Enganação de BolsoDoria e Cia.
Com as fábricas e grandes empresas funcionando e as escolas abertas, como vai haver isolamento minimamente eficiente?

Por: Redação do Diário Causa Operária

Ao menos 10 capitais do País estão com as UTIs com mais de 90% de ocupação, sendo que o estado do Rio Grande do Sul tem 100% de leitos ocupados e os novos pacientes estão tendo que ser atendidos em UTIs improvisadas.

Tantos estados pobres, como os do Norte e Nordeste, como estados mais desenvolvidos, como os do Sul e Sudeste, estão em uma crise gigantesca. A solução encontrada por todos eles não varia muito: restrições de circulação, lockdown e toque de recolher.

O governo do Acre, por exemplo, proibiu, na última segunda-feira (01), que o comércio (como bares e restaurantes) funcionem aos finais de semana e feriados. Já no Rio Grande do Norte, desde o final de semana existe toque de recolher das 22h às 5h, com proibição de circulação de pessoas nas ruas de todo o estado.

Em São Paulo, o governador símbolo da demagogia “antifascista”, “científica” e “civilizada”, o coxinha fascista João Doria (PSDB), já decretou lockdown e deverá colocar todo o estado sob a fase vermelha ainda esta semana.

Todas essas medidas “drásticas” dos governadores e prefeitos, no entanto, são absolutamente irrisórias e enganosas. Servem, como se diz, “para inglês ver”. O impedimento da população de sair de casa ocorre apenas nos horários em que as pessoas, costumeiramente, já não saem de casa. De madrugada praticamente inexiste circulação de pessoas nas ruas, muito menos aglomerações.

Isso, contudo, não é novidade para João Doria. Todo o chamado “isolamento social” do tucano de bico compridíssimo se resume em uma palavra: farsa. Antes do início das medidas, em março do ano passado, tradicionalmente por volta de 28% da população já permanecia em casa nos dias úteis. O máximo que o “isolamento social” alcançou foi em torno de 50% de pessoas em casa, isto é, pouco mais de 20% apenas. Depois esse índice diminuiu para uma média de 40%. Logo, considerando o percentual da população que já não saía de casa, as ameaças de Doria conseguiram “convencer” somente de 22 a 12% dos cidadãos.

Mas por que o tal isolamento não passa de uma farsa? Ora, a resposta é muito simples: ele não existe, de fato. É uma conversa fiada, vendida pela imprensa cartelizada a serviço do PSDB. A campanha que tinha o lema “fique em casa” teve a aderência apenas de uma parcela da classe média que pôde trabalhar de home office. A esmagadora maioria dos trabalhadores permaneceram nas ruas, indo e vindo da casa para o trabalho, em ônibus, metrôs e trens lotados, labutando em fábricas cheias, empresas cheias. Por volta de 80% das empresas permaneceram abertas e a indústria continuou operando normalmente. Isso tem uma razão lógica: os capitalistas precisam continuar lucrando, cada fábrica parada ou empresa fechada significa uma diminuição de seus lucros.

A classe média

Por outro lado, os comércios só fecharam em determinados períodos do dia que não eram nos horários de pico. O máximo que se fez, e que se está voltando a fazer, é ampliar o fechamento dos comércios por um período maior, com a chamada “fase vermelha”. Além de não afetar a circulação de pessoas e de não impedir qualquer aglomeração, essa medida significa a retirada da renda de uma parcela significativa da população.

Os pequenos comerciantes, os chamados “empreendedores”, que não passam de trabalhadores autônomos totalmente reféns dos grandes capitalistas, são altamente prejudicados com essas medidas, pelas quais os governos não oferecem nenhuma contrapartida. Um dono de salão de cabeleireiro, por exemplo, tem em seu trabalho por conta própria a única fonte de renda. Se não trabalhar, não ganha nem um tostão. O mesmo vale para o pequeno empresário, como um dono de padaria: se o seu estabelecimento fechar, ele não arrecada. E, como, geralmente, ainda mais em meio a uma gigantesca crise econômica, não tem uma grande poupança, acaba indo à falência e caindo na pobreza.

É isso o que os governadores e prefeitos “científicos” estão fazendo com a população. Sua ciência não é capaz de garantir a vacinação da população e são obrigados a impor medidas repressivas e antidemocráticas, sem que haja nenhuma espécie de auxílio econômico a esses setores sociais.

Entende-se que, diante de um cenário catastrófico que Bolsonaro e a direita “opositora” jogaram o País, a solução passa, dentre outros caminhos, pelo isolamento social. Mas esse isolamento social precisa ser sério, efetivo e real. Não adianta fechar o comércio de madrugada, quando não tem ninguém na rua, e ao mesmo tempo “liberar geral” para que milhões de trabalhadores saiam nos horários de pico para se amontoar no transporte público.

Se houvesse um combate honesto contra o coronavírus, os governos realizariam uma campanha de convencimento da população para que ela ficasse em casa e não saísse às ruas para não entrar em contato com outras a fim de impedir a circulação do vírus. Isso é um método muito mais democrático e civilizado do que impor medidas impopulares e repressivas de maneira unilateral. Além disso, os governos deveriam garantir que essas pessoas não precisassem sair de casa: deveriam obrigar os patrões a pagarem os salários dos trabalhadores que entrassem em férias coletivas ou licença; deveria haver uma escalonagem de horas a fim de controlar o número de trabalhadores em cada local por turno de trabalho; deveriam ser distribuídos em massa os EPIs; deveriam ser realizados testes massivos; deveriam ser proibidos os cortes de energia, água e gás, bem como os despejos; deveria haver uma contratação massiva de trabalhadores da área da saúde para organizar a vacinação; deveria-se quebrar a patente das melhores vacinas para garantir a produção de milhões de doses a serem aplicadas pelo SUS; tanto aos trabalhadores desempregados, como aos pequeno-burgueses sem renda, deveria ser destinado um auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo (que deveria ser de, ao menos, R$5.500). Essas seriam algumas medidas emergenciais para contornar a crise e tirar o País do caos neoliberal imposto pelos golpistas.

Boteco fechado, escolas abertas

Um dos aspectos mais expressivos da farsa do isolamento social é a reabertura das escolas. No início da semana, o secretário estadual de Educação de São Paulo (a mando de Doria) declarou que, mesmo na fase vermelha, as escolas deveriam manter suas portas abertas para que os estudantes e professores contraiam o coronavírus nas salas de aula.

Os países europeus governados pela burguesia imperialista, como França, Alemanha e Reino Unido, fizeram a mesma coisa há tempos. Fica claro que trata-se de uma política imposta pelo grande capital financeiro, que tem objetivos econômicos por trás. As escolas abertas fazem com que milhões de estudantes movimentem o setor financeiro, o que leva ao funcionamento do transporte, dos bares, do comércio em geral, de todo o setor de serviços – sendo todas essas áreas reféns do capital financeiro, beneficiário final de seus negócios.

O fato de as escolas permanecerem abertas, portanto, inviabiliza qualquer espécie de isolamento social, qualquer medida como o lockdown ou a fase vermelha. Os golpistas, assim, demonstram que não objetivam a resolução da crise e a derrota do vírus, mas sim garantir exclusivamente os lucros dos capitalistas. Suas medidas inócuas são simples enrolação barata para encobrir a falta de políticas sanitárias e econômicas que protejam a população.

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