida pelo próprio Vandré, que ganha o primeiro lugar e também o prêmio de melhor interprete. Lança, no mesmo ano, o quarto LP, “Canto Geral”, considerado seu trabalho mais combativo em oposição à ditadura militar, com canções como “O Plantador”, “Guerrilheira” e “Terra Plana”.

Prá Não Dizer Que Não Falei das Flores

No 3º FIC (Festival Internacional da Canção) Vandré inscreve a sua música “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, mais conhecida como “Caminhando”. Com esta canção ele cria o hino definitivo da resistência contra a ditadura militar.

O júri do festival declara como vencedora a canção “Sabiá”, composição de Chico Buarque e Tom Jobim, que depois ganhou também a parte internacional do festival. O segundo lugar concedido a “Caminhando” revolta o público que vaia a dupla de cantoras Cynara e Cybele que apresentaram a canção vencedora “Sabiá”.

O jurado Ziraldo lembrou de uma frase emblemática de Vandré numa conversa que tiveram num restaurante do Rio logo após este episódio: “Eu sabia exatamente o que fazer com o dinheiro. Os companheiros precisavam dessa ajuda”. Dulce Maia, militante do VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) declara que Vandré fazia shows para ajudar grupos que se opunham ao regime militar.

“Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” foi lançada em compacto em 1969, mas logo em seguida é proibida pela censura.

Ainda em 1968 Vandré participa do 1º Festival Universitário da Canção Popular, da TV Tupi, com a música “Não Se Queima Um Sonho”, escrita pelo estreante Walter Franco. A composição, uma homenagem a Che Guevara, também não passa da fase classificatória. Logo em seguida o regime militar decreta o AI-5 (Ato Institucional 5) que obriga Vandré a se fugir do país. Depois de passar dias escondido na fazenda de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, viúva do escritor Guimarães Rosa, o compositor parte para o Chile, em seguida para o Peru e de lá para a Argélia, Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária e França.

Enquanto esteve no Chile lança um compacto com as músicas “Caminando (Para No Decir Que Yo Hablé De Flores)”, versão de “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” e “Desacordonar (El Hombre Del Asadón)” no lado B. No Brasil sai com o título “Geraldo Vandré No Chile”. No exílio continuava a ser vigiado pelos militares. O quinto LP do compositor, “Das Terras do Benvirá” foi lançado em 1973. Era composto de gravações feitas em novembro de 1970 em Paris.

Daí em diante Vandré abandona a carreira artística e vai trabalhar como advogado e servidor público. No início dos anos 90 apresenta sua composição “Fabiana”, uma homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira), certamente o ponto mais baixo de sua carreira. O autor chega a declarar que nunca fez música de protesto e que nunca teve problemas com os militares. Muitos interpretam isso como uma reação a um histórico de torturas.

O legado artístico de Geraldo Vandré se concentra em seus quatro primeiros LPs, onde era a vanguarda da música popular brasileira. Neste seu 85º aniversário saudamos o cantor e compositor que representou a revolta contida na voz do povo contra a ditadura militar.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas