Exclusivo: Edinho Silva, ex-ministro de Dilma, denuncia perseguição: golpistas querem “dizimar” a esquerda

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O Diário Causa Operária Online e o Comitê de Luta Contra o Golpe de Araraquara (SP) entrevistaram, no último dia 03, o prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT). Ele, que foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (2015-2016) no governo Dilma Rousseff e, antes disso, havia sido tesoureiro da campanha da ex-presidenta em 2014.

Ele vem sendo perseguido pela direita e o Judiciário, em um processo abertamente fraudulento para tentar derrubá-lo da prefeitura da cidade e como pano de fundo para atingir Dilma. Nesta entrevista exclusiva, Edinho fala sobre sua perseguição e diz que ela está diretamente ligada à perseguição a toda a esquerda nacional.

Conte-nos um pouco sobre os ataques que você vem sofrendo por parte dos golpistas (PF, PGR, Lava Jato)?

Primeiro eu penso que as instituições brasileiras elas vivem um momento que pra nós que defendemos a democracia é um momento muito difícil. É nítido que tem uma contaminação política em instituições que deveriam zelar pela concepção que se tem, mesmo a concepção mais tradicional que você tem de democracia que é o zelo pelo estado democrático de direito, o respeito pelo princípio do contraditório, que é a concepção mais formal que se tem, nem estamos falando aqui de nós radicalizarmos o princípio da democracia, mesmo essa concepção formal ela tem sido atacada e penso que no meu caso tem uma interpretação pautada em pesos e duas medidas. Se for pensar o papel que eu tive na campanha da presidenta Dilma, que foi o papel de coordenador financeiro, ele é um papel muito limitado no tempo. Ele se inicia em meados de 2014 e se encerra em novembro de 2014. Então ele está restrito a uma atuação eleitoral. Como pode situações semelhantes hoje estarem sendo investigadas na justiça eleitoral e o meu caso é investigado pela justiça criminal? Então, só aí eu penso que tem uma interpretação equivocada, se nós olharmos são vários casos que o poder judiciário decidiu que deveria ir para a justiça eleitoral, o meu não, o meu foi para a justiça criminal, então isso me gera uma indignação imensa e uma indignação que eu tento transportar para a capacidade de resistência e para a capacidade de luta porque eu sei que quem está sendo atacado não sou eu, quem está sendo atacado é alguém que cumpriu um papel de direção numa campanha eleitoral e que, para que a presidenta Dilma seja atingida, efetivamente eu tenho que ser atingido, porque o procurador financeiro da campanha dela fui eu, então eu tenho muita clareza e estou muito preparado para esse enfrentamento.

Me gerou mais indignação ainda eu ter sido vítima de uma operação de busca e apreensão na minha casa, atrás de documentos das eleições de 2014, ou seja, mais de quatro anos depois do final das eleições, uma operação que busque documentos de um período de quatro anos anteriores, isso me gerou muita estranheza, a minha defesa não teve acesso ao processo, mesmo as informações que a minha advogada conseguiu são informações de quem de alguma forma teve acesso aos autos, eu não sou sequer mencionado no inquérito, e como pode alguém que não é mencionado no inquérito numa operação que, inclusive, não tem nada a ver com o PT, como pode alguém que não é mencionado no inquérito ser objeto de busca e apreensão? Então são muitas questões que na minha avaliação demonstram que alguma coisa importante está errada mesmo, como eu já disse, na concepção da forma mais formal da concepção de democracia, que é o principio do contraditório, que é a defesa do estado democrático, que é você ter o benefício da dúvida que são questões da democracia formal que estão sendo desrespeitadas.

A direita, que controla a Câmara Municipal, também quer te derrubar por meio de impeachment. Você não acha que isso é um golpe e está ligado a essa perseguição que acabou de relatar?

Eu penso assim, esse é um tema que ele não aparece publicamente na Câmara, ele aparece muito mais nesses setores de direita emergente da política brasileira que são supostos movimentos de direita ancorados em partidos que, inclusive, alguns nem tem representação na câmara. O que eu penso, nós estamos vivendo um momento do período histórico em que todo tipo de ataque possa existir e o que vai frear esses ataques ou não é a capacidade de organização, a capacidade de resistência, a capacidade de luta. Então, nesse sentido, tudo aquilo que é luta política eu estou muito preparado eu só acho que que ninguém está preparado quando o estado, o aparelho de estado se torna instrumento de interesses políticos, aí não tem como você estar preparado, porque você legitima ações dentro daquilo que é um aparato formal do estado brasileiro, isso legitima ações que em qualquer outro momento não seriam legitimadas. Para isso acho que é muito difícil qualquer dirigente político estar preparado, agora para a luta política, para o embate político, para a capacidade de mobilização, para o enfrentamento da sociedade, isso não me assusta não. Isso eu estou muito tranquilo e acho que a gente tem muita força em Araraquara para resistir.

A perseguição contra você, na sua avaliação, faz parte de uma perseguição mais ampla contra o PT e a esquerda de forma geral?

O que eu penso é que a história há de decantar muita coisa. Acho que muita coisa que está acontecendo hoje só o processo histórico pode decantar. Porque hoje nesse massacre que nós estamos vivendo é muito difícil a opinião pública perceber efetivamente o que é legal, o que não é legal, o que é legítimo, o que não é legítimo, o que é fato, o que não é fato, a gente cai num grau de enfrentamento em que a sociedade ficou muito confusa. Eu não sou daquele que julga a sociedade não, eu penso que a gente… a pior reação que pode ter pra nós é você entender que a sociedade é sua adversária, a sociedade não é sua adversária, a sociedade está em disputa e ela estará no nosso campo ou não estará no nosso campo dependendo do nosso entendimento desse momento, da nossa capacidade de mobilização, da nossa capacidade de compreensão.

A pior coisa que pode existir nesse momento é a gente achar que a sociedade é nossa adversária, acho que esse seria um erro básico, um erro crasso que nos levaria efetivamente para o abismo. Então o que existe hoje na sociedade é uma grande articulação para a derrota da esquerda, eu não tenho nenhuma dúvida. E é algo brasileiro? Não. Nós estamos vendo que é um movimento internacional. Se a gente pegar, por exemplo, as eleições agora na Europa, nos principais países europeus, nós vamos ver que a retomada da direita agora é algo impressionante, e isso passa por movimentos que vêm do começo do século XXI, primeiro o movimento da globalização, a globalização da economia ela criou contradições nessa concepção de estado nação, nessa concepção do que é território, do que não é território, do que é nação, do que não é nação, você diluiu uma concepção do estado nação.

Você tem uma crise do capitalismo que se arrasta desde 2008, muitos achavam que essa crise tinha sido superada, não, nós estamos vendo agora a economia entrando de novo em parafuso, portanto se nós formos pegar aquela concepção de crise longa e crise curta do capitalismo, nós estamos numa crise longa do capitalismo. Então você tem globalização, diluição do estado nação, você tem aprofundamento da pobreza, da miséria, do desemprego, e qual é a reação que se tem? A reação é a volta de uma concepção de nacionalismo, de defesa do que é meu, da cidade, porque moro na cidade, do estado pra quem é do estado, do país, pra quem é do país, com isso você cria uma concepção de neofascismo, uma concepção muito conservadora, contra os fluxos migratórios, contra os imigrantes, e quem embarca nesse discurso, e é um discurso tipicamente da direita, cresce na sociedade. No Brasil o que que nós vimos? Ao invés de nós debatermos a origem da pobreza no Brasil, da exclusão social, da concentração, nós estamos debatendo as medidas de enfrentamento à criminalidade, como se a criminalidade você resolvesse ela só pelo endurecimento da violência do estado, se a gente deixa de entender, como pode um país de miseráveis, de pobres, de excluídos? Esse é o principal instrumento do crescimento da violência, da criminalidade.

Então ao invés de nós discutirmos as políticas de inclusão social, nós estamos discutindo como é que a gente arma a sociedade, como que a gente endurece na legislação, como que a gente prende mais, enfim, então eu penso que todo esse momento que nós estamos vivendo, de empobrecimento do mundo e de concentração de riqueza do mundo, e o Brasil não é uma ilha, isso também acontece no Brasil, faz com que o discurso da direita seja retomado numa ofensiva muito grande. E o Brasil não é diferente, então hoje existe uma retomada da direita, um enfrentamento aos princípios da esquerda, tudo aquilo que a esquerda historicamente sempre defendeu, portanto nós estamos vivendo um momento de defensiva muito grande da esquerda e essa ofensiva da direita é para nos aniquilar, porque se a esquerda tiver capacidade de reação e de organização, os direitos dos trabalhadores não serão arrancados, nós vamos ter condições de defender os direitos dos excluídos, nós não vamos permitir que os excluídos se tornem mais excluídos ainda, nós não vamos legitimar a violência, nós não vamos legitimar a homofobia, o machismo, o racismo, ou seja, nós vamos ter condições de reagir a essa ofensiva da direita, portanto, o aniquilamento da esquerda significa criar as condições para que efetivamente, o capital que está em crise, garanta sua reprodução tirando direitos dos trabalhadores, então é isso, sem ser simplista, é isso que está em disputa, é isso que está em jogo, no Brasil e no mundo.

Sobre a capacidade de reação, nós do PCO vemos que parte da esquerda faz uma leitura equivocada do resultado eleitoral, primeiro que não se considera que Lula não concorreu.

É, ele começou a ganhar a eleição quando impediram que o Lula disputasse, ali foi o primeiro passo para que ele e qualquer um que representasse os interesses conservadores ganhasse a eleição.

Estava 39% a 19% na última pesquisa, e dá a impressão que, com essa leitura, a população do país tenha se tornado fascista, o que é um equívoco, o que houve então nessa eleição para se chegar a esse resultado?

A população votou em um programa que ela achou que nesse momento representasse os interesses dela, ou os interesses foram… porque é interessante que você coloque, eu acho que isso para nós é um imenso desafio para a esquerda, eu fico, enfim, eu tenho que conter a minha reação quando eu vejo gente do nosso campo julgando a sociedade. Vou repetir, eu acho que o pior erro que a esquerda pode cometer nesse momento é se voltar contra sociedade.

Nós estamos vivendo um momento empobrecimento, de desemprego, de aumento da violência, é inegável o aumento da violência, a gente não pode negar. Seria um erro a gente negar que a violência tem aumentado, ela tem aumentado, o problema é por que que ela aumenta? Essa é a grande questão. Você pode pegar, toda vez que o desemprego aumenta os furtos aumentam. Outro dia eu fui visitar os Oitis aqui, que é uma região muito pobre de Araraquara, uma senhora veio falar pra mim e é verdade, ela falou, “tá vendo esses meninos que estão vendendo droga aí? Se você por uma mesa aí ofertando emprego para eles, a maior parte vai trabalhar. Sabe por que que eles estão aqui vendendo droga? Porque é o jeito que eles têm para levar 100, 120, 150 reais para casa todo dia”. Então se a gente for lá oferecer emprego todos vão querer emprego? Talvez não, mas talvez sim é só a gente ir lá ofertar emprego que nós vamos saber. Então muitas vezes a criminalidade, não estou dizendo que isso, não estou legitimando a criminalidade, eu só estou dizendo que nós só vamos entender o aumento da violência e da criminalidade se nós entendermos o processo de exclusão social, a pobreza, a miséria, ou seja, as pessoas não morrem de fome pacificamente é isso que a gente tem que entender.

A resistência à fome é algo que está intrínseco à história da humanidade, ninguém senta aqui para morrer de fome, as pessoas vão reagir à fome de alguma forma né? E muitas vezes elas vão para o furto, elas vão para a criminalidade. Então, o primeiro instrumento para combater a violência é combater a exclusão social, mas como é que a gente diz isso pra sociedade? Não é brigando com ela, é a gente tendo inteligência e sabedoria para disputar a sociedade com a direita. Se você brigar com a sociedade você está empurrando-a pra direita, você não está disputando-a, você está empurrando ela para os braços da direita, porque você tem que despertar nela os valores da esquerda, os valores do humanismo, da solidariedade, são valores da esquerda. Os valores da esquerda são valores antagônicos aos do mercado, aos da competição, aos do que quem pode mais chora menos, cada um para vencer tem que pisar na cabeça do outro, então estes são os valores do mercado, os nossos valores são outros. Nós temos que ganhar a sociedade para esses valores, mas não é empurrando a sociedade para os braços da direita que nós vamos fazer isso.

Sobre a questão das instituições, o judiciário em particular tem se mostrado imparcial, nossa crítica ao judiciário é que é o único poder que não é eleito pelo povo, é o menos democrático dos três poderes, e tem sido bem imparcial, sempre pendendo para a direita. Você poderia comentar sobre o assunto?

É um pouco o que eu falei na minha primeira resposta, o que eu penso é o seguinte, nós temos as instituições do Estado brasileiro, nós construímos principalmente no último período, da redemocratização do Brasil, se a gente pensar que é algo muito recente, nós construímos uma concepção que quem defende os princípios da democracia e a Democracia formal o princípio básico dela qual é? É o Estado Democrático de Direito, o Estado Democrático de Direito, eu não sou jurista, mas ele tem alguns pilares básicos. Primeiro, o princípio do contraditório, se você me acusa de alguma coisa tem pelo menos o direito de contradizer você. E tinha algo tinha algo que era fundamental que era a presunção da inocência. Se alguém é acusado, a princípio é inocente. Nós estamos vivendo uma coisa tão absurda no Brasil que assim, você está na política, você já é suspeito. Não interessa o que você fez, não interessa efetivamente qual é a atuação, você está na política você já é suspeito, ou seja nós estamos destruindo os pilares da democracia, e não é a concepção de democracia, por exemplo, eu defendo o orçamento participativo que é a democracia direta, que é a sociedade discutir o orçamento, que é a sociedade discutir os investimentos, essa é uma concepção de democracia que seria a radicalização da Democracia, os conceitos das políticas públicas fiscalizar, eu não estou nem discutindo essa concepção de democracia eu, estou discutindo a concepção formal de democracia.

Quando as instituições elas se contaminam, eu não acho que seja todas instituições na sua integralidade, nem todos os poderes até porque a gente estaria generalizando da mesma forma que eles fazem com a gente. Agora, é evidente que tem setores das instituições brasileiras que estão extremamente contaminados, isso é inegável, eu pego um exemplo meu, eu fui coordenador financeiro de uma campanha, tá bom, eu agi num período da história que diz respeito às eleições, os meus inquéritos não são eleitorais. E outras lideranças políticas, de outros partidos, que tiveram atuações semelhantes à minha, o que eles estão respondendo está na justiça eleitoral, então, para mim, tem dois pesos e duas medidas. Eu não posso achar que isso é normal, porque não pode ser normal, mas então é porque eu sou do PT? Porque eu sou do PT a medida que me mede é diferente da dos outros partidos? O que eu penso, historicamente, nós estamos vivendo um período muito contaminado, de muito ódio, de muita intolerância e tal, mas historicamente isso não há de permanecer, não tem como permanecer.

Sobre a prisão do presidente Lula, o que você poderia comentar? Qual sua impressão?

Eu nem vou falar aqui enquanto alguém que tem pelo presidente Lula o carinho e o respeito que todos sabem que eu tenho, vou falar a leitura dos juristas, seja os juristas nacionais, seja os juristas internacionais, seja a ONU na última manifestação dela, ou seja, do ponto de vista jurídico todos dizem que é muito frágil. Aquilo que foi usado para encarcerar o presidente Lula é muito frágil. Em qualquer outra situação de normalidade no Brasil ninguém seria preso pelas acusações que o presidente Lula sofreu, evidente que, repito, a questão é que quando a gente escreve a história a gente não tem noção de que a está escrevendo a história. A história que está sendo escrita em relação ao presidente Lula, aqueles que jogaram todas as fichas nisso, eu não sei se essa vai ser a síntese, eu acredito que não, porque o que transparece e que talvez a história há de fazer como leitura é que todo objetivo era impedir que o presidente Lula concorresse às eleições porque se ele concorresse às eleições dificilmente ele seria derrotado. E se o presidente Lula ganhasse as eleições, certamente aquilo que os trabalhadores vão passar no próximo período eles não passariam, ou seja, para criar um desiquilíbrio entre capital e trabalho esse desequilíbrio só seria possível se o presidente Lula estivesse fora da presidência da república, porque com ele na presidência da república esse desequilíbrio não existiria, e hoje, o que eu vejo para o futuro é uma fragilização muito grande dos trabalhadores, inclusive na resistência do que vem aí, da retirada de direitos, ou seja, se alguém vai pagar o preço da crise do capital internacional, quem pagará esse preço serão os trabalhadores.

Diante de toda essa crise institucional que temos assistido, você tem alguma expectativa com relação ao futuro do Lula?

Eu fiz uma carta ao presidente Lula antes das eleições e eu dizia a ele que a minha leitura era que só tem um movimento capaz de tirar o presidente Lula do cárcere hoje, é um movimento muito mais amplo que o PT e que a própria esquerda, tem que ser um movimento dos democratas e com muita pressão internacional, se não for isso dificilmente o presidente Lula sai da cadeia, eu acho que eu e muita gente achava que ele seria preso, existiria uma fotografia da prisão dele, o que seria uma coisa muito forte do ponto de vista da imagem dele, que isso iria fragilizá-lo e que essa fragilização cumpriria um papel e depois o judiciário o libertaria. O que aconteceu? Ele preso as pesquisas eleitorais colocavam ele na frente, então evidente que a partir desse cenário a prisão dele se tornou uma prisão de longo prazo, é isso que está colocado, até porque o presidente Lula nas ruas cria um movimento de resistência ao que vem pela frente, então eu não acredito que a prisão do presidente Lula e de tantos outros líderes dos trabalhadores se dará de forma simples e num curto prazo, a não ser que haja um movimento bem mais amplo que aglutine os democratas, que aglutine a esquerda e que tenha muita pressão internacional. O problema é que hoje, pós eleição eu não sei se isso vai perdurar, mas pós eleição a esquerda está dividida, o campo democrático está dividido. Então tem que esperar o início do governo Bolsonaro para saber se o próprio governo Bolsonaro e a agenda do governo Bolsonaro será capaz de reunificar a esquerda e o campo democrático. Essa reunificação pode começar a criar um caldo de cultura para que o presidente Lula seja solto, agora sem pressão internacional acho muito difícil.

Na semana passada houve uma nova empreitada da justiça contra lideranças do PT como Dilma e Gleisi, você vê algum perigo para essas lideranças? Risco de prisão, ou levar o próprio partido para a ilegalidade?

Eu tenho a mesma leitura, acho que a ofensiva contra as lideranças do PT, essa ofensiva será muito forte e a gente tem que se preparar pra isso. Quem achava que a eleição do Bolsonaro, a prisão do Lula iria arrefecer a ofensiva, se enganou muito, ao contrário, a tendência é de que haja uma ofensiva para dizimar as principais lideranças da esquerda brasileira e isso passa por dizimar as lideranças do PT então o cenário é de ofensiva brutal e penso que se tiver condição, ou condições criadas, eles vão pedir a improbidade do partido. Pedir a improbidade do partido, eu não sou advogado, mas do ponto de vista jurídico é a primeira medida para você pedir a cassação da legenda. Então eu vejo um cenário de muita luta para o próximo período e de ofensiva sobre as lideranças do PT e da esquerda e dos movimentos sociais. A criminalização dos movimentos sociais será brutal, nós já estamos vendo aí o discurso pró lei antiterrorismo, o que vão enfiar dentro dessa lei de terrorismo nós vamos ficar assustados de ver, nós vamos ver muita gente do campo democrático popular sendo presa em nome da garantia da ordem e da segurança pública.

E nessa questão de estratégia, Araraquara é uma cidade muito importante para o partido, correto? Qual é, de fato a importância do PT administrar Araraquara?

Seria a importância porque hoje Araraquara dá muita visibilidade ao PT, e aqui nós ainda resistimos às bandeiras mais caras do movimento da esquerda no último período que é o orçamento participativo, que é enfrentar a ofensiva homofóbica, que é enfrentar esse discurso racista, fascista, machista, então aqui acaba sendo quase que uma trincheira, agora isso também significa que a ofensiva sobre nós vai ser muito grande, e é esse o espírito que tem que nos nortear, a gente tem que saber o tamanho da ofensiva que nós vamos sofrer até para a gente poder ter noção da nossa capacidade de organização e de resistência, mas a ofensiva sobre nós será muito grande. Não há porque isso que nós estamos vendo aí permitir que o PT governe uma cidade como Araraquara, não faz sentido, é contraditório com tudo isso que nós conversamos até agora, então é isso que a gente tem que entender. E tem que se amedrontar? Não, tem que se preparar para o enfrentamento, para a resistência e tem que fazer isso com muita inteligência também. Repito, nós só vamos resistir a esse momento que nós estamos vivendo se crescermos junto à sociedade, se nós formos para o isolamento nós seremos presas fáceis, nós só resistiremos se a gente aumentar muito nossa capacidade de ter respaldo da sociedade, esse acho que é o movimento mais inteligente que nós vamos fazer nesse momento. Se a gente for pro gueto, no gueto eles nos matam e ninguém nem fica sabendo.

Na semana passada o presidente Lula escreveu uma carta para a reunião do diretório do PT, qual sua opinião sobre ela?

Eu acho que como sempre é uma carta que faz uma leitura correta da conjuntura, coloca ali os principais desafios, repito, o maior desafio que nós temos hoje, é isso que a gente tem que entender, diferente de outros momentos da nossa história a gente tem que enxergar muito mais o que nos une do que o que nos divide, porque nós não estamos vivendo uma disputa conjuntural, nós estamos vivendo uma disputa de médio e de longo prazo, não é conjuntural de uma eleição, é um erro a gente pensar isso. E se a gente voltar a outros momentos da história brasileira, a esquerda se fragmentou, se dividiu e se tornou uma adversário fragilizado, então eu acho que nesse momento nós temos que enxergar muito menos o que nos divide e muito mais o que nos une e ter uma capacidade de ampliação na sociedade muito grande, capacidade inclusive de ganhar mentes e corações, saber como é que a gente traduz hoje na sociedade os sentimentos da esquerda, porque a sociedade tem que entender o que a gente quer dizer, não é nós termos, nós teremos que fazer com que a sociedade entenda o que nós queremos falar. Então nesse momento a nossa capacidade de diálogo com a sociedade é muito importante, esse é o desafio central e resistir, resistir, resistir e não permitir que a fragmentação nos aniquile, nós não podemos, nós temos que ter uma capacidade de unidade muito grande nesse momento.

Para finalizar, você teria algum recado para deixar para a militância ou para a população de forma geral?

Primeiro quero dar os parabéns a vocês, eu acho que vocês tem cumprido um papel muito importante nesse processo todo, de uma clareza muito grande, porque é um partido de esquerda nos moldes do PCO e eu tenho muito respeito pelo trabalho de vocês, e acho que é isso, acho que nós temos que entender o momento histórico que nós estamos vivendo, nos unificarmos e ganharmos setores da sociedade para que a gente possa vencer a disputa que está colocada.