Feminismo pequeno burguês
Conhecendo um pouco da política pequeno burguesa sobre a questão da mulher, “Eu me importo” é uma deliciosa crítica sobre o empoderamento feminino

Por: Redação do Diário Causa Operária

Larissa Leonetti

Larissa Leonetti

Larissa Machado Leonetti é membro suplente do comitê central nacional do PCO, é militante do PCO desde 2016 e trabalha na secretária de organização do partido. Também é coordenadora do coletivo de mulheres Rosa Luxemburgo do PCO. Mora em São Paulo, e estuda Letras na Universidade de São Paulo.

Eu me importo, ou em inglês I care a lot, é um filme disponível na plataforma de streaming Netflix.

O filme, segundo a sinopse da própria plataforma, conta a história de uma golpista inveterada que acha que encontrou uma vítima perfeita. Só que seu erro foi mexer com alguém tão cruel quanto ela. A história no entanto é mais cruel que a sinopse apresentada, e é difícil assistir até o final sem se sentir extremamente incomodado e revoltado com toda a história do filme.

Eu me importo é um filme de drama, segundo algumas críticas encontradas na internet, um drama cômico, segundo outras. O fato é que o filme não é uma coisa nem outra. É um filme de ação/suspense com um fundo político claro e se tornou o filme mais assistido no Brasil pela plataforma Netflix. 

Marla Grayson, interpretada por Rosamund Pike, trabalha como uma tutora legal nos Estados Unidos. Seu trabalho é cuidar de idosos, que seriam incapazes de tomar decisões sobre si mesmos, sendo nomeada pelo Estado para tanto. 

São cidadãos que, depois de trabalharem e sobreviverem a vida toda à revelia do Estado, quando idosos, e supostamente incapazes de cuidarem de si mesmos, são condenados aos asilos, com uma tutora que se torna proprietária de todos os bens desses idosos.

Poster de divulgação do filme

O Estado, que nunca auxiliou em nada, manda uma representante legal, uma tutora mais especificamente, para cuidar dessas pessoas e “protegê-las” de parentes que querem usurpar suas aposentadorias ou de acidentes que podem porventura acontecer no final de suas vidas.

Marla Grayson é essa tutora, e aproveita da credibilidade que ganhou da burocracia estatal, do poder judiciário, um juiz negro, por sinal, para roubar e torturar essas pessoas. O que chama a atenção no filme como um todo é como o diretor escolhe para contar essa história. 

A personagem principal, trapaceira, cruel, e obstinada a enriquecer de qualquer maneira é uma mulher. Sua parceira de trabalho e da vida amorosa, tão cruel e golpista quanto ela, também é uma mulher. Seu escritório especialista em torturar idosos é todo composto por mulheres, até seus contatos, como a médica que indica o próximo idoso para roubar, e até a joalheira especialista em diamantes roubados.

O mafioso mais poderoso que ela encontra no caminho acaba sendo vítima dela, obstinada em ser milionária, ter muito dinheiro, ser rica. Ela começa o filme dizendo que já foi pobre e que não gostava de ser pobre.

Os dois, o mafioso poderoso e a tutora inescrupulosa, ao final, formam sociedade e dominam o país com sua empresa de tutores-farsa em um golpe bilionário. Tudo bem até ai, se não surgisse um rapaz ao final do filme e fizesse a alegria dos telespectadores, ao descobrir que sua mãe, uma das tuteladas dessa empresa de tortura, havia morrido sozinha. A crítica do filme poderia terminar aqui, como no geral as críticas terminam. Mas tem muito mais coisa a ser dita. 

Chama a atenção no filme, em primeiro lugar, a ideologia norte-americana, dos self made man, ou, no caso, self made woman. E a personagem revela que isso só é possível se as leis não forem cumpridas, “é o que os ricos fazem”, diz ela. A ideologia diz que o dinheiro vem com muito esforço e trabalho, mas a personagem revela que não, que vem com muita sacanagem, golpes, ilegalidades, e, no caso do filme, tortura deliberada contra idosos. 

Por outro lado, o feminismo da personagem é aparente, é o (atual) feminismo identitário. A luta contra o machismo se torna a luta por progressão financeira individual a qualquer custo, e, claro, para isso ela vai ter que enfrentar os homens. 

Esta é ideologia feminista e meritocrática que Grayson possui. Segundo a crítica do sitio Cinema com Rapadura:

“(…) os conflitos (na trama) estão ligados à necessidade de as mulheres enfrentarem o machismo, como se vê nos momentos em que Marla confronta dois personagens masculinos que tentam diminuí-la por ser mulher e demonstra não ser inferior nem vulnerável.” 

Esse tipo de feminismo deturpado lembra teorias pequeno-burguesas. Por exemplo, é comum ler por aí que o feminismo é a mulher “fazer o que quiser”, a personagem, que é lésbica faz o que quer, mesmo, até tortura uma senhora até lhe deixar de cadeira de rodas, e só enfrenta um obstáculo quando encontra a família mafiosa que é muito mais poderosa que ela. 

Marla Grayson tenta fisgar o público com esse tipo de demagogia, podemos até dizer que ela é uma mulher empoderada, destemida, corajosa. Sabe manusear armas, tratar de negócios, subornar médicos, corromper agentes públicos, enfim, está efetivamente empoderada no dia-a-dia de qualquer capitalista. 

No fundo, a personagem não possui ideologia nenhuma, nenhuma defesa de uma verdadeira emancipação feminina, e nem é o objetivo do filme passar essa mensagem de forma escancarada, porém é quase impossível não relacionar o comportamento das personagens principais com as ideologias da esquerda em torno da questão da mulher, em “Eu me importo”.

O título do filme é sugestivo, na verdade ela não se importa com nada, a não ser consigo mesma. Essa é a interpretação política do filme, e ela deve ser usada como uma crítica contra a ideologia feminista identitária, que descambou para a ascensão individual e adaptação ao regime da burguesia. 

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