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Conjunto Residencial dos Estudantes da Cidade Universitária está totalmente sucateado; ao invés de fazer melhorias no Crusp, reitoria da USP impõe repressão através da PM
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Conjunto Residencial da USP (Crusp), na Cidade Universitária (Campus Butantã) | Foto: Jorge Maruta/Jornal da USP

As condições do Conjunto Residencial dos estudantes da USP – Butantã (Crusp) vêm piorando ano após ano. Porém com o início do ano de 2020, as condições se tornaram ainda piores. Como é recorrente, a direita utilizou da pandemia contra a juventude para intensificar os ataques no Crusp e na USP em geral. Neste sentido, os ataques são inúmeros e diversos.

Teto do banheiro de um dos apartamentos do conjunto residencial

O Conjunto se tornou um lugar inabitável e que oferece riscos reais a todos os seus moradores. No início do ano, a dedetização dos prédios não foi feita, o que infestou de pragas os apartamentos e corredores. Outras manutenções como a manutenção das estruturas e fundações também não foram feitas. Dentro e fora das residências as manutenções hidráulicas e elétricas não são feitas há anos, considerando o estado e a frequência que observamos fios e cabos expostos e vazamentos. A maioria das paredes e tetos está embolorada, alguns cedendo.

A desculpa da reitoria é de que os moradores se recusaram a permitir as reformas. Uma desculpa, logicamente, muito esfarrapada. Os estudantes que moram no Crusp são os principais interessados na melhora das suas próprias condições de moradia.

As luzes dos ambientes públicos, corredores e apartamentos quase não funcionam, não é raro ver um ambiente ou corredor iluminado por uma única lâmpada. Os espaços públicos dos prédios que têm uso cotidiano como as cozinhas e lavanderias estão desmontados e quebrados. Só há dois blocos com lavanderias improvisadas pelos próprios moradores que, cansados de não terem atendidas suas reclamações com a Secretária de Assistência Social (SAS), órgão subordinado à reitoria, precisaram dispor do próprio bolso o dinheiro para lavarem suas roupas. Quanto às cozinhas, nenhuma é de fato funcional. O gás e as mangueiras foram retiradas por “motivos de segurança”, uma clara medida de contenção, a manutenção das cozinhas coletivas parece não ser feita há muitos anos e a limpeza há meses.

O Comitê de Luta Estudantil é uma organização independente que busca ser uma frente única de ação da juventude contra o Golpe de Estado de 2016 e seus efeitos no movimento estudantil. O comitê faz atividades semanais de panfletagem nos blocos do Crusp em contato direto com os moradores que relatam suas situações e são convidados a se organizar na luta pelas suas reivindicações imediatas e do movimento estudantil de forma geral.

Cozinhas do Bloco G do Crusp estão cheia de lixo, sem fogões e sem iluminação

Uma moradora do conjunto residencial informou ao Comitê que os seguranças habituais que garantiam o controle da entrada dos prédios foram substituídos por guardas fardados, de bota e tudo. Para completar o esquema de repressão dentro e fora dos blocos, na pandemia surgiu o projeto da base fixa da PM ao lado do Conjunto. Estes fatos foram também constatados em visita ao Crusp no último sábado (19).

É preciso ressaltar que o relato dos estudantes que moram lá contrasta com a “justificativa” para a implantação de tanto aparato repressivo. Segundo os moradores, durante à noite os apartamentos estão sendo violados, independentemente da presença dos guardas ou da PM. Apesar da aparente segurança, não há nenhuma contradição. Estamos em uma grande crise econômica e furtos e roubos são comuns na atual situação. O objetivo dos soldados que invadiram o campus da USP nunca foi o de assegurar os estudantes e seus pertences, mas sim o de reprimir o movimento estudantil onde ele é mais forte no País, dentro da USP. Não é à toa que o primeiro ataque fascista dentro de uma grande universidade aconteceu justamente na USP.

Outra moradora afirmou que a reitoria planeja implementar um sistema de câmeras para monitorar tudo. Com isso, está implementado também um esquema abertamente nazista na USP, de vigilância sistemática do passo a passo dos estudantes. Juntamente com este relato de espionagem está o relato de uma moradora que denuncia a repressão da polícia contra moradores dentro dos blocos. Diz ela que “um estudante estava dormindo na cozinha do quarto andar quando foi surpreendido pela PM mandando-o sair, o policial obrigou ele a sair, jogar suas roupas pela janela e em seguida ameaçou jogá-lo pela janela”.

Em novembro, a Polícia Militar inaugurou uma base fixa muito próxima do Crusp

Evento privado e ataque aos moradores

Entre os dias 19 e 24 de novembro, foi realizado o Boat Show em São Paulo, no espaço da raia olímpica da USP. O evento foi realizado sem a autorização dos estudantes, sem consulta, sem nada e revoltou os moradores do Crusp que prontamente organizaram um ato de protesto. A repressão policial foi intensa e indiscriminada, o que fez com que no dia 23 o DCE Livre da USP chamasse um ato contra o evento e por melhorias no Crusp.

O ato foi chamado às pressas, não foi convocado, e portanto, não teve muita adesão. Na prática, o DCE dividiu o movimento e desorganizou os estudantes moradores que tinham organizado sua luta de livre iniciativa. Além disso, com a derrota planejada nas ruas, o DCE Livre da USP decidiu por “combater” pelas instâncias burocráticas. No caso, a Comissão de Direitos Humanos da USP que é parte da Instituição que, como sabemos, foi a mesma que implementou os ataques contra os estudantes e funcionários da USP. Uma verdadeira aliança com a burocracia e com a direita de João Doria.

Isto é especialmente preocupante quando os moradores relatam tamanha ostensividade por parte da PM na USP.

Um morador denunciou a violência da polícia dentro da Cidade Universitária, desta vez fora dos blocos. Segundo ele, “um amigo meu saiu em um dia do Boat Show, ele não estava protestando, mas mesmo assim foi agredido pela PM”. Isto demonstra que a existência da polícia na USP e da violência policial só serve para repressão dos estudantes, especialmente quando se encontram organizados para protestar e lutar contra os ataques da direita dentro do campus. Os estudantes que protestaram foram atingidos por cassetetes, bombas de efeito moral e gás lacrimogênio e de pimenta.

A inoperância do DCE

Esta não foi a primeira vez que o DCE Livre da USP, da Gestão Nossa Voz comandada pela ala direita do PT com apoio do PSOL e do PCB, demonstra claramente seu alinhamento com a burocracia e com a direita de Doria. No dia 29 de setembro, foram convocados pela Direção do DCE o reitor da universidade, Vahan Agopyan, e a deputada estadual Maria Izabel Noronha (Bebel), atual presidente da APEOESP, para uma mesa virtual com o tema “PL 529/2020 e os impactos na universidade pública”. Em primeiro lugar, os alunos não foram convocados para a discussão de um tema tão amplo e que levou a juventude a se mobilizar nas ruas. Também, o reitor, aquele que promoveu os ataques contra a educação na USP, foi convidado para se pronunciar sobre seus próprios ataques e buscar iludir e desorganizar as manifestações dos trabalhadores e da juventude.

Ademais, as únicas coisas “boas” promovidas pelo DCE durante a pandemia foram as distribuições de cestas básicas devido à campanha eleitoral (ou melhor, eleitoreira) e a instalação, que só agora se iniciou, do sinal de Internet nos blocos. No entanto, muitos moradores ainda estão sem sinal de banda larga, os modems distribuídos no começo da pandemia não abrangeram nem metade dos alunos, e muitos têm defeito e precisam ser trocados. Um outro problema é que os modens têm uma quantidade limitada de dados, logo muitos estudantes perdem trabalhos e provas por falta de acesso. A instalação está com o prazo mínimo de um mês por bloco, o que significa longos seis meses para cobrir todos os blocos, considerando o que já foi feito e desconsiderando eventuais atrasos.

Enquanto isso, os alunos do Crusp passam por uma situação inaceitável. Junto com todos os problemas estruturais e de repressão, os estudantes moradores do Crusp não têm sua alimentação garantida, nem sequer um auxílio que garanta sua permanência, passe livre para se locomover para fora do campus e as mínimas condições sanitárias de higiene. A única fonte de alimentação gratuita dos moradores é uma marmita disponibilizada pelo Curso de Química e que é feita em condições insalubres. Nas moradias estudantis é comum vermos moradores dependendo exclusivamente de micro-ondas para comer. Os auxílios permanência e passe livre foram cortados por tempo indeterminado e as limpezas nos blocos hoje só são feitas por conta da organização dos próprios moradores.

O relato dado pelo militante do Comitê de Luta Estudantil, Daniel Santana, resume bem a situação do Crusp:

Chegamos ao Crusp às 9h30 da manhã… desde o portão de entrada até o Crusp ouvimos bem alto os rádios da polícia… primeiro fomos as cercanias da base fixa da PM para tirar fotos. Ela fica rente as cercanias do Crusp, próximo ao bloco G… logo ao chegarmos à base uma viatura estacionada ligou bem alto seu rádio, mas tiramos as fotos… Nesta atividade, percebi não poucos pares de seguranças fardados andando pelo corredor o tempo todo, de bota e tudo. Não tinha este tipo de vigilância ostensiva em nossa última visita. Também visitamos as cozinhas coletivas de cada andar, uma nem os assentos tinha para acomodar os moradores. Quando tem uma lâmpada, é só uma para iluminar o espaço inteiro. Quanto aos moradores, denunciaram a piora de suas condições materiais ao ponto de alguns nos convidarem para entrar em seus apartamentos para ver o bolor da infiltrações nos tetos dos banheiros, por exemplo. As refeições preparadas pelo Curso de Química, estão servindo ‘arroz dormido’ para os alunos. Também houveram denúncias sobre a polícia militar entrar no bloco e ‘barbarizar’ uma pessoa que estava morando na cozinha de um dos andares. Fez com que jogasse seus próprios pertences pela janela e falou que da próxima vez ele poderia ‘jogar a si próprio’ pela janela. Tem uma moradora que formalmente é irregular no prédio, tem filho pré-adolescente e teme que a PM entre lá para expulsá-la e ao filho. Era para ela e o filho estarem em um bloco para mães e filhos… este bloco tem 11 vagas e há 19 mães com filhos no Crusp. Ela falou também sobre a instalação de câmeras nos corredores. A percepção que tenho é que o Estado quer intimidar ao máximo os moradores.

É perceptível que a Cidade Universitária, particularmente o Crusp, foi transformada em um campo de concentração para conter as revoltas dos estudantes e desmantelar sua organização. É preciso não só denunciar mas, também, propor a retirada da base fixa da PM e das academias de polícia da Cidade Universitária. É preciso denunciar a ligação do DCE com a reitoria e pressionar por assembleias que coloquem em pauta os interesses dos estudantes sem demagogia.

O Comitê de Luta Estudantil realiza atividades presenciais no Crusp durante os sábados, de 10h às 21h, para organizar e mobilizar seus moradores contra os ataques do governo estadual e da direita em geral. Defender suas reivindicações imediatas, como a manutenção do Conjunto, a volta dos auxílios permanência e as condições de alimentação, e também, defender outras reivindicações como o fim do calendário letivo pela greve contra o EAD e contra a volta às aulas presenciais, pelo governo tripartite, pelo Fora Bolsonaro, Doria e demais golpistas.

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