Campanha eleitoral
Essa política tem interesse direto em 2022, onde a burguesia quer novamente excluir o ex-presidente e o PT, e colocar num segundo turno Bolsonaro vs Doria
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Doria (PSDB) faz demagogia com a vacina | Reprodução: Governo de São Paulo
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Doria (PSDB) faz demagogia com a vacina | Reprodução: Governo de São Paulo

No último domingo (17) ocorreu a vacinação da primeira pessoa no País. A enfermeira Mônica Calazans foi vacinada minutos após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar as vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneza para uso emergencial de 8 milhões de doses vinculadas à Fiocruz e ao Instituto Butantan. A notícia se espalhou rapidamente pela imprensa e as redes sociais, com a burguesia comemorando o ocorrido como uma vitória do governador golpista João Doria (PSDB) sobre o presidente ilegítimo Bolsonaro. Setores de esquerda que compõe a frente ampla reverberaram esta posição, criando uma verdadeira ode ao governador, reunindo da Rede Globo a Guilherme Boulos (PSOL), sinal claro de uma aliança para a campanha eleitoral de 2022.

Não foi só a imprensa burguesa que paparicou João Doria. A esquerda, sob o pretexto de combater Bolsonaro, lançou-se mais uma vez a reboque da direita golpista.

No domingo, em sua conta no Twitter, Boulos destacou que a vacina é uma vitória da ciência brasileira, do SUS, do serviço público e uma derrota de Bolsonaro e de sua política de morte.

O elogio a órgãos supostamente técnicos, como o Instituto Butantan, não é um acaso. É uma forma disfarçada de apoiar Doria, que utilizou estas mesmas entidades para se promover como “governador científico”, como “homem da vacina”.

Ou seja, é uma forma de ignorar completamente a disputa que se travou em torno da pandemia e da vacina, que reforça a propaganda de Doria que a burguesia tem feito há meses.

O que ficou ainda mais claro no dia seguinte, quando em sua coluna na Folha, Boulos nem disfarçou seu apoio a Doria:

“Nunca tive problemas para reconhecer méritos em adversários políticos. Doria teve um papel importante na defesa da vacina, em contraponto ao negacionismo.”

Boulos simplesmente esqueceu que Doria é, junto com Bolsonaro, o principal genocida do País, responsável direto por mais de 50 mil pessoas mortas no estado de São Paulo, apenas em dados oficiais! Não o fez por coincidência, tanto que cita vários outros episódios de ataque de Doria ao povo, mas deixou de falar justamente a questão central, que Doria, tal como Bolsonaro, é um executor da política genocida da burguesia, que quer lucros “morra quem morrer”.

Outra integrante da esquerda que elogiou a ciência, o SUS e o Butantan, foi Manuela D’ávila (PCdoB).

 

Junto com setores da imprensa progressista, adotaram a tese do “negacionismo” como “mal maior” e comemoraram a vacina de Doria como uma “vitória da ciência”, como se a ciência fosse algo acima da luta de classes e dos interesses contidos nelas.

Guilherme Boulos (PSOL) e Manuel D’ávila (PCdoB), dois elementos destacados da política da frente ampla – ou seja, da aliança de setores da esquerda com a direita golpista – entraram de cabeça na defesa deste argumento, reforçando a campanha vista de forma clara na imprensa burguesa.

Os editoriais do Globo, passando pela Folha e Estadão, evidenciam isso.

A Rede Globo, no domingo, tirou um plantão especial para noticiar o início da vacinação no País.

 

Além disso, toda a sua rede de veículos de imprensa (como Rede Globo, Globo News, Rádio Globo, CNB, jornal O Globo) seguiram a mesma linha, exaltando a “ciência” e criticando o “negacionismo” de Bolsonaro.

Fica até difícil diferenciar um jornal do outro, dado que a abordagem é quase idêntica.

“…repúdio decidido à negação da ciência, recomendação inequívoca de que o distanciamento social continua imperativo.”

E paralelamente, uma exaltação do tucano Doria:

“O governador paulista, João Doria (PSDB), fez o que dele se poderia esperar: logo após a reunião da Anvisa, promoveu o que será visto como a primeira imunização nacional. Mônica Calazans, 54, enfermeira, recebeu a primeira injeção da Coronavac após a autorização.”

E até justifica a auto-propaganda política do governador direitista:

“Um lance de marketing, pois sim, como se lamuriou Pazuello. Mas Doria só pôde colocá-lo em prática porque trabalhou pela saúde pública, algo que o ministro ainda precisa aprender…

O presidente e seu ministro, hoje, são os maiores inimigos da saúde pública. Que a decisão acachapante da Anvisa tenha sido o primeiro passo para sua derrota.”

Editorial da Folha destaca vacinação e critica Bolsonaro.

Ou seja, de Boulos à Globo, passando pela Folha de SP e por outros setores da esquerda, criou-se uma grande frente para legitimar a campanha da burguesia em prol de João Doria como um grande “governador científico” e opositor de Bolsonaro.

Isso mostra como funciona a política da frente ampla, não perde nenhuma oportunidade para, sob a desculpa da luta contra Bolsonaro, apoiar a direita golpista. Mais do que isso, fazendo propaganda para Doria e colocando-o como uma espécie de salvador da pátria, gabaritando-o para a presidência em 2022.

Diante disso, a esquerda não apresenta nenhuma posição crítica sobre a questão da vacina, como o fato da sua eficácia estar em torno de 50%, bem como o fato de Doria ser um genocida tanto quanto Bolsonaro.

Pelo contrário! Neste momento a política da esquerda se resume a encaminhar os trabalhadores para apoiar seus maiores algozes (a direita golpista) com a desculpa que precisariam combater um inimigo maior (Bolsonaro). O que não faz sentido algum, dado que Doria e os seus apoiadores (imprensa burguesa e partidos de direita, como MDB e DEM) são os organizadores do golpe de Estado de 2016 e da chegada de Bolsonaro ao Planalto.

Desta forma, com essa política de apoiar a direita golpista, a esquerda apenas cumpre um papel de boneco de ventríloquo no colo da burguesia, sendo usada como garota propaganda da política de substituir Bolsonaro por um elemento da direita tradicional em 2022.

Porém, a esquerda não denuncia o que está por trás disso. Como o fato desta mesma direita (PSDB, DEM, MDB), no Congresso, ter sido desde o princípio do seu mandato, em 2019, a base de sustentação de Bolsonaro. Verdadeiros guardiões do programa golpista que a burguesia elegeu Bolsonaro para aplicar. Em todo os momentos de vacilo do bolsonarismo, dada suas contradições com a burguesia, a direita tradicional estava lá firme e forte para dar coesão ao governo e aplicar a política de “colocar Bolsonaro na linha”. Além disso, essa mesma direita não apoiou a derrubada de Bolsonaro em nenhum momento quando se levantaram manifestações populares contra o governo em 2019, no carnaval, na greve nacional dos professores secundários, etc.

Por fim, a política genocida da pandemia não é uma peculiaridade de Bolsonaro. Ela é um programa de toda a burguesia e foi aplicada pelos ditos governadores e prefeitos científicos, tanto quanto foi Bolsonaro. Não é por acaso que Doria, por exemplo, é o governante mais genocida do País junto com Bolsonaro, sendo responsável por mais de 50 mil mortes só em São Paulo, em dados oficiais. Ou seja, a esquerda, ao se somar a campanha favorável a Doria, entrega a população nas mãos daqueles que efetivamente deram o golpe de 2016 e criaram artificialmente o governo Bolsonaro, para evitar a volta de Lula e do PT. Não é por acaso que essa política tem interesse direto em 2022, onde a burguesia quer novamente excluir o ex-presidente e o PT, e colocar num segundo turno Bolsonaro e o candidato da direita tradicional, que neste momento parece ser o tão farsante “BolsoDoria”.

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