Último recurso da burguesia
A relativa baixa votação da extrema-direita em alguns países não significa que o fascismo não está avançando
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Polícia colombiana em ação | Foto: Luisa Gonzales/Reuters

Volta e meia, reaparece, no interior da intelectualidade pequeno-burguesa, a tese de que, no Brasil, haveria um fenômeno exclusivo — o “bolsonarismo” —, que teria, por razões inexplicáveis, conquistado a adesão ampla das massas.

Em artigo publicado no portal Jornalistas Livres, de título “A extrema direita só prospera no Brasil”, Moisés Mendes procura restabelecer essa tese, que já foi rebatida em inúmeras oportunidades por este Diário e pela própria experiência dos trabalhadores.

A principal conclusão apresentada por Moisés Mendes em seu texto é que Jair Bolsonaro, presidente ilegítimo do Brasil, teria tido um êxito muito superior em comparação à extrema-direita em outros países:

“Somos o único país em que medos, mentiras, ostentação de ignorância e os ressentimentos da classe média levaram ao poder uma família e seus generais amigos. Bolsonaro é a nossa jabuticaba bichada. Nenhum outro país tem um Bolsonaro, por mais que se esforce”.

De um ponto de vista factual, não é verdade que Bolsonaro é o único governante de extrema-direita no mundo. Basta, para isso, citar Donald Trump, nos Estados Unidos, e Boris Johnson, na Inglaterra. Em ambos os casos, os governantes têm, inclusive, traços psicológicos e de personalidade parecidos com o de Bolsonaro, embora isso seja absolutamente secundário para caracterizar alguém como pertencente à extrema-direita.

O autor poderia, em sua defesa, alegar que a comparação se dá apenas com os governantes da América do Sul. De fato, há um foco do texto neste subcontinente:

“Bolsonaro, seus garotos, suas milícias e seus generais são um fenômeno verde-amarelo, um caso único na América do Sul”.

Mesmo na América do Sul, contudo, Bolsonaro não é exceção alguma.

O governo de Iván Duque, na Colômbia, está travando, neste exato momento, uma verdadeira guerra contra todos os militantes e lideranças sociais, sindicais e campesinas. A polícia colombiana tem matado como nunca. Não há como ignorar que se trata de um típico governo de extrema-direita com características fascistas.

No Paraguai, também não resta dúvidas que há um presidente de extrema-direita: Mario Abdo Benítez é filho de um dos homens de confiança de Alfredo Stroessner e já disse em público que o ditador sanguinário “fez muito pelo país”.

A política desses governos, bem como a dos demais governos de direita no subcontinente, como o equatoriano e o chileno, é absolutamente o mesmo: reprimir duramente a população para impor o programa impopular do imperialismo na atual etapa de crise. Isto é, enfiar, goela abaixo, a política neoliberal.

Essa primeira confusão, de que o governo Bolsonaro seria mais fascista que os demais governos sul-americanos, é uma confusão comum que costuma levar a esquerda a uma política completamente equivocada. O que define um governo como de extrema-direita é sua relação com as classes sociais, o programa que ele defende e a forma como implementa esse programa, e não o caráter mais ou menos bizarro de determinado personagem. Caso contrário, uma política baseada nas aparências levaria a esquerda a apoiar o discípulo de Stroessner simplesmente por se portar de maneira mais “civilizada” em frente as câmeras.

Mas há uma segunda confusão no texto. A de que não só os governos de extrema-direita seriam “tão direitistas assim”, mas que também a extrema-direita nos demais países seria mais débil:

“Não há na Bolívia, no Chile, na Argentina e no Uruguai, para citar apenas esses (e sem precisar fazer referência ao bufão venezuelano Juan Guaidó) nenhum líder de extrema de direita com chances de chegar ao poder”.

Para justificar essa formulação, Moisés Mendes explora, caso a caso, a situação de cada país:

Bolívia

 “O candidato Luis Fernando Camacho, da Unidade Cívica Solidária (UCS) (…) pode ter ficado com apenas 14% dos votos, pelas projeções feitas até agora”.

Argentina

“Na Argentina, nas eleições do ano passado, dois representantes da extrema
direita também pagaram um mico dos grandes. O major Gómez Centurión, do Partido Conservador Popular (com 1,7% dos votos), e o economista José Luis Espert, do Unite (com 1,7%) (…).

Chile

“A cara do fascismo organizado é a do advogado José Antonio Kast, outro que foi mal na eleição de 2017, quando Sebastián Piñera retornou ao governo. Como candidato avulso, Kast teve apenas 7,9% dos votos”.

Uruguai

“O caso mais interessante hoje talvez seja o do Uruguai, onde o general e senador Guido Manini Rios concorreu no ano passado à presidência, pelo Cabildo Abierto, e teve 11% dos votos”.

O único argumento apresentado, portanto, é que a extrema-direita teria tido um fraco desempenho eleitoral nas eleições presidenciais. Isso, obviamente, não é suficiente para analisar o avanço do fascismo em um país.

Em nenhum país, a sociedade é dividida entre “direita”, “extrema-direita” e “esquerda”. A base eleitoral da extrema-direita é, em grande parte, a mesma base da direita. Tanto a direita quanto a extrema-direita são a antítese da esquerda e do movimento popular; por isso, são ambas duas faces de uma mesma política reacionária. Nesse sentido, podemos afirmar tranquilamente que, em todos esses locais, a votação da extrema-direita foi relativamente baixa — sem considerar as eleições para o parlamento — simplesmente porque a votação da direita foi alta.

E qual o significado de uma alta votação da direita “tradicional”? Ora, que ela conseguiu manter sua influência sobre o país. Isto é, que, apesar de toda a sua impopularidade, a direita ainda consegue manter um certo controle. Dito de outro modo, que a mobilização dos trabalhadores ainda não foi suficiente para liquidar o antigo regime político. É preciso alertar, contudo, que na medida em que a polarização política aumenta, a direita vai sendo obrigada a formar uma coalizão com a extrema-direita. No Uruguai, no Chile e em um eventual governo de Carlos Mesa na Bolívia, a extrema-direita tem ou terá um papel significativo.

Se a extrema-direita ainda não aparece como um fator protagonista na situação, isso quer dizer, portanto, que a polarização política ainda não é suficientemente intensa. E que, portanto, a esquerda está mais integrada ao regime. Não há nada o que comemorar nesse caso.

No Brasil, a extrema-direita aparece encabeçando um governo justamente porque a luta política travada no País atingiu um patamar mais elevado. A luta contra o golpe de Estado levou à falência todos os partidos da direita “tradicional” — MDB, DEM, PSDB e seus satélites transformaram-se em cadáveres eleitorais. E é por isso que a burguesia procurou migrar os votos da direita para a extrema-direita: Bolsonaro surgiu como única figura capaz de derrotar eleitoralmente a esquerda. Ainda que por meio de uma sucessão de fraudes.

Conforme discutido neste artigo, o surgimento da extrema-direita no primeiro plano da política mundial não é uma obra do acaso. A extrema-direita não veio “do nada”, mas sim da profunda crise e da desmoralização em que a política oficial da burguesia se encontra. Nesse sentido, a extrema-direita está sendo utilizada, financiada e impulsionada pela própria burguesia para impedir que a esquerda fature em cima da falência da direita “tradicional”.

Não é do interesse da burguesia entregar, em um primeiro momento, o poder político à extrema-direita. Afinal, a extrema-direita tem uma política mais difícil de controlar e que pode acabar acentuando a polarização política, levando os trabalhadores a porem o regime abaixo de vez. É por isso que há uma tentativa de controlar o governo Bolsonaro, no Brasil, uma tentativa de diminuir a influência de figuras como Marine Le Pen, na França, e Matteo Salvini, na Itália. É por isso, inclusive, que a burguesia foi obrigada a fraudar várias eleições para impedir que a extrema-direita derrotasse os candidatos mais tradicionais. No entanto, a burguesia é incapaz de liquidar a extrema-direita, pois o fascismo é um recurso dos capitalistas para a luta contra os trabalhadores.

A crise capitalista, que iniciou uma nova etapa de aprofundamento em 2008, vai se intensificar ainda muito mais. Nem mesmo os mais otimistas economistas burgueses conseguem enxergar alguma perspectiva próxima de solução para a crise. Assim, só se pode esperar um aumento dos ataques contra os trabalhadores e, portanto, um aumento da revolta contra o regime. Como consequência, um aumento da repressão e uma desmoralização ainda maior dos partidos da direita e dos partidos de esquerda que colaborarem com o regime. Se a tendência da crise econômica é piorar ainda mais, a conclusão óbvia é de que a extrema-direita irá se impor cada vez mais como único recurso cabível à classe dominante.

O fascismo é uma ameaça cada vez mais presente em todo o mundo. A tese de que o “bolsonarismo” seria uma peculiaridade brasileira serve apenas para desarmar os trabalhadores de uma luta contra a extrema-direita. Se o “bolsonarismo” é um fenômeno unicamente brasileiro, bastaria, por exemplo, imitar o desmoralizante exemplo da social-democracia europeia, que, ao invés de se mobilizar contra o regime, decidiu colaborar com este.

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