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Para onde vai a esquerda?
Fornazieri e a esquerda confusa ante a soltura de Lula
O “dilema” de quem não vê perspectiva na mobilização revolucionária das massas e que não vê viabilidade em uma aliança diretamente com o “centro” golpista
lula livre B
Para onde vai a esquerda?
Fornazieri e a esquerda confusa ante a soltura de Lula
O “dilema” de quem não vê perspectiva na mobilização revolucionária das massas e que não vê viabilidade em uma aliança diretamente com o “centro” golpista
Lula no primeiro ato após sua saída da prisão, em 9/11
lula livre B
Lula no primeiro ato após sua saída da prisão, em 9/11

Se propondo a analisar a situação na esquerda após a soltura do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o professor petista Aldo Fornazieri publicou artigo intitulado “Lula Livre e os dilemas do PT e do PSOL”, no sitio GGN, no qual evidencia a enorme confusão em que se vê metida a esquerda às vésperas do Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, que acontece no próximo fim de semana.

 

Percepção e “opinião pública”, não luta de classes

 

De saída, Fornaziere apresenta a liberdade de Lula, como produto do fato que que o ex-presidente preso, supostamente, teria “se tornado indigesto para o Judiciário”, o que seria resultado da “opinião pública mundial” que, segundo ele, “havia consolidado a percepção de que ele era um preso político”.

Fica claro que o autor desconsidera o fato de que se desenvolvia uma crescente mobilização em favor da liberdade de Lula, mesmo contra a paralisia das direções da esquerda burguesa e pequeno burguesa, levada adiante por centenas de Comitês de Luta espalhados por todo o País (e, de forma, mais consciente e organizada, pelo PCO), que mobilizava milhares de pessoas em todo o País (atos, mutirões, festivais) e que levou cerca de 5 mil pessoas a Curitiba, no último dia 27. Pior ainda, ignora o enorme apoio que essa campanha tinha entre a população que – acertadamente – via e vê em Lula (independentemente de sua posição) uma “antítese” do governo ilegítimo de Bolsonaro e uma “arma” capaz de servir à luta contra os ataques do governo que está destruindo a economia nacional e as condições já precárias de vida da imensa maioria.

Ele, claramente, super valoriza a posição da maioria dos membros do STF, afirmando que a situação pode se inverter, uma vez que “em dois anos, poderá ter de enfrentar uma composição desfavorável no STF com dois novos ministros nomeados por Bolsonaro”., se esquecendo que foi esse mesmo Tribunal, com essa mesma composição que referendou o golpe contra Dilma e manteve Lula preso, por cima da Constituição, como indiretamente, se admite agora quando se aprova que não tem validade a prisão sem que tenha ocorrido o “trânsito em jugado”.

Corretamente o autor assinala os limites da liberdade “provisória”. de Lula, assinalando que ele “terá ainda um calvário de processos”. Mas em nenhum momento, aponta na mobilização dos explorados uma questão decisiva para decidir a situação em um ou outro sentido.

 

Não é no Congresso, será aonde?

 

Diz o autor que a principal missão política de Lula, seria “tirar as esquerdas da defensiva em que se encontram desde 2015, e trabalhar para que exista uma oposição efetiva e programática, centrada nos problemas reais da sociedade e do Brasil”. aqui aparece o tradicional idealismo da esquerda pequeno burguesa, para quem os acontecimentos fundamentais seria produto da vontade dos indivíduos, particularmente dos líderes, tomados isoladamente

Fornaziere lembra que, em seu primeiro discurso, Lula “cobrou mais coragem, mais combatividade dos parlamentares do PT e das esquerdas”, mas já aponta que o Congresso encontra-se “dominado pelo centrão, articulado em torno de Rodrigo Maia, alinhado com a pauta econômica do governo. Dificilmente haverá uma mudança da correção de força”.

Cita também as caravanas que Lula anunciou que pretende fazer pelo Brasil, mas também relativiza essa iniciativa, afirmando que embora sirva para “reativar o ânimo combativo da militância e do ativismo político e social”, isso – segundo ele – “é insuficiente”. Uma vez que serviria para “mobilizar a militância e o ativismo social e não a sociedade como um todo“.

Traz de volta a análise sociológica comum a boa parte da esquerda para quem ela se encontra distanciada das periferias, “dominadas pelos evangélicos e pelo conservadorismo” e há uma “organização frágil”. Deixa de lado que – de certa forma – esse domínio do “conservadorismo” não foi capaz (mesmo nas condições mais adversas da prisão de Lula) de garantir sequer uma maioria de apoio entre os “conservadores”, uma vez que Bolsonaro teve o voto de pouco mais de um terço do eleitorado brasileiro e, desde então, vem perdendo apoio político, enquanto cresce notoriamente o apoio a Lula e à causa de sua libertação.

Em um momento de efervecência política na maior parte da América Latina, ignora o fato de que esse “domínio” dos evangélicos e dos conservadores não foi capaz de conter o enfrentamento com governos direitistas e golpistas em países como Equador, Chile e Bolívia, nos quais o nível de organização e evolução da classe operária e demais explorados é bem inferior ao Brasil.

 

As massas não têm posição diante da crise?

 

Para o autor, “nem o bolsonarismo e nem as esquerdas têm o poder convocatório de grandes multidões” e a sociedade está “arredia aos partidos e aos políticos” e “faltam motes mobilizadores e capacidades mobilizadoras”. E “se grandes mobilizações vierem, estas serão mais obras da própria sociedade do que dos partidos e dos políticos”.

O fato de que milhões de pessoas tenham se expressado no carnaval, em atos, shows, jogos de futebol etc. etc. a favor da saída do presidente ilegítimo, das mais diversas formas (“Fora Bolsonaro”, “Eih Bolsonaro VTNC” etc.) – mesmo com a sistemática recusa da maioria da esquerda em assumir essas perspectiva – não parece ter nenhuma importância  para o autor.

Na “falta de alternativa”, o caminho-armadilha das eleições

 

O professor Aldo Fornaziere assinala a obviedade de que “com a aproximação das eleições municipais o jogo político e partidário tende a se deslocar cada vez mais para o campo eleitoral“, que segundo ele “servem também de ensaio para a construção dos cenários para 2022“, ou seja, para preparar o terreno para novas eleições.

Isso quando no Brasil e em outros países da América Latina, fica cada dia mais evidente que a direita não tem qualquer compromisso de garantir que as eleições ocorram ou de respeitar seus resultados, caso lhes sejam desfavoráveis. Esquececeu de Dilma, Honduras, Bolívia etc.?

Dá “de barato” também o fato de que a esquerda burguesa e pequeno burguesa abdica de qualquer luta real por fora do viciado processo eleitoral, desde 2016, totalmente controlado pela direita golpista. E que os resultados colhidos aqui e em outras terras não são nada favoráveis para os trabalhadores e demais setores explorados.

Em meio a essa miscelânea o autor aponta que haveria “duas tarefas políticas gerais postas para os partidos progressistas”, que seria:

1) impulsionar uma oposição programática e efetiva contra o governo Bolsonaro a partir das questões concretas da sociedade e do país e,

2) construir a arquitetura das eleições municipais.

Diante dessas tarefas estabelecidas, o autor assina que “não faz sentido trabalhar pela formação de uma frente democrática com setores de centro”. Ao mesmo tempo que defende “acordos pontuais com setores do centro”. Isso porque, segundo ele, “o centro não se dispõe e nem faz sentido formar esta frente democrática“. E caso se dispusesse, ou insinuasse tal disposição? Diante da evidente necessidade de se reciclar perante as massas por conta do profundo desgaste dos partidos e políticos tradicionais, como se viu nas ultimas eleições e, ainda, diante da perda de apoio da extrema direita e da sua própria divisão?

Nestas condições, Fornaziere, aponta o que chama de “dilemas para o PT e que implicam também o PSol”. De forma resumida, o principal deles seria o fato de que “o golpe contra a Dilma e a prisão de Lula empurraram o PT mais para a esquerda, o que fez com que houvesse uma aproximação com o PSol“, com o que ele realiza um claro embelezamento do PSol, partido burguês  que defendeu a Lava Jato, anunciou que a luta pela liberdade de Lula não unificava, e que acaba de aprovar alianças, não só com o PT, mas com setores claramente identificados com o golpe de Estado, como Rede, PV, PSB etc.

Segundo o autor, para vencer, em 2002, “o PT e Lula fizeram um claro movimento para o centro“, no entanto, há uma dúvida sobre se “o PT consegue hoje construir uma perspectiva de retomada do governo sem fazer alianças ao centro e sem ele mesmo se deslocar mais para uma posição de centro-esquerda?

Para ele, esse difícil deslocamento em direção ao que chama de centro (na verdade é a direita tradicional e golpista, “pais” da extrema direita que apoiaram contra a esquerda) tornaria “insustentável o PSol manter uma aliança com o PT deslocado para uma posição mais de centro-esquerda”. De novo, uma valorização do partido que já recebeu o apoio do PSDB e da Rede Globo na disputa eleitoral na prefeitura do Rio de Janeiro e que despontou tendo como candidata Heloísa Helena (impulsionada pela direita) uma candidata que defendia bandeiras da direita (como a condenação do aborto e o financiamento dos grandes capitalistas pelo Estado) e que tinha como objetivo garantir a classificação do candidato do PSDB para o segundo turno, entre outros feitos.

Nesse sentido parece aconselhar o PSol a se manter distante, nesse caso, uma vez que – segundo ele – o partido “precisa perceber que hoje existe um espaço para o crescimento de uma posição mais a esquerda, localizada em setores descontentes com a conduta e com erros do PT” e  que  “se o PSol quiser consolidar o processo de sua construção partidária não poderá ficar caudatário à hegemonia do PT”

 

Para a “esquerda”, visando 2022, mas com um “plano B”, sem Lula

 

O professor parece não indicar também que o próprio PT vá mais à esquerda, o que para ele significaria “buscar uma polarização forte contra o governo Bolsonaro e tudo o que ele significa”, uma vez que – segundo ele – isso teria como resultados:

a) Bolsonaro unificaria o campo da direita e se consolidaria como alternativa atrativa para 2022;

b) o centro político teria dificuldade de dialogar com o PT e Lula e aceleraria o processo de construção de uma alternativa unificada para a disputa presidencial. No campo progressista, contudo, ficaria mais fácil construir uma frente de esquerda, abrangendo o PT, o PSol e o PCdoB junto com parcelas de outros partidos como o PSB etc..

Há poucos dias do Congresso do PT, Fornaziere sugere a adoção do “plano B”, ou seja, não só o abandono de qualquer perspectiva política de enfrentamento com o governo (“Fora Bolsonaro”), mas até mesmo uma da perspectiva ultra limitada de enfrentamento nas eleições de 2022, uma vez que – segundo ele – “dificilmente poderá contar com uma candidatura de Lula”.
Expressa um certo impasse de setores da esquerda que abdicaram (se em algum momento chegaram a defender) uma perspectiva de impulsionamento da luta de classe, do enfrentamento. O que o faz desconsiderando totalmente a própria situação na América Latina e no Brasil.
É o resultado claro da política de quem “analisa” a situação não do ponto de vista da evolução da luta de classes, das tendências da economia, das necessidades das classes sociais, mas simplesmente, do ponto de vista da vontade dos atores políticos, ou melhor de uma parte deles, uma vez que a classe operária e demais setores explorados não são vistos como tal. Os “dilemas” seriam resolvidos nos Congressos e reuniões partidárias e das possíveis frentes e não no terreno concreto da luta de classe, capaz – inclusive – de empurrar a “solução” para um terreno não desejado ou não previsto pelas direções e pelos analistas, como se vê, claramente, no caso da Bolívia e do Chile.

A escolha estaria, portanto, entre uma “frente com o centro” (difícil de ser viabilizada, segundo ele) ou uma “frente de esquerda” – de fato – defendida pelo autor ao final de seu texto, quando assinala que ela seria:

“uma estratégia de longo prazo de construção da hegemonia na sociedade civil. Tratar-se-ia de organizar movimentos sociais e populares, consolidar posições de organização e de força nas periferias, recuperar o combalido movimento sindical, ressignificar o movimento estudantil, construir organizações de jovens, de mulheres e de negros, promover batalhas por mudanças culturais e de valores e conquistar espaços institucionais no sentido da base para o topo – dos bairros, das prefeituras, das câmaras de vereadores para o alto”.

Nada de enfrentamento, nada de organizar a mobilização nas ruas contra a direita, de impulsionar as perspectivas que se mostram claramente na situação brasileira e latino-americana. Um verdadeiro dilema de quem não vê perspectiva na mobilização revolucionária das massas.