Alemanha
Se a polícia é abolida, mas o capitalismo não: o que aconteceria com todas as pessoas que trabalham na polícia hoje?
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Polícia alemã, tão fascista como em qualquer outro estado capitalista | Foto: Can Pac Swire

O Diário Causa Operária traduz e reproduz artigo da colunista Hengameh Yaghoobifarah, no jornal alemão Tageszeitung, denunciando o caráter fascista da polícia. Por escrever, em sua coluna, que a polícia após ser extinta deveria ser jogada em uma lata de lixo, Yaghoobifarah foi ameaçada pelo ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, em junho, de processo criminal por calúnia e incitação à violência. Além disso, os sindicatos de policiais do país processaram o jornal, também conhecido pela abreviatura TAZ.

Trata-se, como fica claro, de um ataque perigoso à liberdade de expressão em um país cuja propaganda imperialista mostra como um dos modelos de democracia e liberdade em todo o mundo. Abaixo, o artigo:

Desde as reivindicações pela dissolução formal da polícia em Minneapolis até o anúncio de sua reforma em Nova Iorque, ocorridos após os protestos internacionais “Vidas Negras Importam” (Black Lives Matter), tem ficado difícil para se justificar a existência da polícia, também na Alemanha.

Uma primeira consequência disto é, por exemplo, a Lei Estadual de Anti-Discriminação (LADG), aprovada pela Câmara dos Deputados de Berlim. Algumas pessoas sonham com um futuro sem uma força policial. Mas o questionamento de como seria uma coisas dessas e se poderia funcionar, já vem de antes do assassinato do afro-americano George Floyd.

Eu, por outro lado, me pergunto: se a polícia for abolida, mas o capitalismo não, em que setores os ex-policiais poderiam ser aproveitados (como mão de obra – N.T)? Afinal, a proporção da existência de personalidades autoritárias e de uma mentalidade fascista está acima da média neste grupo profissional. Ou alguém já ouviu falar de uma rede terrorista infiltrada em panificadoras? Pois eu jamais ouvi isso!

Então, o que fazer com as mais de 250.000 pessoas que ficarão sem emprego? Colocá-las simplesmente em outro tipo de trabalho, porque isso teria funcionado tão bem depois de 1945? Negativo. Mas quais áreas profissionais seriam adequadas? Nenhuma posição de poder para ex-policiais / Nenhum posto de comando para ex-policiais.

Menos ainda no setor de assistência social! O problema não estaria resolvido ao trocar-se um uniforme policial por Birkentocks (ou Crocs) e uma calça de linho. Seja lá em repartições públicas, professores, na Justiça, na política, na área de saúde ou na área de segurança – fica estritamente fora de questão qualquer posição que exerça algum poder sobre outras pessoas. A rigor, não se deveria deixá-los nem chegar perto de animais. Por favor, não eduquem mais crianças (Por favor, fiquem longe da profissão de educadores infantis!)

Também no setor de serviços, a situação não parece mais fácil. Carteiro? De jeito nenhum! Se pode encaixar uma carta-bomba entre uma entrega de livros e uma encomenda de sapatos. Qualquer coisa que envolva o corpo humano – tais como tatuagens ou cabeleireiros – também é muito arriscado. Eu nem sequer os deixaria fazer-me a pedicure. Uma lixa de unha nas suas mãos pode virar uma arma!

Também fora de questão as lojas de materiais de construção, postos de gasolina ou oficinas mecânicas. Na verdade, nada onde se possa construir bombas ou dispositivos incendiários. Também é melhor evitar a área técnica, como também a gastronomia devido ao perigo de envenenamento. A área cultural, incluindo livrarias e cinemas, cai por terra. Lá eles poderiam incutir sua ideologia na programação. E os centros de jardinagem? Hum. Muito perto da mentalidade e ideologia rural.

Agricultura orgânica? Nem sequer precisamos mencionar, pois este setor está tomado por neonazis. E se os deixasse apenas pintar cerâmica? Não. Demasiado óbvio que produziriam serviços de chá com suástica pintada à mão e utilizariam os rendimentos para financiar a próxima rede terrorista.

Espontaneamente, só me ocorre uma opção adequada: depósito de lixo. Não como lixeiros com chaves de casas, mas na montanha de lixo onde estariam realmente cercados de dejetos, entre os seus iguais, eles certamente se sentem mais à vontade.

Nota do editor, sexta-feira, 19 de junho

Nota do editor, segunda-feira, 22 de junho: O Ministro do Interior Horst Seehofer anunciou que iria registrar uma queixa contra a nossa colunista. Aqui, o advogado do TAZ Johannes Eisenberg, que representa a colunista do TAZ * em Hengameh Yaghoobifarah nesta questão, avalia o anúncio do ministro.

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