Bolívia
Presiente boliviano foi vítima da própria política em relação à direita
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26.08.16 (La Paz) - El presidente Evo Morales declara al viceministro de Régimen Interior, Rodolfo Illanes, quien fue asesinado en la localidad de Panduro.

Foto: Jorge Mamani/ Ministerio De La Presidencia
Presidente deposto Evo Morales. Foto: Jorge Mamani/ Ministerio De La Presidencia |

No dia 20 de outubro, o presidente Evo Morales, principal liderança do movimento popular boliviano, foi reeleito. Uma semana depois, os peronistas Alberto Fernández e Cristina Kirchner derrotaram nas urnas o neoliberal Mauricio Macri, candidato dos banqueiros e que levou a Argentina à falência novamente. Na última sexta-feira (8), o maior líder popular do Brasil, o ex-presidente Lula, vítima de uma brutal perseguição do regime político golpista, deixou, enfim, as masmorras onde a direita o havia encarcerado.  Ao que parecia, a direita estava sendo derrotada em toda a América Latina; no entanto, os acontecimentos recentes mostraram que a direita burguesa e pró-imperialista está muito longe de largar o osso.

Na manhã do domingo (10), o presidente boliviano Evo Morales, cedendo à pressão da direita, anunciou a convocação de novas eleições presidenciais. Morales havia vencido as eleições anteriores com uma vantagem superior a 10% sobre o segundo colocado, o direitista Carlos Mesa. No entanto, como a burguesia queria ver Mesa na presidência para aplicar de maneira rigorosa a política neoliberal do imperialismo, a direita iniciou uma campanha pela convocação de novas eleições.

O anúncio de Morales foi uma grande capitulação. O objetivo da direita não era fazer uma eleição com maior grau de confiabilidade do ponto de vista técnico – não fazia sentido criar todo um clima na imprensa burguesa internacional para deixar que Evo Morales vencesse novamente. O objetivo por trás das novas eleições era óbvio: permitir que a burguesia controlasse diretamente a votação e garantisse a vitória de Carlos Mesa.

No decorrer do dia, no entanto, Evo Morales se dirigiu novamente à nação renunciando ao cargo de presidente do Estado Plurinacional da Bolívia. A renúncia, por sua vez, nada tinha a ver com a convocação das eleições, uma vez que o mandato para o qual Morales havia sido reeleito ainda não teve início.

A renúncia de Evo Morales foi a consolidação de mais um golpe militar na Bolívia – e mais um golpe de Estado na América Latina. As Forças Armadas da Bolívia haviam exigido que Morales renunciasse. Ao mesmo tempo em que ocorria a pressão das Forças Armadas, grupos de extrema-direita atacavam militantes da esquerda boliviana e parlamentares ligados ao partido de Evo Morales, o Movimento ao Socialismo (MAS).

Segundo declarou pelas redes sociais, Evo Morales teve sua própria casa invadida e sofreu uma tentativa de prisão ilegal no mesmo dia em que abdicou. Junto com o presidente, renunciaram também um deputado e dois senadores do MAS, além do vice-presidente e de dois ministros do governo Morales. Em algumas jogadas, estava preparado o xeque-mate dos militares na Bolívia: Morales teve de deixar o país e a direita tomou conta do regime político.

O caso da Bolívia não é, nem de longe, excepcional. Na verdade, reflete o que está em jogo em todo o continente latino-americano: a disposição por parte da burguesia de ir até as últimas consequências para saquear todo o sangue e suor dos trabalhadores. Isso, por sua vez, coloca diante de toda a esquerda uma única opção: a de enfrentar esses sanguessugas por meio da mobilização das massas, que sempre estarão dispostas a defender a todo custo o seu país.

A derrota de Macri na Argentina e a soltura de Lula no Brasil não são demonstrações de que a burguesia esteja disposta a entrar em um acordo com os trabalhadores que limite a intensidade de sua ofensiva. Ambos são apenas exemplos de recuos necessários para que a ofensiva possa ser retomada de maneira ainda mais dura no futuro. Se a situação política não for meticulosamente analisada e esses recuos não forem dados, a direita pode rapidamente perder o controle e empurrar os trabalhadores para circunstâncias em que a tomada do poder esteja colocada. O levante no Chile é um claro exemplo de que a aplicação da política neoliberal leva, inevitavelmente, à revolta popular.

O caminho do enfrentamento não foi o caminho escolhido por Evo Morales, e é justamente por isso que, hoje, o povo boliviano se encontra refém dos militares. Em todo o momento, desde que a crise provocada pela reeleição de Evo Morales veio à tona, o presidente boliviano optou por procurar um acordo junto aos golpistas, uma saída institucional. Evo Morales depositou confiança até mesmo nas Forças Armadas – Forças Armadas essas que praticamente o expulsaram do país.

Em suas falas, a maioria dos parlamentares e membros do governo que renunciaram falam da necessidade de uma “pacificação”. Isso, no entanto, não é possível. A burguesia não quer uma solução pacífica – a única possibilidade de não haver confronto é se o povo boliviano ficar de braços cruzados enquanto é violentamente saqueado pelo imperialismo, o que é uma política inadmissível. É preciso, portanto, entender de uma vez por todas que a única forma de barrar os ataques da direita é por meio da única linguagem que ela conhece: a força. É preciso, ao invés de pedir paz à burguesia, fazê-la temer a fúria de um povo que está sendo pilhado para que meia dúzia de banqueiros mantenham seus privilégios.

Assim como é preciso enfrentar a direita na Bolívia, é preciso enfrentar os golpistas no Brasil e em toda a América Latina. O ex-presidente Lula continua ameaçado de retornar à prisão – afinal, continua condenado em segunda instância – e permanece sem seus direitos políticos plenos. A depender das condições políticas, a burguesia pode rapidamente desfazer o acordo temporário que fez em torno da liberdade de Lula. O mesmo vale para a Argentina: a eleição de Alberto Fernández, que é ligado a setores da burguesia argentina, em nada garante que a política do governo será uma política de enfrentamento à direita. E, mesmo que seja, a possibilidade de um golpe militar na Argentina está colocada.

A situação demonstra, portanto, que não há solução nas instituições. De nada adianta confiar no Congresso Nacional, que ou é controlado por picaretas como Rodrigo Maia, ou acaba cedendo à violência da extrema-direita, como no caso da Bolívia. Tampouco, de nada adianta confiar no Poder Judiciário, que, por não ser eleito, é diretamente controlado pelo imperialismo. É preciso, portanto, organizar um amplo movimento em toda a América Latina pela derrubada de todos os governos direitistas e pelo fim da ingerência imperialista no continente.

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