Invasão do Congresso
Ascensão da extrema-direita se torna pretexto ideal para defesa intransigente do regime
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Manifestantes em frente ao Congresso | Foto: Reuters

Em sua edição do dia 7 de janeiro, a golpista Folha de S.Paulo, conhecida por elaborar seus próprios critérios para definir quais governos são democráticos e quais governos são ditatoriais, publicou um artigo com o seguinte título: “Seis de janeiro entrará para história dos EUA como 1ª tentativa de golpe no país”. De fato, esse dia ficará marcado na história norte-americana — deverá ser lembrado, pelo menos, ao longo da década. Mas o evento excepcional em questão não é o dito “golpe de Estado” — mecanismo tradicional da política norte-americana —, mas sim a invasão do Congresso, resultado de uma crise sem precedentes no regime.

Para os setores oprimidos de todo o planeta, a crise é motivo de comemoração. Significa que as instituições do principal país imperialista do mundo, da maneira como hoje estão organizadas, não são suficientes para impor a política oficial dos bancos, os maiores predadores que o capitalismo foi capaz de fabricar. E é por isso que a imprensa burguesa fala em “golpe”: a invasão ao Congresso é a invasão, ainda que estimulada pela extrema-direita, do seu Congresso. Não é a “casa do povo” que foi invadida, mas sim a instituição, por excelência, pela qual a burguesia imperialista controla o regime.

Apesar de o momento ser extraordinário para organizar os trabalhadores na luta contra o regime político, a esquerda pequeno-burguesa, umbilicalmente dependente da burguesia, já saiu em defesa do imperialismo. Os mesmos setores que se calaram diante do golpe escancarado que foi a “eleição” de Bolsonaro em 2018, também se calaram diante da “eleição” roubada por Joe Biden nos Estados Unidos em 2020 e, agora, defendem o Congresso e as instituições norte-americanas contra a sua própria dissolução.

A defesa do regime

Por meio de seu perfil no Twitter, Guilherme Boulos, burocrata do MTST e candidato derrotado à prefeitura de São Paulo pelo PSOL, mostrou-se solidário à “democracia” norte-americana:

“Donald Trump é responsável pelo atentado à democracia e pela morte de uma pessoa durante a invasão do Congresso incentivada por ele”.

O que Boulos chama de “atentado à democracia”, contudo, é exatamente a tentativa de Donald Trump de fazer os seus direitos políticos serem respeitados. As eleições de 2020 foram uma fraude ridícula, exposta para qualquer pessoa com um pouco de experiência em política. Trump foi censurado pelos monopólios da internet, perseguido pelo Judiciário e teve de enfrentar uma concorrência extraordinária. Seu adversário, Joe Biden, contou com o apoio da esquerda pequeno-burguesa de todo o planeta, conquistado através da chantagem suja do “voto útil”. Além disso, Biden recebeu cerca de 10 vezes mais investimentos do que a candidatura de Trump. Cabe ainda lembrar que as eleições ocorreram em meio à pandemia de coronavírus e que a imprensa imperialista já estava anunciando a vitória de Biden antes de qualquer confirmação real do resultado. E mesmo com tamanha manipulação, Biden apenas conseguiu uma vitória apertada.

Se assim foram as eleições, o que caberia ao candidato “derrotado”? Ora, o mais natural seria contestar o resultado. E contestar o resultado nas ruas, mobilizando a sua base, é a forma mais democrática de fazê-lo. Afinal, se um indivíduo que é perseguido pelas instituições só pode recorrer às próprias instituições para denunciar as injustiças, não há, neste caso, democracia alguma.

O que Boulos está combatendo, portanto, não é o programa de extrema-direita de Donald Trump, mas sim seus direitos democráticos. De fato, é um precedente muito perigoso haver uma liderança de extrema-direita capaz de mobilizar um destacamento que invada o Congresso. No entanto, ao clamar pelas instituições burguesas neste caso, a única coisa que Boulos conseguirá é que o regime profundamente ditatorial ganhe ainda mais poderes para reprimir a população. No Brasil, foi essa política que Boulos defendeu no caso do governo Bolsonaro, e o resultado foi exatamente o esperado: na medida em que a esquerda pequeno-burguesa não saiu às ruas para protestar contra o golpe dentro do golpe de 2016, as instituições se tornaram ainda mais repressivas.

A menção à pessoa morta torna o argumento de Boulos ainda mais oportunista, demagógico e conservador. Quem morreu no atentado foi uma apoiadora de Donald Trump, baleada pelos agentes de repressão do Estado! E a culpa seria de Trump… O recado é claro: “em caso de viver em um regime ditatorial, melhor não contestar”. E mais: as milhares e milhares de mortes causadas pela política genocida de Joe Biden no Iraque jamais foram denunciadas por Guilherme Boulos…

A frente ampla

A exaustiva defesa do criminoso regime imperialista norte-americano não é à toa. Guilherme Boulos, seguido por várias outras figuras da esquerda pequeno-burguesa, fica ao lado da indústria armamentista, das petroleiras, dos bancos e dos setores mais conspirativos da burguesia mundial porque, na luta de classes, há apenas duas protagonistas: a burguesia imperialista e a classe operária. E, no momento de intensa crise, as organizações e os indivíduos que não estiverem solidamente ligados à classe operária, irão, inevitavelmente, apoiar a política do imperialismo.

Tanto é assim que os mesmos setores que defendem o bárbaro regime norte-americano vêm defendendo abertamente o criminoso regime brasileiro. Isto é, embora critiquem o governo de extrema-direita do fascista Jair Bolsonaro, a esquerda pequeno-burguesa, ao invés de lhe opor com um programa de luta da classe operária, coloca como única política a defesa da direita nacional e pró-imperialista.

Em nova publicação, dessa vez por seu perfil no Instagram, Guilherme Boulos afirmou:

“A tentativa de golpe de Trump nos EUA é o último sinal pra quem ainda não havia entendido que é preciso barrar o fascismo. Lá e aqui”.

Que a crise do imperialismo é acompanhada com o avanço da extrema-direita, é fato. Que é preciso barrar seu avanço, é evidente. No entanto, como para bom entendedor, meia palavra basta, o que Guilherme Boulos propõe é, na verdade, a frente ampla contra o fascismo. Afinal, se Boulos defende o Congresso contra o protesto trumpista, deverá defender o Congresso contra Jair Bolsonaro. Ou seja, dentre os princípios de Boulos, é válido apoiar o regime podre e assassino norte-americano contra a política trumpista, é válido também apoiar o regime golpista brasileiro contra Bolsonaro. E a prova para isso o próprio Boulos já deu: em entrevista ao DCM, Boulos confessou que apoiaria Baleia Rossi (MDB) para as eleições na Câmara dos Deputados.

Não é à toa que a posição de Boulos é a mesma que a do PCdoB, o principal propagandista da frente ampla no Brasil:

“A bajulada como ‘maior democracia do mundo’ sofre hoje sua maior ameaça. Espero que o exemplo sirva para o Brasil. Bolsonaro é um criminoso, está tomando lições com seu mentor. Não deveria nem concluir o mandato. Mas, caso o faça, devemos estar preparados para tudo em 2022” (Orlando Silva, deputado por São Paulo) [grifo nosso]

“Um país que é centro do capitalismo e se autoproclama a maior democracia do mundo vive tentativa de golpe. É um escândalo. E é também um alerta da necessidade de impedir a disseminação do germe do fascismo, da intolerância e do ódio” (Luciana Santos, presidenta nacional da legenda)

Para o PCdoB e o PSOL, apoiadores de primeira linha da frente ampla, o que acontece nos Estados Unidos e no Brasil não é a desagregação total do regime político, desmoralizado pelo ódio da população à sua própria política. Mas simplesmente que a extrema-direita, apoiada em uma inexplicável “onda conservadora”, se fortaleceu sozinha e decidiu atacar as instituições.

Mas o fascismo não vem de uma “onda conservadora” nascida do nada, e sim do próprio regime! E isso é óbvio: na medida em que a direita tradicional vai sendo desgastada pela revolta popular, a própria burguesia estimula a extrema-direita para garantir que a esquerda não tome o poder. A extrema-direita tem suas peculiaridades, mas, no final das contas, é comprometida com a política dos bancos, e é por isso que sempre será apoiada pela burguesia em uma situação de crise. No Brasil, a direita nacional em peso apoiou Bolsonaro para impedir que o PT ganhasse. Nos Estados Unidos, Trump venceu em 2016 porque a burguesia conseguiu afundar a pré-candidatura de Bernie Sanders e evitar uma polarização mais explícita. Na Inglaterra, em 2019, o imperialismo apoiou Boris Johnson para evitar que uma ala mais radical do Partido Trabalhista vencesse.

Se as próprias instituições são incapazes de derrotar o fascismo — e estão, de fato, mostrando seu fracasso —, então clamar para que o regime se levante contra o fascismo não levará a resultado algum. E, de fato, a única possibilidade real de derrotar o fascismo está na mobilização dos trabalhadores, na esmagadora maioria da população, duramente atacada por todos os lados pelo imperialismo. Mas se a política da esquerda, que deveria reunir o povo em torno de seus direitos, é a de defender o programa oficial do regime, acabará não conseguindo o apoio dos trabalhadores. “Estarmos preparados para tudo em 2022” — melhor dizendo, apoiar João Doria em 2022 — não é uma política que fará os trabalhadores entrarem em choque com seus inimigos, mas causará uma confusão imensa. E dessa forma, o campo fica limpo para o fascismo avançar.

Para “impedir a disseminação do germe do fascismo” é preciso ir muito além da demagogia pseudodemocrática com as instituições burguesas. É preciso combater o fascismo em sua raiz, travando uma luta contra a burguesia de conjunto. No Brasil, isso se traduz na luta pelo Fora Bolsonaro e na luta contra todos os golpistas — do Judiciário ao Legislativo. Isto é, a derrubada efetiva do governo Bolsonaro deve, necessariamente, passar por um enfrentamento contra a direita nacional. É preciso, assim, anular as eleições antidemocráticas realizadas sob a batuta dos golpistas e unir a esquerda em torno da candidatura do ex-presidente Lula, apoiado amplamente pelo movimento popular e operário, com condições suficientes para, mesmo em um terreno institucional, enfrentar a extrema-direita sem ficar a reboque dos golpistas.

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