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“Com o Supremo, como tudo”.

A famosa frase lapidar do então senador Romero Jucá vai tomando, a cada nova revelação do Intercept, total dimensão.

Do diálogo espúrio entre suposto juiz e acusação, inicialmente divulgado no último domingo, que manchou de nulidade todos os processos decididos pela Operação Lava Jato, novos trechos vieram a público demonstrando cabalmente que a sujeira impregnava até o último andar.

Leia com atenção a reprodução do diálogo abaixo.

No dia 22 de abril de 2016, Dallagnol enviou a mensagem aos demais procuradores:

Deltan Dallagnol:: Caros, conversei com Fux mais uma vez hoje.Reservado, é claro. O ministro Fux disse quase espontaneamente que Teori fez queda de braço com o Moro e viu que se queimou e que o tom da resposta do Moro depois foi ótimo.

Fux disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez, só faltou como bom carioca chamar-me para ir a casa dele. Rss. Mas os sinais foram ótimos, falei da importância de nos protegermos como instituições, em especial no novo governo.

Então Dallagnol retransmite o mesmo texto para o juiz Sérgio Moro, que responde:

Moro: Excelente, in Fux we trust.

Percebeu o grau de intimidade entre o procurador federal e o ministro do Supremo? E a recorrência da colaboração explicitada no “mais uma vez” duas vezes?

Ao arrematar a conversa com “no Fux nós confiamos”, na língua das verdinhas que tanto ama, Moro não deixa dúvida de que são parceiros de uma quadrilha de criminosos, de agentes do Estado em prevaricação total de seus cargos, exercendo ilegalmente o poder do Judiciário em todas as instâncias com objetivos políticos, com uma agenda de interferência no governo.

Não se tratava do trabalho específico do cargo que ocupavam, não era uma conversa abstrata sobre processos, embora mesmo que fosse, também seria ilegal, pois essas autoridades, exceto em encontros eventuais em ambientes sociais e públicos, devem se comunicar nos autos dos processos e se ater a eles.

Era uma trama, uma conspiração, papo de gangsters.

O “novo governo” revelado pelo procurador conspirador, seria o do golpista Temer? Note que a mensagem é datada de 22 de abril de 2016. Dilma tinha sido afastada, temporariamente, por 180 dias, pelos golpistas liderados pelo criminoso Eduardo Cunha, desde o dia 17 de abril, um fatídico domingo à noite. Fazia 5 dias. Não era definitivo ainda. Ou já estaria contando com a assunção de sua excelência, seu líder na quadrilha, ao posto de Ministro da Justiça, como recompensa por tudo?

Como o afastamento só seria definitivo depois que o Senado se pronunciou no dia 31 de agosto daquele mesmo ano, teoricamente, ainda era o governo dela com o vice decorativo autor da carta-desabafo alçado à titularidade transitória.

Por falar em teoricamente, a menção do procurador conspirador a respeito do Teori “que se queimou”, deu um tom macabro premeditório ao diálogo.

Teori Zavascki era também ministro do SFT, como Fux.

A treta entre Teori e Moro era antiga.

No dia 18 de maio de 2014, Teori analisou um pedido de habeas corpus feito pela defesa de Paulo Roberto Costa e assinou um mandado em que se mostra convencido de que a Lava Jato era uma operação ilegal. Determinou  que a Lava Jato fosse enviada para o Supremo e os presos pela operação fossem colocados em liberdade.

Na decisão de Teori, o processo deveria ter saído das mãos de Moro em 2006, pois havia um deputado federal, José Janene, envolvido na suposta prática de crime e o Supremo Tribunal Federal é o único tribunal competente para julgar autoridades com prerrogativa de foro.

Mas Sérgio Moro reteve a investigação e ainda passou a omitir o inquérito do Ministério Público Federal. Alegando sempre urgência nas decisões, Moro autoriza todas as quebras de sigilo solicitadas pela PF e toma suas decisões sem ouvir a procuradora que atuava em Curitiba. Algumas vezes, dá ciência posterior e, em pelo menos um caso, não atende às determinações do Ministério Público Federal. As primeiras prisões e denúncias só aconteceram oito anos depois.

Pela decisão de Teori, não seria o fim da Lava Jato, mas a investigação seria destinada ao que, pela lei, é definido como juiz natural dos casos. Isso impede a Justiça de se tornar instrumento de perseguição.

Moro soltou Paulo Roberto, mas mandou um ofício a Teori Zavascki perguntando se Teori queria mesmo soltar todos os presos, pois, alertou o juiz de Curitiba, entre eles estava o traficante Reni Pereira da Silva. A Veja online publicou a reportagem com o título: “STF manda soltar acusado de tráfico internacional de drogas”. A repercussão foi grande.

No dia seguinte, o Jornal Nacional, da Rede Globo, noticiou que Teori havia voltado atrás. “O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki voltou atrás e decidiu manter na cadeia onze presos da Operação Lava Jato”, disse Patrícia Poeta, na abertura do JN.

Quando Moro grampeou telefonemas entre Dilma e Lula e divulgou os diálogos na Globo, Teori condenou e advertiu o juiz de primeira instância. Moro enviou “escusas” a Teori.

O único avião que caiu no Brasil em 2017 foi o que tinha Teori Zavascki a bordo, matando seus ocupantes. O delegado da PF que investigava a morte de Teori foi assassinado, em Florianópolis, por um frequentador do Clube de Tiro .38, o mesmo clube que os Bolsonaro frequentam.

Adélio, autor da “facada”, foi a este mesmo clube no mesmo dia que Carlos Bolsonaro também estava lá. Adélio estava desempregado, mas teve dinheiro para pagar 600 reais por uma hora no Club, ficar hospedado por vários dias em Florianópolis, viajar para Juiz de Fora e também pagar 400 reais em dinheiro vivo para se hospedar numa pensão. Carlos Bolsonaro também foi para Juiz de Fora acompanhar uma passeata do pai, coisa que ele nunca fazia. Uma semana depois da “facada”, a dona da pensão morreu e também um outro antigo hóspede foi encontrado morto.

O Assassino de Marielle Franco é vizinho de Bolsonaro, na Barra. Os filhos de Bolsonaro já prestaram inúmeras homenagens a policiais milicianos, condenados pela Justiça, acusados de matarem a Juíza Patrícia Acioli, em São Gonçalo, que era rigorosa com a milícia. A família Bolsonaro contratou vários desses milicianos e seus familiares como assessores.

Moro prendeu Lula em segunda instância, em acordo com os desembargadores do TRF4, em tempo recorde e sem provas, inviabilizando a sua candidatura. A prisão foi ilegal, mas Moro atropelou a Constituição e fez valer o interesse político.  O outro parça da quadrilha, Fux, foi o ministro que barrou, no STF, a entrevista que o ex-presidente Lula concederia antes das eleições de 2018.

A seis dias do segundo turno das eleições, Moro ainda divulgou o conteúdo de parte da delação de Palocci, que havia sido desprezada pelo MP por falta de consistência e provas, com acusações contra Lula, interferindo “mais uma vez” no andamento da eleições, para que obtivesse o resultado almejado: impedir o PT de voltar e eleger o seu candidato da extrema-direita.

Moro tornou-se Ministro do governo ilegítimo de Bolsonaro, com promessa de indicação ao STF assim que houver vaga, e passa a ficar de olho gordo no cargo da Raquel Dodge para seu parça Deltan Dallagnol futuramente.

As revelações do Intercept esta semana, mostram que aquele “tudo” de que falou o Jucá não são apenas suspeitas. O tudo é monstruoso. É tudo mesmo.