“Estamos contigo, Damares”: em nome da defesa da mulher, Manuela D’Ávila se solidariza com inimiga das mulheres

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Se já não bastassem os votos de sucesso de Haddad a Bolsonaro, agora foi a vez da vice da chapa “plano B”, Manuela D’Ávila, vir a público apoiar a versão feminina do sinistro governo golpista, Damares Alves, que assumirá a pasta do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, sob sérias acusações de tráfico e sequestro de crianças, afirmando-se contrária ao aborto, e dizendo que “mulher nasceu para ser mãe” e que gostaria de ser dependente econômica de seu marido.

Na última terça-feira (18), Manuela D’Ávila veio à público por meio do Facebook para afirmar um apoio praticamente incondicional à ministra reacionária e fascista: “Contamos contigo, estamos contigo!”, postou a ex-candidata.

Exalando oportunismo barato, Manuela justifica o absurdo apoio político utilizando-se do relato segundo o qual Damares haveria sofrido abuso sexual na infância por um pastor, que, segundo a futura ministra, ia ao seu quarto à noite para estuprá-la.

Manuela inicia seu post dizendo o que todo ser humano diria, ao menos os que não tenham perdido completamente a sanidade mental: “Damares, que terrível história de abuso e violação da infância que passastes. Sentimos muito por você.”

Mas utilizar esta situação como moldura para dar apoio político a Damares como ministra, é de um oportunismo tão raso e desavergonhado que faz lembrar os políticos mais pilantras da direita brasileira, aqueles que não se importam com quem esteja no poder, são sempre a favor, ainda que para isto tenham de serem traidores contumazes dos setores da sociedade que dizem representar.

Se a menina Damares foi vítima de estupro e justamente por um pastor que, segundo a ministra, estaria entre os que agora teriam de governar o Brasil, a ministra Damares é alguém que só encontrou lugar no governo brasileiro após uma sequência absurda de golpes, fraudes e todo tipo de violações contra a vontade e direitos de nosso povo, de quem foi retirado até mesmo o direito de votar em seu candidato amplamente preferido, Luiz Inácio Lula da Silva.

A ministra Damares não merece apoio político algum.

Não se pode apoiar, como ministra da pasta dos direitos humanos, dos direitos das mulheres, alguém que afirme que a mulher nasceu apenas para ser mãe, que afirme a dependência econômica da mulher como o “padrão ideal da sociedade”, que seja diametralmente contra a descriminalização do aborto e que chegue a afirmar que “chegou o momento das igrejas evangélicas governarem o Brasil”.

E pior: ninguém que se diga do lado do povo deveria dizer algo como “contamos contigo, estamos contigo!” a uma mulher que há anos responde sérias acusações de arrancar crianças indígenas de suas mães para vendê-las para adoção de casais brancos, ou seja, tráfico de crianças. Imagine-se o que irá fazer a frente da Funai onde já disse que colocará alguém que “ame desesperadamente os índios”.

Será que as mães indígenas, que perdem seus filhos desta forma brutal, não merecem a luta e a consideração “feminista” de Manuela D’Ávila?

Mas o post de Manuela não se limitou ao apoio. Sugeriu soluções.

Manuela entrega todas as esperanças das mulheres em sua luta contra a violência às forças de repressão do Estado burguês, à polícia. “Não existe prender estuprador sem polícia”, “precisamos batalhar por uma polícia que esteja equipada, com capacidade, com inspetoria, ouvidoria, com legitimidade social…”, disse a ex-candidata do PCdoB.

A polícia nada mais é do que um instrumento fundamental do Estado burguês para a repressão da população, principalmente os mais pobres e especialmente os movimentos sociais, de esquerda, proletários e operários que lutam de fato pela emancipação dos explorados.

É de impressionar o esforço de Manuela para deixar totalmente para trás qualquer mínima relação que ela um dia tivesse com o movimento operário, a revolução proletária, ou mesmo o comunismo que ainda figura na sigla de seu partido.

A polícia, que Manuela quer mais aparelhada e capacitada, longe de proteger as mulheres mais vulneráveis das classes populares, está diretamente envolvida em todo o tipo de violações a estas mesmas mulheres, abusos sexuais, assassinatos, violência de toda a espécie. Normalmente não “se mete” em situações de violência doméstica, situações em que não é raro que as mulheres, principalmente as mais pobres, paguem com a vida pela confiança que porventura tivessem nas forças repressivas do Estado.

Para todo comunista que se prese, a luta de classes demonstra claramente o porquê da burguesia investir tanto em forças policiais. São, em verdade, forças de contenção violenta das camadas proletárias e que não servem para outra finalidade a não ser esta. Não só no Brasil, mas em qualquer outro lugar do mundo onde vigora o capitalismo.

Manuela D’Ávila esquece totalmente as bases fundamentais do que deveria ser o fundamento programático e ideológico de um partido que se diz marxista-leninista. Declara apoio incondicional àquela que já se demonstra ser uma das mais asquerosas e reacionárias ministras que já esteve no governo brasileiro, certamente a que demonstra-se das maiores opositoras a todos os direitos e lutas das mulheres e de todos os demais explorados, magistralmente colocada no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos pelo governo fascista do Bolsonaro com a clara tarefa de travar e policiar todo e qualquer movimento de luta destes segmentos no país.

Esta atitude de Manuela D’Ávila é realmente dar uma bela bofetada em toda a militância do próprio PCdoB, assim como do PT, que se deixaram levar por uma mal construída imagem de pessoa sorridente e “descolada”, um carisma falso e marqueteiro, e um dia apoiaram mais um agente político oportunista que simplesmente quer o que todo burocrata quer no Brasil: ficar sempre de bem com o poder.

Manuela poderia muito bem se solidarizar com a mulher Damares, repudiando os abusos e violações que ela diz ter sido vítima, mas jamais poderia usar deste expediente para dar um explícito apoio político àquela cujo trabalho representará a violação oficializada de milhões de mulheres, seu rebaixamento a cidadãs de quinta categoria, meras genitoras de novas gerações, um retorno à mais absoluta dependência econômica dos homens, tudo sem esquecer da legitimação dos mais hediondos crimes contra as mães indígenas, separadas brutalmente de seus filhos, para serem vendidos a quem mais possa pagar.

Não, Manuela, não estamos com Damares. Estamos juntos com a luta para derrubar este golpe de Estado golpista e de extrema-direita, para colocar um fim à repressão policial burguesa que viola mulheres de baixa renda, para colocar de fato, econômica e socialmente falando, a mulher no mesmo patamar dos homens.

Para colocar um ponto final à crônica violência contra a mulher, somente através da vitória de todos os explorados, com a aliança do movimento feminino com o movimento operário, na luta por seus direitos democráticos que, em um país atrasado como o Brasil, somente será levada a termo com uma revolução social, cuja proposta as lideranças do PCdoB faz tempo abandonaram.