Saída para a crise política
A conjuntura política do Brasil e de todo o continente deixa uma mensagem clara: a esquerda precisa abandonar as suas ilusões eleitorais e lutar para derrubar a direita nas ruas.
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Faixa "Fora Bolsonaro" gigante, feita por militantes do PCO. Foto: Diário Causa Operária. |

Após a onda de golpes organizada pelo imperialismo, que foi varrendo os governos nacionalistas latino-americanos um a um, assumiram o poder governos direitistas. Essa mudança na orientação política do imperialismo se deu por conta da crise econômica de 2008, que ainda não se fechou. Para salvar os grandes capitalistas da crise provocada por eles mesmos, foi necessário derrubar os governos nacionalistas latino-americanos, que tinham sido aceitos pela burguesia e pelo imperialismo após o recuo do primeiro choque neoliberal no continente.

Desde então, vimos uma série de golpes de Estado, como por exemplo em Honduras, no Paraguai e no Brasil. Em outros lugares, o imperialismo derrotou o nacionalismo por meio de eleições fraudadas, como no caso da Argentina. Desde então, há uma mudança gradual nos regimes políticos de todos os países latino-americanos, que se encaminham para uma ditadura, cada um com sua própria velocidade. Embora esta seja uma tendência geral, como podemos observar não só com estes poucos exemplos, mas com todo o desenvolvimento político recente na América Latina, qual a política da esquerda, seja ela da ala nacionalista ou de grupos esquerdistas minoritários? Confiar cegamente em suas respectivas burguesias nacionais, umbilicalmente ligadas ao imperialismo estrangeiro, e apostar todas as fichas nas eleições.

Uma das análises mais curiosas que ganhou muita popularidade no interior da esquerda pequeno-burguesa brasileira nos últimos anos é a chamada teoria do soft power, ou ainda guerras híbridas. Para os ideólogos desta política e para os que entraram na onda, haveria uma diferença fundamental entre os recentes golpes na América Latina e os que vimos anteriormente, nas tenebrosas ditaduras militares. De alguma forma miraculosa, a internet e outras novas tecnologias teriam tornado as fardas obsoletas; agora, para organizar um golpe de Estado, não seriam necessárias as botas e os tanques. Bastariam ataques cibernéticos, mensagens disparadas no WhatsApp que viralizam, manobras de gabinete, etc..

Primeiramente, esta é uma tese que não tem nenhum lastro histórico. Desde que o capitalismo entrou em sua fase imperialista, os grandes capitalistas dos países desenvolvidos fizeram a partilha do mundo. E, para controlar os regimes políticos de todos os países do globo, evidentemente que todo tipo de manobra foi empregada. É até infantil acreditar que só agora, em pleno século XXI, que o capitalismo utilizaria todo tipo de ardil para atingir os seus objetivos políticos. Diferente do que pensa a esquerda pequeno-burguesa, tanto ontem quanto hoje, o poder do imperialismo é garantido militarmente: caso a situação saia de controle em algum lugar, há sempre o “porrete” imperialista para colocar o pessoal na linha. No entanto, como uma classe social dominante, são muitas as opções políticas do imperialismo, de modo que podemos afirmar categoricamente que, tirando as tecnologias empregadas, não há nenhum método essencialmente inovador nestes últimos golpes. Pelo contrário, em certo sentido trata-se até de manobras manjadas do imperialismo.

E segundo, é uma tese que agora é desmentida na prática com o recente caso boliviano. O que estamos vendo na Bolívia é um sinal para toda a América Latina. A direita, as burguesias nacionais e o imperialismo estão se preparando um regime ditatorial em todo o continente para impor a política neoliberal, destrutiva e sanguessuga, nem que para isso precisem causar uma guerra civil nestes países. Os acontecimentos na Venezuela também comprovam este panorama.

Diante de um quadro tão sombrio, qual a solução para a esquerda e para o povo latino-americano? Em primeiro lugar, é preciso que a esquerda exija a saída imediata destes governos, direitistas e profundamente antipopulares. No entanto, o que faz a esquerda diante da falência destes governos, comprovada pelas duras manifestações populares recentes? Procura agir para garantir a sobrevivência do regime político. Foi o que vimos no caso do Chile, onde uma parte da esquerda chegou a um acordo com o governo Piñera em torno do problema do preço dos combustíveis, o que contribuiu para arrefecer a reação popular.

Quando não colabora com a sobrevivência de um governo direitista, a política da esquerda é capitular. Foi o que vimos Evo Morales fazer na Bolívia, onde ele recuou sistematicamente diante das ameaças da extrema-direita, e por fim, abriu mão do mandato e se mandou para o México. Para apontar uma política correta para o povo e as organizações populares e sindicais, é preciso observar com muita atenção o desenvolvimento da luta nos diferentes países da América Latina.

Tendo em vista o quadro geral, fica claro que em primeiro lugar a esquerda precisa derrubar os governos de direita, ligados ao imperialismo. No caso do Brasil, torna-se fundamental, após a vitória parcial obtida com a libertação de Lula, que se avance em torno do “Fora Bolsonaro”, que já está nas mentes e na boca do povo. Esta é uma reivindicação fundamental, que se coloca como pré-requisito para o desenvolvimento da luta popular. Só assim, mostrando claramente que não vamos aceitar viver sob a bota do imperialismo, é possível abrir caminho para outras perspectivas, tais como a convocação de novas eleições ou uma Assembleia Constituinte Popular.

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