O músico faleceu 3 anos atrás
Fats Domino foi um dos mais importantes nomes da fundação do rock ‘n’ roll, ao lado de pioneiros como Chuck Berry, Little Richard e Bo Diddley
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fats domino foto afp getty imagescut
Fats Domino se apresentando em Paris em 1962 | Foto: AFP/Getty Images

Em 1960 Fats Domino era um dos músicos mais bem-sucedidos do rock, atrás apenas de Elvis Presley. Ele poderia ter ido morar em qualquer lugar que quisesse, mas ele escolher morar em uma rua no bairro de Lower Ninth Ward, em Nova Orleans, apenas algumas quadras de onde ele nasceu e morou por toda sua vida. Ele sempre esteve intimamente ligado a Nova Orleans e mesmo longe de casa levava consigo temperos, ingredientes e panelas para que pudesse cozinhar a comida típica de sua cidade.

Fats foi um dos grandes nomes do rhythm and blues e um dos pioneiros do rock’n’roll. Foi também um dos primeiros artistas negros a se tornar popular para plateias brancas. Sua humildade e timidez acabaram fazendo com que suas contribuições ao gênero fossem parcialmente negligenciadas. Fats nunca se considerou uma estrela, dizendo ser apenas “um pianista de Nova Orleans”.

Ao mesmo tempo seus shows eram eletrizantes e sua figura magnética. Há uma famosa declaração de Elvis Presley em que ele diz: “muita gente parece pensar que eu comecei este negócio. Mas o rock’n’roll já estava aqui há muito tempo antes de eu chegar. Vamos ser sinceros, eu não consigo cantar como Fats Domino, eu sei disso”.

Primeiros anos

Antoine Domino Jr. nasceu em Nova Orleans, estado de Louisiana, em 26 de fevereiro de 1928, filho mais novo do casal Antoine Calice Domino e Donatile Gros Domino. A família era de plantadores de cana de açúcar na região de Vacherie e que se mudou para Nova Orleans pouco antes do nascimento de Fats. A família falava o francês creole, língua que Fats aprendeu a falar antes do inglês.

Fats começou a tocar piano por volta de 1938 depois que a família ganhou de presente um velho piano. Ele teve aulas com um cunhado, um tocador de banjo e violão chamado Harrison Verrett. Fats gostou tanto do piano que acabou deixando a escola para se dedicar à música. Suas principais influências foram os pianistas Albert Ammons, Amos Milburn e Professor Longhair. Desde cedo começa a fazer apresentações, sendo contratado em 1947 por Billy Diamond para fazer parte de sua banda, o Solid Senders, que se apresenta regularmente em clubes como o Hideaway e o Robin Hood, ganhando 3 dólares por semana.

Foi Diamond quem deu a Antoine o nome de “Fats”, primeiro por causa do seu físico e grande apetite e também porque lembrava os famosos pianistas Fats Waller e Fats Pichon.

Em 1949 Fats forma a sua própria banda e é visto pelo produtor e compositor Dave Bartholomew e pelo DJ Duke “Poppa Stoppa” Thiele, que o apresentam a Lew Chudd, dono da gravadora Imperial Records.

Primeiras gravações

A Imperial Records fez um contrato com Fats que se mostraria muito vantajoso com os anos. Ele receberia royalties com base em suas vendas ao invés de ganhar por gravação. Sua estreia em disco foi com uma composição de Fats em parceria com Bartholomew, “The Fat Man”, uma canção R&B que era uma variação de uma canção tradicional de Nova Orleans, “Junker Blues”. Nessa gravação Fats canta e toca piano e é acompanhado por Earl Palmer (bateria), Frank Fields (baixo acústico), Ernest McLean (guitarra) e Herbert Hardesty, Clarence Hall, Joe Harris e Red Tyler (saxofones).

O disco foi lançado pouco antes do natal de 1949 e se tornou um enorme sucesso com o público negro, vendendo mais de 10 mil cópias em 10 dias. Até 1953 o disco vendeu um milhão de exemplares. Em retrospecto “The Fat Man’ é considerado um dos primeiros discos de rock’n’roll, ao lado de gravações como “Rock Me Mamma” e “That’s All Right” de Arthur “Big Boy” Crudup, “Boogie Chillen” de John Lee Hooker, “Rock The Joint” de Jimmy Preston e “Rocket 88” de Jackie Brenston, entre outras.

O que fez com que “The Fat Man” se destacasse à frente de outros discos de R&B foi o tom cru e agressivo de seu piano boogie-woogie e batida forte e insistente, prenunciando o estilo que se tornaria dominante na cena musical alguns anos depois. Mas Fats Domino nunca chamou sua música de rock’n’roll, mas uma continuação do R&B que costumava ouvir em Nova Orleans.

Seus sucessos seguintes vieram em 1950 com o single “Every Night About This Time” e em 1952 com a música “Goin’ Home”. Ao mesmo tempo em que lançava seus discos Fats participava também como pianista de estúdio de discos de outros artistas. Ele está presente no disco de estreia de Lloyd Price, “Lawdy Miss Clawdy”, outro sucesso e clássico do rock’n’roll de Nova Orleans. Fats imprime a sua marca registrada ao piano, além da presença do baterista Earl Palmer, que faz a batida que se tornaria característica do rock’n’roll, com sua batida na caixa no segundo e quarto tempo de cada compasso, um elemento primordial para a construção do estilo.

Sucesso entre brancos e negros

Fats consegue conquistar o mercado de música pop em 1955 com o seu clássico “Ain’t That A Shame”, outra composição de Fats e Dave Bartholomew. A música chega ao topo da parada de discos R&B e ao décimo lugar da parada pop geral. Essa música foi incluída na lista da revista Rolling Stone das 500 maiores canções de todos os tempos. A música alcançou uma fama nacional quando foi regravada pelo cantor branco Pat Boone, lançada um mês depois da versão de Fats. Pat Boone costumava contar uma história sobre um concerto de Fats Domino onde ele chamou Boone ao palco, mostrando ao público o seu grande anel de ouro e dizendo, “Pat Boone me comprou este anel”. Como compositor da canção Fats recebeu royalties da gravação de Boone.

Um dos músicos que foram enormemente influenciados por Fats Domino foi o jovem John Lennon. “Ain’t That A Shame” foi a primeira música que ele aprendeu a tocar. Ele gravaria a canção em seu disco “Rock ‘n’ Roll” de 1975. Seu colega de Beatles, Paul McCartney, a gravaria duas vezes, primeiro em seu disco “Choba B CCCP” de 1988 e depois em 1990 no álbum “Tripping The Live Fantastic”.

Nesse mesmo ano Fats lança seu primeiro álbum, “Rock And Rollin’ With Fats Domino”. Lançou outros dois LPs no mesmo ano: “Fats Domino Rock And Rollin’” e “This Is Fats Domino!”.

Ainda em 1956 teve outro grande hit com “Blueberry Hill”, uma regravação de uma música originalmente gravada em 1940 pela Sammy Kaye Orchestra. A música acabou vendendo mais de 5 milhões de cópias, tornando-se o maior sucesso de sua carreira. Foi depois regravada por Elvis, Little Richard e muitos anos depois pelo Led Zeppelin.

A segregação racial

Por esta época Fats estava constantemente fazendo shows por todo o país. Em uma dessas suas apresentações, no American Legion Auditorium em Roanoke, no estado de Virginia se deparou com a prática dos shows segregados. Nos estados do sul dos Estados Unidos ainda vigoravam as chamadas leis Jim Crow, que impunham a segregação racial. Neste show as plateias branca e negra estavam separadas, os negros na pista de dança e cerca de 2000 brancos no balcão acima. Alguns dos brancos decidiram sair daquele espaço lotado e foram para a pista dos negros, o que causou a indignação de jornalistas brancos que acompanhavam o evento. O que eles viram eram brancos e negros dançando juntos na pista, apreciando juntos a música de Fats Domino e desafiando as leis da segregação.

Em 2 de novembro em outro show, desta vez em Fayetteville, no estado da Carolina do Norte, houve brigas na plateia durante seu show. A polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão e Fats foi obrigado a pular pela janela para escapar, seguido por outros membros da sua banda.

Fats passou por outros shows com clima semelhante, o que no futuro ajudaria a acabar com a segregação explícita.

O ano de 1956 foi o auge para Domino que ainda apareceu em dois filmes, “Shake, Rattle & Rock” e “The Girl Can’t Help It”.

Fats continuou tendo muito sucesso até 1962, lançando músicas como “Blue Monday”, “Valley Of Tears”, “Little Mary”, “I Want To Walk You Home”, “Walking To New Orleans”, “Whole Lotta Loving”, “I’m Gonna Be A Wheel Someday” e “Let The Four Winds Blow”. Seu hit “Be My Guest” se torna uma inspiração chave para a criação do ska jamaicano. Em 1961 Fats visitou a Jamaica onde foi tratado como um rei pelos futuros astros do ska e do reggae.

Em 1962 fez uma excursão pela Europa e se encontrou com os Beatles. Na volta começou a fazer temporadas em Las Vegas.

A partir de 1963 Fats começa a lançar seus discos pela gravadora ABC-Paramount. Com a chegada da Invasão Britânica em 1964, especialmente da Beatlemania, a popularidade da música de Fats Domino entra em declínio.

Mesmo assim Fats lança inúmeros LPs por várias gravadoras e mostrando que continuava a ser uma atração popular nos shows ao vivo, energéticos como sempre. Em 1968 os Beatles lançam a música “Lady Madonna”, claramente inspirada no estilo de Fats Domino. Em seguida é a vez de Fats gravar sua versão de “Lady Madonna”, que é um dos seus últimos singles e um pequeno hit e que é incluída em seu LP “Fats Is Back”, que também tem a sua versão de “Lovely Rita”.

Em 1986 Fats foi um dos primeiros músicos a entrarem no Rock And Roll Hall Of Fame, além de ganhar o prêmio Grammy em 1987 pelo conjunto de sua obra.

O furacão Katrina

Em agosto de 2005 Fats Domino foi uma das vítimas do furacão Katrina, que arrasou a cidade de Nova Orleans.

Fats decidiu permanecer em sua residência com sua família especialmente porque sua esposa Rosemary estava com a saúde fragilizada. A região onde ele morava sofreu uma enorme inundação. Por vários dias ninguém teve notícias de Fats e muitos presumiram que ele havia morrido. Algum tempo depois veio a notícia de que ele havia sido resgatado, no teto de sua casa, com sua família, por um helicóptero da guarda costeira. Após este incidente a família de Fats teve que se mudar para a cidade de Harvey.

No incidente Fats perdeu tudo, inclusive os seus amados pianos de cauda e seus discos de ouro. Ele poderia ter voltado para sua casa, que foi reconstruída, mas a cidade já não era mais a mesma, alguns de seus vizinhos haviam morrido, outros se mudado do local e muita coisa só voltaria ao normal dentro de anos. A casa de Fats é até hoje local de visitação turística.

Fats Domino morreu em 24 de outubro de 2017 em sua casa em Harvey, Louisiana de causas naturais.

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