“Fragmentos linchados”: MASP abre exposição sobre Melvin Edwards, escultor negro que denuncia o racismo nos EUA

Melvin Edwards

O país com a maior concentração de negros fora do continente africano conhece muito pouco artistas e intelectuais negros, inclusive do próprio país.

Não chega a ser surpresa que, somente agora, quando completou 81 anos, que Melvin Edwards, escultor negro norte-americano, pioneiro no uso do aço fundido, no qual mistura engajamento político e arte abstrata, tenha uma mostra de suas obras em exposição no Brasil.

Nascido em 1937, em Houston, Texas, faz sua aparição na cena artística de Los Angeles nos anos 1960. Já em 1970 tornou-se o primeiro escultor afro-americano a ter uma exposição individual no Whitney Museum of American Art.

Tendo crescido no ambiente racista dos Estados Unidos segregacionistas, sua obra reflete sua crítica ao mundo branco e elitista da arte. Ele não oculta seu engajamento, nem sua militância que abarca questões relativas a direitos civis, violência, racismo e diáspora africana.

O Museu de Arte de São Paulo, a partir do dia 24 de agosto de 2018,  expões 37 obras, que têm o título de ‘Fragmentos Linchados”, e que têm relação direta com todas as questões e eventos que marcaram a vida do artista. São Pás, machados, ancinhos e ferraduras que remetem ao contexto rural do sul dos Estados Unidos,  onde Edwards passou parte de sua infância,  numa comunidade formada por afrodescendentes e imigrantes latinos.

Os Fragmentos exibidos são esculturas de parede de pequena escala que utilizam objetos existentes de metal —como ferramentas, facas, ganchos e peças de máquina— soldados uns aos outros, criando obras que se situam na fronteira entre a abstração e figuração. Elas realizam uma síntese cultural singular, entre a escultura de solda modernista e o reducionismo minimalista, fazendo menção também às tradições memoriais da escultura africana. a África, concentra a maior população negra.

Palmares (1988)

É bom lembrar que o artista já esteve no Brasil, na década de 1980, acompanhando a esposa, Jayne Cortez.  Foi quando produziu Palmares (1988), escultura que também está na exposição, junto a outras obras que tratam da religiosidade africana, conforme se manifesta nas Américas.

Pode-se afirmar que suas obras enquadram-se em três períodos. As do início dos anos 1960, quando o horizonte é a violência racial nos EUA. Depois, as do começo da década de 1970, dedicados à Guerra do Vietnã. E, por fim, as compostas a partir de 1978, que, para alguns, seria uma exploração nostálgica da cultura africana.

Um dos maiores escultores negros vivos, com mais de 50 anos de produção e ainda ativo, permanece produzindo obras que refletem a violência contra as minorias, porque a violência não cessou, ao contrário, cresceu e se aprimorou. Uma mostra que vale conferir e um artista que merece ser prestigiado e homenageado. Melvin Edwards  ousou registrar a violência contra a população, em particular a população negra, procurando registrar a presença da África nas américas. É a resistência por meio da arte.