Festival exibiu em São Paulo e no Rio de Janeiro versões restauradas dos filmes de Nelson Pereira dos Santos, grande nome do cinema brasileiro

maxresdefault-6

No dia 04/11 aconteceu no Rio de Janeiro e no dia 06/11, em São Paulo, as versões cinematográficas restauradas de 25 títulos, dentre os quais Rio 40 Graus e Rio, Zona Norte, de autoria de um dos principais cineastras brasileiros, Nelson Pereira dos Santos. As obras serão apresentadas ao longo do ano.

Filha e produtora do cineastra, Márcia Pereira dos Santos destaca que seu pai abordou uma grande variedade de temas, estilos e gêneros, e que suas obras marcaram toda uma geração. Rio 40 Graus, por exemplo, apresenta traços do neorrealismo italiano, e serviu de pedra fundamental do Cinema Novo brasileiro.

A película virou, em 1955, o que hoje se chama de ‘case’. O filme narra a vida de um grupo de garotos que, num típico domingo de verão, deixam a comunidade para vender amendoim na Zona Sul. O samba de Zé Kéti, A Voz do Morro, é o tema musical e o próprio compositor interpreta o personagem Neguinho. Roberto Batalin, Glauce Rocha, Jece Valadão, Modesto de Souza e Sady Cabral estão no elenco. Há 63 anos, o chefe de censura da época tentou banir o filme das salas, alegando que se travava de uma grande mentira. Não, ele não se referia as condições sociais que Nelson denunciava. A mentira, todo mundo sabia, é que no Rio a temperatura chega a 39 graus, mas nunca a 40 – dizia ele.

Hoje em dia, isso faz parte do folclore que cerca o filme, mas existem outras questões a considerar. Rio 40 Graus motivou um perrengue de Nelson com a Cinemateca Brasileira, na qual havia depositado o negativo de seu filme. Para imensa tristeza de Nelson – “Os filmes eram filhos para ele”, conta Márcia –, Rio 40 Graus queimou-se porque a cópia queimou. Uma extensa busca levou à descoberta de que na, antiga Checoslováquia, havia um internegativo e, assim, Rio 40 Graus foi salvo para voltar agora, envolto na sua aura de ‘clássico’ do cinema nacional. Os dois Rios, 40 Graus e Zona Norte, compõem um díptico sobre a adversidade social. E são obras de forte musicalidade.

Rio Zona Norte mostra Grande Otelo como um compositor popular que caiu do trem da Central – houve, no Festival do Rio, no domingo, outra emocionante homenagem aos 20 anos do filme de Walter Salles com Fernanda Montenegro e Vinicius de Oliveira. Enquanto está morrendo, Otelo vê sua vida passar em flash-back. Lembra a dificuldade para vender seus sambas, e uma cena o mostra tentando cooptar Ângela Maria, a rainha do rádio que morreu em 29 de setembro, sob o olhar do jovem Glauber Rocha. Todo Nelson. Nos próximos meses, e graças ao IMS, será possível (re)descobrir e (re)valorizar a importância de Nelson. Suas duas adaptações de Graciliano Ramos, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, são viscerais e o experimentalismo de Fome de Amor e a vibração de suas incursões pelo mundo popular em O Amuleto de Ogum e A Estrada da Vida – seu grande filme menos valorizado –, merecem, mais que nunca, ser resgatados.