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Uma orientação divergente da maioria que compõe a Frente Brasil Popular, especialmente da base dos partidos e movimentos sociais que a integram, foi apresentada pelo orador do PCdoB, seu vice-presidente, Walter Sorrentino, na 3ª Conferência Nacional da Frente Brasil Popular, realizada em Guararema-SP no último final de semana.

Falando em construir uma “frente programática”, uma “frente ampla”, ele propôs unir “a esquerda, a centro-esquerda, forças progressistas, em torno de uma promessa de esperança, um novo projeto nacional de desenvolvimento”. O motivo estaria na avaliação que apresentou de que a esquerda perdeu parte da confiança do povo. Ela seria, segundo ele, incapaz de avançar sem o apoio de setores divergentes dentro das instituições, no Executivo, no Judiciário e no Legislativo.

Nesse sentido, o vice-presidente do PCdoB defendeu sua orientação para as eleições da mesa da Câmara dos Deputados e afirmou que “é evidente que era correto votar em Maia para controlar o Congresso, em busca de explorar certas contradições para manter o espaço do Congresso como um espaço democrático institucional, onde haja liberdade para a oposição, e respeito às regras democráticas”.

A “frente ampla”, segundo Sorrentino, seria necessária para “acumular forças, reconquistar a confiança do povo” e, emergencialmente, “defender a democracia ameaçada”. “Não é uma frente de esquerda, é programática”, disse. A esquerda, segundo ele, “não fala para toda a sociedade”. Não é capaz, sozinha, de “explorar as contradições, debilitar o governo”.

Sorrentino concluiu dizendo que “nossas frentes, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, precisam integrar essa frente programática. Fomos chamados a falar ao povo (…) e nesse momento é errado radicalizar posições que não sejam condicionadas à capacidade de ampliar os limites da nossa luta”.

Na segunda intervenção do PCdoB na Conferência, no ponto dedicado ao balanço organizativo da Frente Brasil Popular, a secretária nacional da Mulher do PCdoB, Liège Rocha, fez uma breve colocação e pontuou que “a Frente Brasil Popular joga para construir a frente ampla democrática”.

Setores da direção do MST também expressaram acordo com essa perspectiva.

O companheiro Antônio Carlos Silva, da direção nacional do PCO, interveio no debate, após pedir, por meio de uma questão de ordem, que fosse aberta a palavra para os membros do plenário. Ele destacou que a política de “frente ampla” está no sentido oposto ao da construção da Frente Brasil Popular e ameaça a sua existência.

“A tarefa central da Frente Brasil Popular é unificar o movimento da cidade e do campo, de moradia, de mulheres na luta contra o golpe de Estado”, disse. A Frente Brasil Popular se colocou “contra a perspectiva de uma frente eleitoral”, como a que dirige Guilherme Boulos, do Psol, afirmou.

O dirigente do PCO destacou que não é possível ter unidade com os mesmos setores que estão apoiando a reforma da Previdência, “com os que podem não ter unidade com Bolsonaro, mas têm unidade para ferrar com a vida dos trabalhadores”.

“A Frente Brasil Popular tem que se ampliar, sim”, disse. “Ampliar o microfone para que todo mundo possa falar. Ampliar a participação das organizações de luta do movimento popular. Ampliar-se como ferramenta de luta para levar uma perspectiva de luta para o conjunto dos explorados”, concluiu.

Na manhã de domingo (31), quando o balanço das discussões estava em pauta, novamente o problema da “frente ampla” foi destacado, desta vez por um delegado do PT do Rio de Janeiro, da secretaria nacional LGBT do seu partido, Carlos Alves. Ele explicitou que não havia acordo no interior da Frente com a proposta apresentada pelo PCdoB e que insistir na sua inclusão como resolução da Conferência iria prejudicar a unidade do movimento.

Edson França, dirigente nacional do PCdoB, também interveio insistindo que o debate sobre a “frente ampla” era central para a Frente Brasil Popular. Segundo ele, a luta do povo por si só não basta para libertar Lula, é preciso uma articulação institucional, que vai além do movimento popular.

O companheiro Rafael Dantas, do PCO, se contrapôs a essa orientação destacando que somente a luta do povo é que tem a força necessária para tirar Lula da cadeia. “A política de frente ampla significa colocar o movimento a reboque da burguesia, dos mesmos de sempre, como Rodrigo Maia, Calheiros e Sarney, o PSB e o PDT, os mesmos que apoiam a reforma da Previdência, apoiaram o golpe de Estado e defendem que Lula permaneça preso”, enfatizou.

Na conclusão dos debates, a mesa encabeçada pela vice-presidente da CUT-SP, Carmen Foro, informou que deliberou, após essas poucas intervenções do plenário, que é preciso deixar a questão da “frente ampla” de fora das resoluções da Conferência, por não haver consenso sobre essa orientação.

A resolução adotada pela Frente Brasil Popular é acertada e representa uma defesa da frente no seu fundamental: um instrumento de luta unitária em torno de reivindicações fundamentais, como a liberdade de Lula, a luta contra a reforma da Previdência e a derrota do golpe de Estado.

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