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Golpe militar
“Evitar um banho de sangue”: as desculpas de sempre para capitular
Evo Morales, pressionado pelas Forças Armadas, renunciou à presidência do Estado Plurinacional da Bolívia sob a justificativa de evitar um derramamento de sangue.
Morales
Golpe militar
“Evitar um banho de sangue”: as desculpas de sempre para capitular
Evo Morales, pressionado pelas Forças Armadas, renunciou à presidência do Estado Plurinacional da Bolívia sob a justificativa de evitar um derramamento de sangue.
Presidente deposto Evo Morales. Foto: Marcelo Perez del Carpio / Bloomberg
Morales
Presidente deposto Evo Morales. Foto: Marcelo Perez del Carpio / Bloomberg

As Forças Armadas da Bolívia, atendendo aos interesses do imperialismo, colocou abaixo toda a estrutura do governo Morales no último domingo (10). Em conjunto com uma série de atentados orquestrados pela extrema-direita, incluindo o incêndio e invasão de casas de lideranças da esquerda boliviana, as Forças Armadas exigiram a renúncia de Evo Morales ao cargo de presidente da Bolívia. Morales, pressionado, renunciou, sendo acompanhado pelo vice-presidente, pelo presidente da Câmara dos Deputados, pelo presidente do Senado e por outros ministros e parlamentares.

Mesmo que tenha partido do próprio Evo Morales e de seus colegas de governo o abandono de seus cargos, o que houve na Bolívia foi, indubitavelmente, um golpe militar. Evo Morales estava cumprindo seu terceiro mandato, conquistado por meio de eleições democráticas, e deveria assumir o quarto mandato, para o qual foi eleito no dia 20 de outubro do ano corrente, se não tivesse sido chantageado pelos golpistas. Mesmo sem pôr os tanques na rua, nem – por enquanto – prender Morales, as Forças Armadas o forçaram a abrir mão do poder.

A pressão da direita golpista, no entanto, por mais que violenta e apoiada por um gigantesco aparato internacional, não deve ser respondida pela capitulação da esquerda. A direita é, sim, poderosa, mas teme uma força ainda mais poderosa: a disposição implacável das massas, que, quando conscientes de quem são seus inimigos, são capazes de se mobilizar e enfrentar o mais poderoso dos exércitos da burguesia.

Desde que o imperialismo havia deixado claro sua intenção em destituir Evo Morales do governo, em especial, após a sua última reeleição, em nenhum momento, o líder boliviano optou pelo caminho do enfrentamento. Morales sempre procurou um acordo junto aos golpistas e, quando viu que o acordo era inviável, ao invés de mobilizar a suas bases, que estão sedentas para se ver livres dos parasitas da burguesia, optou por capitular, por se render às exigências da direita.

A renúncia de Evo Morales foi marcada por uma sequência de capitulações. Morales concedeu que a Organização dos Estados Americanos (OEA), que é uma instituição criada para que que o imperialismo norte-americano intervenha diretamente nos países latino-americanos, analisasse as eleições de 2019, que havia sido colocada sob suspeita de fraude pela direita boliviana. Na manhã do domingo (10), a OEA declarou que houve fraude nas eleições, sendo seguida de um pronunciamento do presidente boliviano convocando novas eleições para o mandato que teria início em 2020. Mais tarde, ainda mais pressionado pela direita, Evo Morales decidiu abandonar o cargo que conquistou por meio da luta dos bolivianos contra a direita.

A justificativa dada por Evo Morales para renunciar foi a de que estaria, assim, evitando um derramamento de sangue. Esse, contudo, não passa de um argumento tradicional de lideranças ligadas ao nacionalismo burguês para capitular diante da pressão golpista por parte da burguesia. Foi essa desculpa, por exemplo, que deu o então presidente João Goulart (Jango), que renunciou ao cago de presidente da República sob pressão da direita em 1964, concretizando o golpe militar que levou a uma sangrenta ditadura.

O problema de renunciar para evitar um derramamento de sangue é que a renúncia não garante paz alguma. Muito pelo contrário, se a burguesia não encontra força alguma que lhe oponha, a direita vai, inevitavelmente, procurar atacar às condições de vida dos trabalhadores da maneira mais profunda possível. A direita, ainda mais após a crise de 2008, está disposta a ir até as últimas consequências para saquear as riquezas de todo o mundo, o que causará inúmeras mortes e uma sabotagem permanente a todos os povos.

A renúncia para alcançar a paz social, portanto, não é uma saída real para a esquerda. O derramamento de sangue é, de certa maneira, inevitável, pois a burguesia terá de matar muita gente para conseguir roubar tudo o que está disposta a roubar. Se não for combatida, a direita irá estabelecer ditaduras em todo o mundo – sendo que todas as ditaduras promovidas pela direita foram responsáveis por verdadeiros banhos de sangue. No entanto, se os trabalhadores enfrentarem a direita, reagindo à altura, utilizando todos os meios possíveis, é possível impedir que os sanguessugas da direita golpista e serviçais do imperialismo tranformem a América Latina, e no caso a Bolívia, se tornem colônias dos EUA. Não ao golpe militar na Bolívia! Fora imperialismo da América Latina!