27 anos da morte de Fela
Fela Kuti foi um dos mais politizados músicos de todos os tempos. Sua imensa obra musical é intrinsicamente ligada à sua atividade política.
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Fela Kuti | Foto: Reprodução ITV/Rex/Shutterstock

Quando Fela Kuti morreu em 2 de agosto de 1997, após 58 anos vividos de modo extremo e além de todas as convenções, inúmeros sentiram a perda. No dia de seu funeral as ruas de Lagos, capital da Nigéria, ficaram tomadas por seus fãs. Mais de um milhão de pessoas desafiaram o ordem do governo ditatorial que proibia as reuniões públicas, um decreto do ditador militar, o General Sani Abacha. Mais de 150 mil pessoas fizeram fila para prestar suas últimas homenagens a um dos maiores músicos que o país já conhecera. Naquele dia nem a polícia e nem o exército ousaram aparecer nas ruas.

A obra de Fela Kuti está intimamente ligado a seu ativismo político, sendo que seus discos denunciam os efeitos nefastos do neocolonialismo e especialmente das ditaduras militares que tomaram conta da Nigéria nos anos 70. Ele nunca se omitiu da luta e nunca teve medo de dizer os nomes de seus inimigos. Com o seu enorme prestígio internacional seria muito fácil para Fela se exilar em um país estrangeiro, mas sua vontade era ser a voz do povo oprimido, esmagado pela ditadura militar. Permaneceu na Nigéria até o fim de sua vida.

Infancia privilegiada

Fela Kuti nasceu Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti. Era também conhecido pelo nome de Fela Ransome-Kuti. Ele nasceu em 15 de outubro de 1938 em Abeokuta, no estado de Ogun, na República Federativa da Nigéria. Na época em que nasceu era ainda a Colônia Britânica da Nigéria Foi o criador do estilo conhecido como afrobeat, um gênero que mistura o blues americano, jazz, funk, highlife e rock psicodélico com a música tradicional iorubá.

Kuti era filho da ativista feminista e trabalhista Funmilayo Ransome-Kuti e do Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, um diretor de escola e ministro de igreja anglicana. Fela foi criado em um ambiente de classe média alta. Quando jovem teve aulas de piano e percussão e em 1958 foi mandado para Londres para estudar medicina, só que resolveu estudar música na Trinity College, sendo que seu instrumento preferido na época era o trompete.

Nesta época formou um grupo, o Koola Lobitos, que fazia uma mistura de jazz e highlife (estilo típico de Gana e Nigéria). Em 1960 casou-se com sua primeira mulher, Remilekun Taylor, com quem teria três filhos (Femi, Yeni e Sola). Voltou à Nigéria em 1963 onde reformou o Koola Lobitos, além de treinar para se tornar produtor de rádio na Nigerian Broadcasting Corporation.

Fez uma viagem para Gana em 1967 para descobrir novos rumos para sua música. Foi quando Fela começou a formular o afrobeat, uma combinação de highlife, jazz, salsa, calipso e música iorubá tradicional. No ano de 1969 fez uma viagem aos Estados Unidos onde se conectou com os militantes do partido dos Panteras Negras e se tornou cada vez mais politizado, especialmente após o encontro com Sandra Smith (hoje em dia conhecida como Sandra Izsadore) em Los Angeles. Até então Fela tinha uma consciência política extremamente limitada. Sandra Smith apresentou a Fela os fundamentos do marxismo e da luta dos negros na América, além da música de Miles Davis, Nina Simone e The Last Poets.

Em agosto de 1969 Fela e sua banda estavam morando em Los Angeles, praticamente sem dinheiro e sem locais onde tocar porque haviam viajado de intercâmbio e não tinha permissão para tocar profissionalmente. Foi em um desses poucos shows que Fela conheceu Sandra que também lhe apresentou um clube onde a banda podia se apresentar regularmente. Era o Citadel de Haiti, cujo dono era o ator negro Bernie Hamilton. Foi neste período que Fela compôs sua primeira canção com genuínas raízes africanas, “My Lady Frustration”. O título da canção foi dado por Sandra.

Foram 10 meses nos Estados Unidos que definiram a direção musical e política de Fela Kuti. Antes de voltarem à Nigéria o grupo fez sessões de gravações que anos mais tarde foram lançadas no LP “The ’69 Los Angeles Sessions”, incluindo a música “My Lady Frustration”.

Política da Nigéria: independencia e golpes militares

A Nigéria foi uma colônia britânica até o dia 1º de outubro de 1960 quando se tornou um estado independente, mas como membro do Commonwealth, ou seja, ainda mantendo a Elizabeth II como sua rainha e chefe de estado. Com a independência uma coalizão de partidos de direita assumiu o controle do estado. Também se acentuaram as diferenças entre os diferentes grupos étnicos que formavam o país: os hausa-fulani (que viviam no norte), Igbo (ao leste) e os iorubás (oeste).

As eleições de 1965 foram denunciadas como corruptas e fraudulentas, o que acabou ocasionando uma série de golpes militares. O primeiro golpe foi em janeiro de 1966, dado por soldados igbo que assassinaram líderes da região norte e do oeste. Um contragolpe no mesmo ano dado por militares do norte resultou na ascensão do Tenente-Coronel Yakubu Gowon como líder do país.

Em maio de 1967 a região sul declarou sua independência sob o nome de República de Biafra. Depois de uma longa batalha Biafra foi derrotada e reanexada ao território da Nigéria. Estima-se que a guerra em Biafra tenha resultado em mortes na casa de um milhão de pessoas. Esta guerra civil na Nigéria foi o centro de uma intensa disputa entre os países imperialistas, com o envolvimento de Reino Unido, França, União Soviética, Estados Unidos, Israel e China, entre outros, que reconheciam a importância estratégica da Nigéria no panorama africano.

Nos anos 70 a Nigéria viveu o boom mundial do petróleo, mas a população nigeriana não teve nenhum benefício, o que aumentou a percepção popular da alta taxa de corrupção que dominavam os governos militares.

Fela Kuti de volta à África

Foi dentro deste panorama de guerra civil que Fela Kuti voltou à África. Em 1970 ele renomeou sua banda de Africa ’70, produzindo uma imensa quantidade de material, por vezes até 8 LPs em um único ano. Construiu o seu próprio clube, o Africa Shrine, onde ele fazia longas e energéticas apresentações com uma banda enorme, completa com várias dançarinas. No Shrine ele denunciava o governo ditatorial da Nigéria e louvava os deuses iorubás. Os shows tinham tanta platéia que com o tempo ele acabou declarando que aquele pequeno pedaço de terra em Lagos seria uma nação soberana, que ele chamou de República de Kalakuta.

As músicas de Fela criticavam e denunciavam o regime ditatorial do país e isso logo o tornou um alvo das autoridades. O país acabara de passar por uma guerra civil. Por isso resolveram endurecer com Fela.

Entre 1970 e 1973 Fela Kuti e seu grupo Africa 70 lançaram dez álbuns incluindo “Live!” (1971) com a presença de Ginger Baker, ex-Cream na bateria em duas músicas. Fela retribuiu participando do disco solo de Ginger Baker, “Stratovarius”, lançado em 1972. Na época Baker, ex-baterista de grupos lendários como o Cream e o Blind Faith, havia resolvido montar um estúdio de gravação em Lagos. Esse estúdio de Baker foi inaugurado em 1973 e foi usado para as gravações do disco “Band On The Run” de Paul McCartney e os Wings.

Neste período Fela torna-se um dos grandes nomes da cena africana, excursionando pelos países vizinhos e gravando discos em Londres e em Lagos, sempre com a presença inseparável de Tony Allen, seu baterista e diretor musical. Desde o início Fela toma a decisão de cantar em “nigerian pidgin” ou “english pidgin”, uma espécie de dialeto derivado do inglês para que pudesse se comunicar melhor com todos os povos africanos. Era a linguagem comumente usada pela população mais humilde. Em algumas canções Fela cantava no idioma iorubá.

República de Kalakuta

A partir de 1974 se intensifica a perseguição a Fela Kuti. Uma das maiores causas de irritação da ditadura militar foi a República de Kalakuta. Kalakuta era uma comunidade que reunia a casa da família de Kuti, a casa onde ele e os músicos moravam, uma clínica médica e o estúdio de gravação. Fela declarou este um território independente do estado governado pela junta militar.

Em 30 de abril de 1974 a polícia invadiu a casa de Kuti por acusações de porte de maconha. Na época uma acusação dessas assegurava 10 anos de prisão e o cultivo da maconha levava a uma pena de morte. Segundo o cantor foram 50 policiais que entraram na casa para levar todos presos. Enquanto Fela ficou oito dias preso outros moradores ficaram até dois meses na cadeia. Logo após ter sido libertado Fela foi vítima de outra invasão da polícia. Os agentes tentam plantar uma quantidade de droga para incriminá-lo, mas Fela engole o produto. Ainda assim os policiais o levam em custódia. Numa cela comum com outros presos as autoridades esperam até que ele produza as provas do seu crime. Ele consegue enganar os policiais trocando os seus excrementos com os de outro preso.

Este episódio inspira o LP “Expensive Shit” de 1975. Após este episódio Fela decide cercar Kalakuta com arame farpado com 3 metros e meio de altura e com guardas 24 horas por dia.

Em 1976 Sandra Smith veio à Nigéria para gravar um disco com Fela e sua banda. O resultado foi o LP “Up Side Down”. O álbum trata da confusão e da corrupção do período Gowon-Obasanjo (presidentes da Nigéria, Yakubu Gowon, presidente de 1966 a 1975 e de Olusegun Obasanjo, presidente de 1976 a 1979). Por esta época Fela muda de nome e se livra do nome Ransome, que ele considera um nome colonial e um nome de escravo e adota Anikulapo (que significa “aquele que traz a morte em seu amago”), tornando-se Fela Anikulapo-Kuti e também muda o nome da banda de Africa 70 para Afrika 70.

Fim de Kalakuta

“Zombie” foi um dos discos que Fela lançou em 1977. Este foi um outro álbum extremamente político, um ataque à atitude dos soldados nigerianos, comparando-os a zumbis. Foi um grande sucesso e enfureceu o governo, que começou a preparar o fim de Kalakuta.

Neste ano o governo nigeriano resolve organizar um festival de música, o FESTAC. Eles convidam Fela Kuti para participar, mas este se recusa após ter apresentado uma carta com várias idéias incluindo a participação efetiva do povo nigeriano. Fela denuncia o festival como apenas propaganda governamental. Por esta época Fela havia montado uma gráfica e estava editando um pequeno jornal, o YAP (Young African Pioneers). O governo havia banido os partidos políticos desde o golpe militar de 1966. Por isso Fela estava usando o jornal para propaganda e para denunciar a corrupção do governo.

O FESTAC aconteceu entre janeiro e fevereiro de 1977 com shows de Sun Ra e Gilberto Gil, entre outros. Em oposição Fela organizou o seu próprio festival em seu clube Shrine. O governo desencorajou os artistas a visitar o Shrine mas a maior parte deles ignora o aviso, inclusive a grande estrela do festival, Stevie Wonder, que fez então sua primeira performance no país. Fela continuou com sua política de denúncia todas as noites no palco do clube.

Toda esta situação acabou gerando um ataque direto do governo a Kalakuta. Mais de 1000 soldados invadiram o terreno e bateram nas pessoas, estupraram várias mulheres e no final colocaram fogo em toda a propriedade. Fela e vários outros foram presos, muitos gravemente feridos. A mãe de Kuti, Funmilayo Kuti, foi jogada pela janela do segundo andar de sua casa e acabou falecendo algumas semanas depois. Este episódio foi retratado por Fela no seu LP “Coffin For Head Of State” de 1981, com uma capa que traz uma foto do enterro de seu mãe e culpando o governo Obasanjo como responsáveis pela morte de Funmilayo Kuti.

Outros dois discos lançados por Fela foram “Sorrow, Tears And Blood” e “Unknown Soldier”, dedicados à memória daqueles que foram espancados, estuprados, torturados ou feridos naquele ataque.

Perseguição e prisão

Fela, seus músicos e habitantes de Kalakuta ficam sem residência. Ele havia entrado na justiça para cobrar indenização de todas suas perdas, mas o Supremo Tribunal dá ganho de causa ao governo. Desse modo 1978 é um ano sem nenhum disco lançado. Com isso vários dos músicos do Afrika 70 saem, entre eles o mestre baterista Tony Allen, cansado da briga política.

Em 1979 Fela criou um partido político, o “Movement Of The People” (MOP, Movimento Do Povo), mas sua candidatura à presidência da Nigéria acaba proibida. Além de ser um partido político o MOP também prega o pan-africanismo (que prega a união de todos os povos africanos) e o “nkrumahism”, esta última uma doutrina baseada no pensamento de Kwame Nkrumah, um pan-africanista e marxista-leninista que foi primeiro ministro de Costa do Ouro (que depois se tornou Gana). O nkrumaismo pregava a implantação do socialismo dentro da realidade africana.

No ano seguinte faz uma turnê conjunta com o astro do jazz-funk americano Roy Ayers, gravando um disco em conjunto, “Music Of Many Colours”. Lança ainda um de seus discos mais combativos, “Authority Stealing”.

Em 1981 renomeia sua banda Egypt 80. Desta vez Fela é acusado pela polícia de participar de um assalto armado. A acusação absurda é retirada, mas não antes de Fela ser selvagemente espancado pela polícia, mais uma vez. Anos depois ele declarou ter sido esta a única vez em que temeu ser morto. Em setembro de 1984 ele foi encarcerado por 20 meses por uma acusação de lavagem de dinheiro. Fela estava quase embarcando num avião que iria de Lagos para Nova York quando policiais o detiveram alegando que ele estava levando 1.200 libras não declaradas para fora do país. O fato é que Fela havia declarado o valor no formulário, mas a polícia alegou que esse documento se perdeu. Os músicos do Afrika 70 já estavam no avião e pensaram que Fela viria em seguida. A banda fez alguns shows nos Estados Unidos, mas sem sinal de Fela voltaram à Nigéria. No julgamento Fela é condenado a cinco anos na prisão. Foi levado à prisão de Kiri-Kiri em Lagos e depois para Maiduguri no norte do país. A Anistia Internacional acompanhou o caso e declarou Fela um “prisioneiro de consciência”, ou seja, uma pessoa presa por causa de suas crenças políticas, sexuais, religiosas ou raciais.

Fela é libertado em 24 de abril de 1986. O juiz de seu caso, Gregory Okoro-Idogu declarou que ele foi pressionado pelos militares a dar uma sentença desproporcional a Fela. O juiz visita Fela na prisão para se desculpar. Entre 1989 e 1992 Fela e o Egypt 80 excursionam pelo exterior. Um dos shows é no Teatro Apollo em benefício de James Brown, que foi preso e condenado a dois anos na prisão por “atacar um policial”.

Em 1992 Fela lança o seu último disco de estúdio, “Underground System”, um álbum inspirado em parte pelo assassinato de Thomas Sankara, o revolucionário presidente de Burkina Faso. Fela havia visitado Sankara, um fã declarado do artista, apenas alguns meses antes de ser morto.

Fela foi preso novamente em 1993 por assassinato de um ex-funcionário, mas as acusações foram retiradas pela evidente falta de provas. Ele morreu por complicações resultantes do vírus HIV no dia 2 de agosto de 1997.

O legado do afrobeat

O baterista Tony Allen, que morreu em 30 de abril deste ano, foi um dos músicos mais importantes a tocar com Fela Kuti. Segundo Fela, “sem Tony Allen não haveria afrobeat”. O afrobeat era caracterizado por uma banda enorme, com muitos instrumentos e estruturas musicais com seções de metais e percussões, compondo um “groove infinito”, que serve de base para as letras politizadas de Fela. Boa parte dos discos traz apenas um faixa por cada lado de um LP. Muitas músicas chegam a ter 30 minutos de duração.

Fela era um multi instrumentista que dominava os teclados, guitarra, saxofone, trompete e a bateria. Tinha um lema: depois que gravava uma música não queria mais saber de ouvi-la ou ter que tocá-la ao vivo novamente. Por causa disso tinha algumas músicas favoritas que ele nunca gravou, por isso permaneceram indefinidamente em seu repertório ao vivo como é o caso de “N.N.G. (Nigerian Natural Grass)”.

Aliás Fela tinha uma predileção por usar abreviações nos títulos de suas músicas. Alguns exemplos: “M.A.S.S.” (Music Against Second Slavery, música contra a segunda escravidão), “B.B.C.” (Big Blind Country, grande país cego), “I.T.T.” (International Thief Thief, ladrão internacional) e “V.I.P.” (Vagabonds In Power, vagabundos no poder).

Hoje em dia Fela Kuti é reconhecido como um dos músicos mais influentes no mundo em todos os tempos. Sua herança é imensa, uma discografia extensa composta por dezenas de discos. O legado da música de Fela tem uma continuidade pelo trabalho de dois de seus filhos, Femi Kuti, que desde adolescente tocava na banda Egypt 80 e Seun, que carrega ainda a chama do Egypt 80.

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