É preciso mobilizar o povo
Documento foi assinado por centenas de figuras públicas, entre elas dirigentes do PSOL e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
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(Brasília - DF, 20/05/2020) O presidente Jair Bolsonaro ( Sem Mascara) presidentes da Camara e do Senado durante  Videoconferência com Governadores dos Estados. Foto: Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro ao lado de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. | Foto: Marcos Corrêa/PR

Surgiu, no último sábado (30), um manifesto assinado por centenas de figuras públicas, intitulado “Estamos Juntos”. Com um texto bastante vago e curto, o documento conta com a assinatura de vários elementos da direita nacional — incluindo alguns da extrema-direita — e setores mais direitistas da esquerda brasileira. Dentre os nomes da direita que mais chamam mais atenção, estão o do racista Demétrio Magnoli, o do neoliberal Fernando Henrique Cardoso, o do guru fascista Luiz Felipe Pondé, o do economista burguês Armínio Fraga, o do “vovô golpista” Cristovam Buarque, o do “youtuber” golpista Felipe Neto e o de Miguel Reale Júnior, autor do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff. Dentro os elementos mais ligados ao campo progressista, estão os petistas Fernando Haddad e Celso Amorim, o presidente da UNE, Iago Montalvão, o governador maranhense Flávio Dino (PCdoB) e os psolistas Guilherme Boulos, Glauber Braga, Ivan Valente, Marcelo Freixo e Juliano Medeiros.

O vasto espectro de signatários do documento já é mais do que suficiente para mostrar do que se trata tal iniciativa: é a já bastante conhecida frente ampla — ou, mais apropriadamente, frente amplíssima. Isto é, uma aliança artificial e fundamentalmente eleitoral forjada entre organizações populares e a burguesia. Como se vê nesse caso, o manifesto conta com a adesão desde representantes diretos do imperialismo, como Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga, a dirigentes do PT, que é o maior partido de esquerda do país. Devemos destacar, no entanto, que a presença do PT não é majoritária, como se vê no caso do PSOL, cujos principais dirigentes assinaram o documento. A participação de elementos como Fernando Haddad e Celso Amorim servem justamente para pressionar os setores mais esquerdistas do PT, como o ex-presidente Lula e a presidenta da sigla Gleisi Hoffman.

A formação de uma frente com essas caraterísticas não traz qualquer benefício à esquerda e aos trabalhadores. Muito pelo contrário: se os trabalhadores estão cada vez mais revoltados com a política neoliberal e estão dispostos a confrontar seus algozes nas ruas, como tem sido visto nos Estados Unidos e como se viu no último domingo na cidade de São Paulo, convidar os responsáveis por sabotar sistematicamente a vida do povo para uma frente não parece minimamente coerente. No fim das contas, esse tipo de aliança, em primeiro lugar, serve apenas para acabar com as mobilizações de rua, uma vez que nenhum dos elementos direitistas mencionados defende que a população faça justiça com as próprias mãos. O objetivo de tal frente é o de justamente retirar os batalhões da rua e levar a atividade política apenas para o âmbito eleitoral. Em segundo lugar, convém lembrar que nenhum desses direitistas é “anti-fascista” ou “anti-bolsonarista”: todos apoiaram a derrubada da presidenta Dilma Rousseff e, direta ou indiretamente, ajudaram a colocar Jair Bolsonaro no poder.

O texto do manifesto ajuda a comprovar a nossa tese. Sem sequer mencionar o nome do presidente ilegítimo, muito menos sugerir a sua derrubada, os signatários afirmar que:

Somos cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia.

Mais vago do que isso seria impossível! Os signatários do manifesto são, a rigor, qualquer pessoa ou qualquer instituição que diga defender a vida, a liberdade e a democracia. Cabe lembrar, contudo, que Donald Trump está tentando, neste exato momento, invadir a Venezuela com o pretexto de “defender a democracia”, que a “defesa da vida” fez com todos os governos europeus aumentassem o aparato de repressão do Estado e que a única “liberdade” que Fernando Henrique Cardoso defendeu em seu governo foi a de os capitalistas poderem saquear o nosso País.

Continuando, os signatários dizem:

Somos a maioria e exigimos que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país.

Ora, mas os “representantes e lideranças políticas” do Brasil são, em sua esmagadora maioria, golpistas. O STF referendou o golpe de 2016 e a prisão de Lula e o Congresso Nacional aprovou um número estarrecedor de medidas contra os trabalhadores: reforma da Previdência, reforma trabalhista, lei da terceirização, PEC do Teto… Pedir para que ponham a mão na consciência é, portanto, uma tática inócua. E essa total negligência para com o histórico de ataques que os brasileiros sofreram no último período fica ainda mais claro no seguinte trecho:

Defendemos uma administração pública reverente à Constituição, audaz no combate à corrupção e à desigualdade (…).

Isto é, o manifesto diz que defende a administração pública embasada na Constituição, mas é assinado por inúmeras pessoas que defenderam a derrubada ilegal da presidenta Dilma Rousseff! E defenderam justamente alegando a importância de uma “luta contra a corrupção”. O que se vê portanto, é que o manifesto não procura fazer qualquer delimitação entre o movimento que levou ao golpe de Estado de 2016 e as tarefas que estão colocadas neste momento para a derrubada do governo Bolsonaro. Das duas uma: ou não houve golpe em 2016, ou os mesmos golpistas estão convidando a esquerda para um novo golpe em 2020!

Como já está óbvio, é a segunda hipótese que prevalece:

Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia.

O que o manifesto quer, portanto, não é travar uma luta política contra o governo Bolsonaro — luta essa que já está em curso. O objetivo não é, como fica claro, lutar contra os ataques de classe aos trabalhadores — os cortes de salário, as demissões, as perseguições políticas, a repressão etc. —, mas sim dissolver todas as tensões para que o regime político permaneça estável. Sem polarização entre direita e esquerda, apenas com a atuação de um centro difuso, a burguesia encontrará as melhores condições para continuar seu programa de franco ataque a toda a população de conjunto. Neste sentido, o texto do manifesto comprova o que já dissemos acima: a frente ampla tem como fim eliminar a participação do povo nos processos políticos e fazer com que tudo que seja de interesse do próprio povo seja discutido pelos seus inimigos: os parlamentares, juízes e demais representantes da classe dominante.

Nessas condições, o manifesto corresponde exatamente aos interesses da burguesia no momento. A direita, afinal, não quer derrubar o governo Bolsonaro, mas sim controlá-lo, firmar um acordo em que o regime permaneça estável e seus planos não estejam ameaçados pela crescente revolta dos trabalhadores. Para reforçar nossa tese, trazemos aqui as palavras do jornal O Globo, que defendeu em seu editorial que todas as forças políticas fizessem um acordo com o próprio Bolsonaro pela manutenção do regime:

Durante a semana, ministros do Supremo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fizeram o que se espera deles. Defenderam as instituições, frisaram o papel vital da democracia, enalteceram a necessidade do diálogo. Mas falta para todas essas acertadas intenções uma via política, que só será construída se os democratas dos diversos matizes se entenderem. Forças políticas que têm diferenças no campo da economia, na área social e outras, mas compartilham zonas de intercessão na defesa das liberdades, têm de se reaproximar. Esta via política não deve excluir Bolsonaro, que, por sua vez, precisa fazer um gesto pelo entendimento, a melhor alternativa também para ele e seu governo. Com a pacificação, o presidente abrirá espaços de negociação no Congresso, para além do centrão, a fim de executar sua agenda, paralisada, como tudo, devido à crise política.

É preciso, portanto, rejeitar completamente a política da frente ampla, que se mostra a política de salvação da burguesia. A única maneira de barrar a ofensiva da burguesia e os ataques do governo Bolsonaro é através da mobilização independente dos trabalhadores. É preciso sair às ruas de maneira decidida a colocar todos os golpistas abaixo.

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