Perseguição ditatorial
Sob o pretexto de punir a extrema-direita, a burguesia aprova novas leis ditatoriais que servirão para perseguir a esquerda
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Loja de bebidas pega fogo próximo a delegacia que foi incendiada em Minneapolis em protestos dos EUA | Foto: Kerem Yucel/Getty Images
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Loja de bebidas pega fogo próximo a delegacia que foi incendiada em Minneapolis em protestos dos EUA | Foto: Kerem Yucel/Getty Images

No dia 6 de janeiro, durante a recontagem dos votos para presidente dos EUA, houve uma manifestação em frente ao Capitólio, prédio do Congresso norte-americano, localizado na capital, Washington. A manifestação era feita por eleitores do candidato do partido Republicano, Donald Trump, que protestavam contra a fraude eleitoral perpetrada contra ele em favor de Joe Biden, do partido Democrata. Em meio à confusão, alguns manifestantes conseguiram invadir o prédio e ali sentados no gramado de uma casa pertencente ao procurador-geral estadual Daniel Cameron. foram barrados por policiais. Cinco pessoas foram mortas no conflitos uma delas foi uma mulher baleada pelos policiais.

O que se processou após esse acontecimento, que ficou bem conhecido de todos que acompanham as notícias internacionais, foi uma ofensiva do imperialismo contra os direitos à livre-expressão da população norte-americana, o que naturalmente irá acabar sendo transmitido para o restante do planeta posteriormente. Além de muitos desses manifestantes que invadiram o Capitólio terem sido presos, há uma intensa campanha de propaganda por parte da burguesia para classificá-los como terroristas, vândalos ou arruaceiros. Tudo isso vem servindo de pretexto para a implantação de um novo “Ato Patriótico” por parte do governo norte-americano, o que seria uma espécie de nova lei anti-terrorismo. A experiência pregressa com o Ato Patriótico criado durante o governo Bush após o 11 de setembro indica que essas leis surgem com o propósito de suprimir direitos democráticos da população.

Nessa situação, a esquerda pequeno-burguesa incorre no erro fundamental de apoiar as medidas antidemocráticas da burguesia que serão aplicadas contra a extrema-direita. Pelo fato de as medidas estarem sendo postas em prática contra pessoas das quais a esquerda não gosta, ela as aprova sem refletir sobre as consequências que elas terão para a população de um modo geral e, particularmente, para os próprios ativistas de esquerda. A burguesia cria a legislação para gerar um clima de perseguição à extrema-direita, mas não irá demorar muito para que os movimentos sociais de esquerda também sejam perseguidos usando as mesmas leis.

Algo semelhante se vê na ação das redes sociais, que excluíram o perfil de Donald Trump e de milhares de seus seguidores, e também a perseguição ao Parler, rede social criada pela extrema-direita norte-americana e que foi excluída das lojas de aplicativo da Apple e da Google. A censura realizada contra Trump e trumpistas também irá se transformar em censura contra a esquerda, sob aplausos desta mesma, que parece não compreender a velha expressão “Pau que bate em Chico também bate em Francisco”.

Um exemplo do que pode vir a acontecer com a esquerda no próximo período são os processos judiciais enfrentados por manifestantes envolvidos nos grandes protestos do ano passado nos EUA, que foram acusados de diversos crimes, entre eles o de terrorismo. Naquele ano, o governador do Tennessee, Bill Lee, aprovou uma lei que considera crime a participação em certos tipos de protesto, inclusive acampar durante a noite em alguma propriedade do Estado. Há também o caso da prisão de duas pessoas que dirigiam um carro em direção a um Prédio de Segurança Pública na cidade de Muscatine, Iowa, e que foram presas sob vários acusações, também incluindo a de terrorismo.

Ainda com relação aos protestos do ano passado, houve muitos estados em que a polícia chegou a acusar os manifestantes em massa por crimes. Na cidade de Louisville, no estado do Kentucky, a polícia chegou a prender 87 manifestantes, que estavam sentados no gramado de uma casa pertencente ao procurador-geral estadual Daniel Cameron, protestando contra o assassinato da trabalhadora da área da saúde de 26 anos, Breonna Taylor, pela polícia. A jovem foi baleada 8 vezes pelos policiais dentro de sua própria casa. Em Washington, DC, houve o caso de 41 manifestantes presos pela polícia no bairro Adams Morgan, sob a acusação de distúrbios criminais e agressões a policiais.

São muitos os casos de perseguição policial e prisão de manifestantes nos EUA, decorrentes da onda de protestos do ano passado. Eles devem servir como um sinal do que pode vir a ocorrer contra a esquerda no próximo período, com a aprovação de um novo Ato Patriótico por parte do governo Biden. Todos os ativistas devem ter isso em mente e procurar se colocar contra esse avanço de leis ditatoriais nos EUA e no mundo.

Neste período de crise capitalista, tudo que a burguesia quer é um governo que seja capaz de controlar os ânimos da população, que tende a se revoltar cada vez mais contra as precárias condições de vida impostas a ela pelo capitalismo, que já se encontra em estado de decadência terminal. Classificar os manifestantes trumpistas de “terroristas” é um erro grotesco de posicionamento. Eles estavam apenas exercendo seu direito de se manifestar. A invasão a prédios legislativos é uma prática comum em manifestações. Aqui no Brasil, por exemplo, já ocorreu diversas vezes, como no caso de manifestações de professores que invadem a Assembleia Legislativa de São Paulo. Não se pode ficar a reboque da política do imperialismo de endurecer os regimes políticos contra a população revoltosa. É preciso denunciar essas ações ditatoriais e se colocar totalmente contra novas leis repressivas, sejam quais forem suas motivações.

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