Folhetim neoliberal
Jornal golpista defende mensalidades e empresários, supostamente para pagar salários de professores
Sede Grupo Folha
Proposta é similar ao Future-se. Foto: Arquivo/DCO |

Há anos a Folha de S. Paulo abandonou a pretensão de parecer séria e aderiu ao golpismo característico dos órgãos de propaganda baratos fantasiados de jornais informativos, a bem da verdade, um fenômeno comum a todos os países mas que nos países capitalistas atrasados atinge um grau quase cômico.

E foi apelando a argumentos ridículos que o jornal defensor do golpe de 2016 produziu uma peça publicitária de péssimo gosto em seu editorial do último 03 de fevereiro, onde defendia a privatização da USP.

Salvo em situações realmente desesperadoras do ponto de vista da burguesia (como estamos vendo agora na Bolívia), os fascistas vão sempre ganhando terreno aos poucos, através de aproximações sucessivas como diria o general Mourão. Começam com demagogias socialistas (como ensina Trotsky), falácias diversas aparentemente bondosas enquanto vão se armando para enfim atacar.

Seguindo então a práxis neoliberal, o texto começa “fofinho”, “preocupado” com a fuga de docentes na principal universidade brasileira e as consequências disso para os professores que ficam sobrecarregados e com a interrupção de projetos, informando que entre 2017 a 2019, um expressivo número de professores saíram da instituição de maneira provisória ou permanente, mais do que o dobro em relação ao período 2014 a 2016. Então vem uma isca, o editorial segue reportando que tudo está acontecendo em um período onde a universidade “esteve engolfada em gravíssima crise orçamentária, que chegou a comprometer mais de 100% de seus recursos anuais”.

Depois de mais demagogia, a Folha informa que a perspectiva de aumento dos salários dos professores após canetada do STF que equiparou o teto dos vencimentos das universidades estaduais ao das federais pode reverter a tendência mas cria um “problema” e aí vem a outra isca: para os professores não saírem da USP em busca de opções financeiramente mais vantajosas, haverá um acréscimo de R$80 milhões na folha salarial da universidade. E finalmente, o golpe: para arcar com esse incremento na despesa, o editorial defende “a necessidade de um debate sério e sem preconceitos sobre fontes alternativas de receitas, como a cobrança de mensalidades de quem possa pagar e a criação de fundos capazes de arrecadar recursos privados.” Lembrou do Future-se?

A primeira coisa a se destacar nessa história rídicula é a cifra. R$80 milhões pode ser uma fortuna além da imaginação para todo mundo que ler essa matéria, certamente é para o redator e também para o Partido da Causa Operária, que nunca teve acesso a uma fração que seja de tal montante para desenvolver suas atividades políticas.

Para o município de São Paulo apenas (desconsiderando a região metropolitana e todo o resto do estado afim de ilustrar o disparate), que em 2017 tinha um PIB de quase R$700 bilhões, o valor não passa de balinha de troco. Vale lembrar ainda que desde 01 de janeiro, o sindicato dos procuradores da Fazenda Nacional estima que o país já perdeu mais de R$58 bilhões com a sonegação de impostos, ou seja, dinheiro tem e em abundância. Se o editorial da Folha tivesse um mínimo de seriedade, esse tipo de fundamento, produto da mais absoluta indigência intelectual, jamais seria levantado mas, como o desespero da burguesia representada pela Folha é maior do que a vergonha, as aparências acabam sendo deixadas de lado.

O outro ponto é até mais importante para o esclarecimento da classe trabalhadora, ao contrário do que a confusão propagada pela direita dá a entender, a USP é paga por quem pode pagar e por quem não pode (principalmente por estes). A propaganda destinada a confundir incautos “ignora” que a universidade recebe 5,02% do ICMS “arrecadado” no estado de São Paulo, o que em 2018 significou quase R$5 bilhões, sendo a principal fonte de financiamento desta. Os impostos cobrados sobre o consumo são um verdadeiro crime contra a classe trabalhadora porque coloca em uma igualdade plena e absolutamente inexistente um catador de latinha e um engravatado da Faria Lima. Por isso, falar em mensalidade nas universidades públicas de conjunto não passa de uma falácia, uma demagogia barata destinada a abrir caminho para a privatização das instituições públicas de ensino superior.

A mesmíssima lógica está por trás do financiamento privado. Não existe proibição alguma quanto a isso, o que existe é a garantia de autonomia da USP, para que ela não dependa da burguesia e é justamente o fim dessa garantia que está por trás da ideia de “fundos capazes de arrecadar recursos privados”. Dessa forma, a universidade não teria escolha a não ser recorrer aos tais fundos e aqui, vale a sabedoria popular: quem paga a banda escolhe a música.

Privatizar a USP é um sonho antigo do PSDB e a Folha é um grande porta voz da ditadura tucana em São Paulo. Os trabalhadores e os estudantes (esses de maneira mais direta) não podem se confundir quanto aos interesses escondidos pela maquiagem demagógica da direita. O editorial tem de ser lido com olhar atento de quem percebe mais uma frente de ataques contra a USP e a necessidade de organizar os setores mais combativos para enfrentar o que está sendo anunciado. Nesse sentido, o PCO convoca a comunidade acadêmica e de maneira mais especial os estudantes a concentrarem forças nos comitês de luta que se espalham em todo o país e que deverão ser o instrumento máximo da luta popular.

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