Esquerda à reboque da direita
As grandes crises despertam o reflexo condicionado da esquerda reformista de adaptar-se ainda mais à política burguesa
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Os governadores da Bahia, Rui Costa (E); do DF, Ibaneis Rocha (C); e do RJ, Wilson Witzel (D) | Foto: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília

Por Rui Costa Pimenta

A epidemia criou entre os partidos políticos brasileiros um verdadeiro clima de unidade nacional. Este é o desenvolvimento de uma política anterior da esquerda parlamentar que proponha a união nacional contra Bolsonaro. A tese era a de que seria preciso unir a esquerda e a direita “civilizada” contra a direita selvagem representada pelo bolsonarismo.

Para isso, propuseram às vítimas do golpe de 2016, da política de terra arrasada de Michel Temer, aos que estão submetidos a uma virtual ditadura militar, que esquecessem que foram os “civilizados” os autores de toda a situação 

Não é uma novidade. As grandes crises despertam o reflexo condicionado da esquerda reformista de adaptar-se ainda mais à política burguesa.

Resulta disso um conjunto de problemas políticos da maior importância e de enorme gravidade. Em primeiro lugar, a esquerda não tem política própria para enfrentar a dupla crise que combina a catástrofe na saúde pública com a hecatombe na economia. Em segundo lugar, a esquerda, justamente por esta falta de política, chama a população a depositar a sua confiança nos governos burgueses de direita que defendem o isolamento social.

Esta situação ficou absolutamente clara diante da aprovação pelo Centrão de uma ajuda aos trabalhadores autônomos. A esquerda parlamentar, escandalosamente, saiu a fazer uma propaganda entusiástica da medida como se fosse uma verdadeira revolução social. Claro está que, por razões eleitorais, procuraram apresentar fraudulentamente a medida, aprovada consensualmente, como uma “vitória da luta popular”.

A verdade, ocultada pela esquerda, é a de que as medidas de isolamento social – praticamente a única arma que a burguesia está disposta a utilizar contra a epidemia – conduziriam inevitavelmente a uma crise social de características explosivas em muito pouco tempo. O benefício é portanto dado muito mais no interesse da própria burguesia, que não consegue lidar com a crise e têm medo do povo, do que no interesse popular. Este fato é revelado pela parcimônia da “ajuda”: R$ 43 bilhões contra R$ 1,2 trilhões doados aos bancos.

O fato em si tem um valor sobretudo como sintoma da profundidade com que a esquerda adaptou-se à burguesia diante da crise. O mais significativo é o de que ela deixa de ser um instrumento popular diante não apenas da crise em si mas, mais importante ainda, dos governos que administram essa crise completamente em favor da burguesia e contra o povo.

O isolamento é parcial. Milhões de trabalhadores continuam trabalhando e, via de regra, sem qualquer medida de segurança sanitária. As condições dos bairros populares, favelas, comunidades rurais etc. para realizar o confinamento como mais do que mera aparência, são inexistentes e nenhuma medida está sendo tomada a respeito. As condições para atendimento médico são insuficientes além de qualquer sentido racional. Não há testes para que o chamado isolamento social possa efetivamente surtir um efeito decisivo na contenção da epidemia.

Pior ainda, os mesmos governos que estabeleceram no país um verdadeiro estado de sítio, tirando proveito da epidemia, criaram uma situação de completa sabotagem de toda e qualquer informação fidedigna. Quanto infectados? Quantos mortos? Quantas pessoas estão trabalhando? O que está sendo feito com relação ao transporte público? Qual é a verdadeira situação dos testes? Qual a verdadeira situação da infraestrutura de saúde? Estas e muitas outras informações são propositalmente sonegadas à população.

Nessas condições, os trabalhadores precisam mais que nunca de organizações que coloquem em xeque a política dos governos, que fiscalizem, que pressionem estes governos. É necessário organizar a população trabalhadora nos bairros populares para fazer frente a uma situação em que a ação dos governos é pouca coisa menos que nula.

Para isso, é preciso que os trabalhadores e suas organizações rompam com a política dos governadores, tanto quanto com a política de Bolsonaro.

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