Colaboração de classes
Em meio à agudização da luta de classes, um setor direitista da esquerda tenta travestir a direita com o manto da “democracia”, em nome da “unidade nacional”
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Manifesto Estamos Juntos - publicado em forma de informe publicitário na grande imprensa do País | Foto: Reprodução

Atos de rua pelo “Fora Bolsonaro” e contra o fascismo se intensificam por todo o País. São inequívocas as manifestações que apontam para a forte tendência à polarização presente na situação política, e não apenas no Brasil.

Não se trata de um “raio em céu azul”, mas de um início de resposta à crise capitalista agravada com a pandemia do coronavírus. O povo brasileiro que o diga. Já são 30 mil mortes e 500 mil infectados, segundo dados oficiais, ainda que escondam um contingente enorme de subnotificações, o que elevariam os casos à casa dos milhões.

O ato das torcidas do Corinthians e de outros clubes paulistas no domingo aponta que foi ultrapassada uma etapa, e expressam uma linha de continuidade com os atos pelo “Fora Bolsonaro” ocorridos na semana anterior. Esses atos, embora pequenos, demonstraram, na prática, que é possível mobilizar, apesar da pandemia, e até como consequência dela e, também, com o pedido de impeachment dos partidos de esquerda e organizações populares. 

Essa nova situação aponta para uma polarização fortíssima. De um lado, Bolsonaro sustentado pelos militares e, de outro, o conjunto da esquerda em torno do “Fora Bolsonaro”. Um dado importantíssimo e que corrobora com a tendência à mobilização é o espectro social representado no ato de domingo na avenida Paulista. Nitidamente, a esmagadora maioria dos participantes eram pessoas operárias ou de famílias operárias, o que coloca em relevo a insatisfação e revolta crescente de um setor decisivo, que é a classe operária, que encontrou uma válvula de escape diante da paralisia dos sindicatos.

Na contrapartida dessa tendência, numa tentativa de conter a polarização crescente, uma parte da esquerda que assinou o impeachment de Bolsonaro – o setor mais direitista dentro da esquerda – intensificou, em conjunto com setores da burguesia, a campanha em torno da “união nacional pelo Brasil”. Ou seja, pretende, na prática, abrir caminho para que a direita, seus partidos e políticos – os mesmos que defenderam o golpe de Estado de 2016, a destituição da presidenta Dilma, a perseguição ao PT, a perseguição, prisão e posterior cassação de Lula das eleições, e com isso garantir a vitória de Bolsonaro – sejam incorporados ao movimento.

Apoiados pela grande imprensa golpista e venal, começam a “brotar como cogumelos depois da chuva” hashtags e manifestos em torno da defesa de uma grande unidade nacional. 

Na realidade, trata-se de uma política pelo “Fica Bolsonaro”. Emblemático, nesse sentido, é o manifesto amarelo, intitulado “Estamos juntos”. Um texto, no qual Bolsonaro não é citado sequer uma vez, está recheado de lemas como: “unir a pátria”, “projeto comum”, “frente ampla diversa”, usar o exemplo  do “movimento diretas já”.

Apenas para mencionar para algum desavisado que não conheça a história do movimento das “Diretas já”, ocorrido em 1983/1984, ao contrário do que a nota procura apresentar (“como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum”) – tratou-se de uma operação de sequestro das grandes mobilizações populares contra a ditadura em proveito da burguesia e dos partidos que haviam sido o sustentáculo da própria ditadura, com toda a grande mobilização sendo canalizada para o túmulo das reivindicações populares que é o Congresso Nacional. Nos dias de hoje, seria como um governo Bolsonaro sem Bolsonaro, mantendo todos os bolsonaristas, a direita, o regime político saído do golpe de 2016.

Mas, como dito, o Manifesto chega a ser pior ainda. É a favor da permanência de Bolsonaro. O que os “cabeças” da frente ampla querem é que a direita “democrática” pressione Bolsonaro para que ele entre na “linha” em torno de um projeto maior, em defesa do Brasil, e que toda a polarização seja canalizada para eleições futuras.

Desde já, a esquerda e os movimentos populares que se reivindicam efetivamente pelo “Fora Bolsonaro” devem intensificar por todos os meios possíveis os atos de rua. As condições estão absolutamente dadas.Tudo leva a crer que a barreira de contenção da esquerda do “fica em casa” foi definitivamente ultrapassada. A situação se desdobrou de forma espetacular. A iniciativa está com a esquerda que assinou o pedido de impeachment. Quanto mais decidida for a intervenção das massas na próxima etapa política, mais perto estará colocado a derrubada de Bolsonaro e, com ele, todo o regime golpista.

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