Eleições na Câmara
Nesta terça (1º) a disputa pela eleição da presidências da Câmara se mostrou um verdadeiro leilão de deputados
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Rodrigo Maia | Pedro Ladeira (Folhapress)
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Rodrigo Maia | Pedro Ladeira (Folhapress)

Para a disputa pela presidência da Câmara, nesta terça (1º), o governo golpista de Bolsonaro lançou mão de emendas parlamentares, cargos no governo e verbas extras para obras, para dar um incentivo aos deputados para que apoiassem seu candidato, Artur Lira (PP-PB). Jogando pesado com o aparato estatal, o governo conseguiu impor uma irreversível crise na base do candidato de Rodrigo Maia (DEM-RJ), o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), superando o fisiologismo dos adversários e criando um verdadeiro racha no bloco, que viu os parlamentares dos próprios DEM, MDB, PSDB e afins, passarem para o apoio a Lira. Ou seja, o que ocorreu no Congresso não se trata de uma eleição, mas de um verdadeiro leilão de deputados, no qual quem “paga mais, leva”.

Artur Lira e Baleia Rossi, as duas faces do fisiologismo burguês

O leilão

Segundo informações da própria imprensa burguesa, divulgadas pelo Estadão, parte dos parlamentares que trocaram Baleia Rossi por Artur Lira receberam verbas extras do governo através do Ministério do Desenvolvimento Regional.

Além disso, 285 deputados ganharam 3 bilhões de reais em emendas parlamentares para utilizarem em seus redutos eleitorais. Outros 140, dos 235 que declararam apoio ao candidato de Bolsonaro, aparecem – na planilha informal do governo (ao qual o Estadão teve acesso) – como beneficiários de 1,2 bilhão de reais em recursos extra para obras em seus Estados.

Apesar disso e desses recursos terem sido autorizados em dezembro, os parlamentares dizem que a liberação destes recursos milionários e bilionários não tem ligação com as eleições no Congresso.

Diferente das emendas parlamentares, que permitem acompanhar o processo desde a indicação do recursos até a execução da obra, as verbas liberadas pelos ministérios, para obras, não tem mecanismos de rastreio, o que permite um verdadeiro loteamento de grandes e vultosos recursos públicos, que viram a moeda de troca valiosíssima na política burguesa do “convencimento” dos deputados.

O líder do governo Bolsonaro no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO) foi um dos contemplados pela verba extra, fornecida pelo Ministério do Desenvolvimento Regional. Com 85 milhões, o senador contou ao Estadão que os recursos ajudam a “sensibilizar” os parlamentares a votarem com o governo:

“É evidente que, quando o governo tem essa sintonia e trabalha com municípios e estados, tem uma tendência de que fique com o governo.”

Isso é apenas uma pequena demonstração de como as eleições na Câmara tratam-se de um verdadeiro leilão, onde a ideologia e os interesses da população são aspectos completamente secundários, quando existentes.

Por exemplo, a esquerda parlamentar embarcou no apoio ao bloco golpista de Maia e Baleia Rossi (DEM, MDB, PSDB, PSL e afins) na Câmara! O discurso utilizado para justificar tamanha capitulação foi o de combate ao bolsonarismo, que seria o “mal maior” a evitar. No entanto, esse argumento caiu por terra quando o assunto foi a disputa no Senado, onde o PT, por exemplo, apoiou o candidato do próprio Bolsonaro, o senador Rodrigo Pacheco (DEM). Logo, se o critério era combater o bolsonarismo a qualquer custo – mesmo se aliando aos que derrubaram Dilma e atacaram violentamente a população do golpe de Estado para cá – por que no Senado seria diferente? O candidato de Bolsonaro no Senado seria progressista? Ou seria anti-Bolsonaro?

Nenhum, nem outro. Era na verdade uma tentativa de utilizar um argumento com “verniz” progressista para acobertar uma política reacionária!

Assim, enquanto os próprios elementos da direita golpista pularam fora do barco em busca de cargos, a esquerda, que também entrou neste barco furado por cargos, agora se vê desmoralizada e sem cargo. Chega a ser bizarro, a esquerda que fala tanto em “pragmatismo” adota uma espécie de “fisiologismo ético”, enquanto que a direita expressa um fisiologismo “pragmático”.

Não que o bloco de Rodrigo Maia seja formado parlamentares mais íntegros que os adversários. Pelo contrário! O grupo de Maia contém políticos habilidosos gestores do leilão de deputados. Vale lembrar que tratam-se dos que fizeram todo tipo possível e imaginável de maracutaias e esquemas criminosos contra o povo. Como no caso do impeachment da presidenta Dilma Roussef (PT), da aprovação das reformas trabalhista e previdenciária nos governos golpistas de Temer e Bolsonaro.

O grande problema é que, desta vez, Maia não conseguiu superar a máquina federal, dado que Bolsonaro, junto com Lira, foram muito mais perspicazes na disputa, abdicando inclusive de ministérios ideológicos da extrema direita, representando uma integração cada vez maior de Bolsonaro ao centrão.

Bolsonaro é um político oriundo do baixo clero direitista da Câmara, que sempre mudou de posição em troca de vantagens. Porém, desta vez do outro lado e sabendo como as coisas funcionam e com máquina estatal nas mãos, Bolsonaro vai conseguindo impor uma verdadeira derrota ao bloco de Maia, que caminha para ser superado por ampla margem pelo candidato do governo golpista.

Esta situação mostra a força que o centrão tem dentro do Congresso. É semelhante ao que ocorreu no momento em que a Rede Globo levantou uma denúncia contra Temer por corrupção no caso da JBS, com Joesley Batista, e ele distribuiu mundos e fundos aos parlamentares e se blindou dos ataques da própria burguesia, conseguindo manter seu governo até o fim.

A questão é que Bolsonaro tem uma base restrita de apoio que Temer não tinha, o que faz com que essa derrota do bloco golpista de Maia dificulte ainda mais os planos da candidatura da direita para 2022 e encaminhe a disputa para a polarização entre Bolsonaro e Lula.

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