Pernambuco
Diretório Municipal do PT decidiu apoiar a candidatura de João Paulo (PCdoB)
Luciana,Paulo,-Humberto
Luciana Santos, Paulo Câmara e Humberto Costa | Foto: Paullo Almeida

Em nossa última coluna, explicamos que a resolução do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) a favor da formação de uma frente de esquerda em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, indicava um apoio a uma candidatura encabeçada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). No último sábado, nosso prognóstico foi confirmado: o diretório decidiu apoiar João Paulo (PCdoB) nas próximas eleições municipais.

A reunião do diretório, feita por videoconferência, contou com a participação do principal representante da ala direita do PT em Pernambuco, o senador Humberto Costa. O grupo de Teresa Leitão, que fora candidata à prefeitura nas eleições de 2016 e que está apoiando a candidatura de Marília Arraes, não participou da reunião. A própria Teresa Leitão chegou a afirmar que havia um grupo que defendia uma candidatura própria do PT na cidade, mas que não houve “diálogo” entre a burocracia que comanda o diretório e os demais setores:

“Na véspera do encontro, representantes da tese da candidatura própria receberam um telefonema do presidente municipal do PT, no final da tarde, informando que o encontro estava mantido e que eles iriam defender a aliança com o PCdoB. Diante do desrespeito político e do regulamento interno do PT, o grupo optou por não legitimar o encontro. Na minha avaliação, João Paulo começa menor politicamente do que poderia ser”.

O apoio a João Paulo poderia aparentar ser mais palatável que o apoio da ala direita do PT à candidatura de João Campos, no Recife. Afinal, João Campos é do PSB, partido que apoiou o golpe de 2016; João Paulo é do PCdoB, partido que se colocou contra o impeachment de Dilma Rousseff. João Campos não tem vínculo algum com a esquerda, é apenas um jovem que apoiou Aécio Neves em 2014 e que só tem alguma projeção no estado porque é filho do finado Eduardo Campos; João Paulo foi prefeito do Recife por oito anos, eleito pelo PT, e gozava de alguma popularidade. Apesar das diferenças na aparência, a operação em curso é a mesma.

João Paulo foi um dos fundadores do PT no estado. No entanto, às vésperas da prisão do ex-presidente Lula, no momento de maior fragilidade do partido, João Paulo partiu para o PCdoB. Durante todo o ano de 2018, os dirigentes do PCdoB estiveram, quase em toda a sua totalidade, na ala direita da luta contra o golpe, opondo-se, em vários momentos, à luta pela liberdade de Lula. Entre vários expedientes, o PCdoB chegou a lançar uma pré-candidatura presidencial para disputar o espólio da candidatura de Lula.

Se João Paulo foi uma liderança importante para a esquerda pernambucana, sua movimentação rumo ao PCdoB foi uma involução em relação à unidade dos setores combativos em defesa dos interesses dos trabalhadores.

Independentemente do que João Paulo represente hoje para a esquerda, o fato é que o projeto por trás de sua candidatura contém aspectos claros de uma política capituladora diante da direita. Em primeiro lugar, a candidatura não é de João Paulo, mas sim do PCdoB, partido comandado há muito tempo por Luciana Santos e Renildo Calheiros em Olinda. Se João Paulo se opusesse a esses setores, não teria adquirido o direito de se tornar candidato.

Luciana Santos e Renildo Calheiros, em seus respectivos cargos, estão entre os maiores defensores da chamada “frente ampla”. Isto é, uma aliança entre a esquerda e a burguesia. Luciana Santos é a presidente nacional do PCdoB e fez várias declarações em favor de uma frente com setores como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). Luciana Santos é vice-governadora no governo de Paulo Câmara (PSB), enquanto o vice-prefeito, na gestão de Geraldo Julio (PSB), também é do PCdoB. Embora ainda não esteja definida a formação exata da frente que será encabeçada por João Paulo, já é dado praticamente como certo que o PSB estará na coligação. João Paulo já fez o convite: restará saber se o PSB irá querer se submeter à candidatura do PCdoB.

Nas eleições municipais de 2016, Luciana Santos foi vergonhosamente derrotada porque não usou sua candidatura para mobilizar contra o golpe de Estado de 2016. Neste ano, o filme está para se repetir: se, em nome de uma vitória eleitoral, a esquerda abandonar a luta pelo Fora Bolsonaro em favor dos interesses do PSB e da direita, os trabalhadores serão deparados com uma estrondosa derrota.

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