Estadão comemora debate sem polarização… nem candidatos

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A classe dominante é consciente de si mesma e opera a política com clareza e vários recursos. Isso pode ser confirmado no editorial do Estado de S.Paulo da última quarta (11). No mesmo dia em que, mais tarde, o PT cederia à pressão da burguesia e abriria mão da candidatura à Presidência da República de Luiz Inácio Lula da Silva – trancafiado numa masmorra em Curitiba – o Estadão celebrava de antemão sua vitória. Para o Estadão, o debate entre candidatos à presidência realizado pelo próprio jornal na véspera, fora uma “defesa eloquente da democracia”, complementando cinicamente que “foi alvissareiro que o primeiro debate entre presidenciáveis após o atentado contra Jair Bolsonaro tenha sido com mais propostas e menos agressões pessoais”.

Como se sabe, a imprensa golpista tenta vender como “centro” os elementos mais direitistas da política – justamente o núcleo duro do golpe, os setores mais ligados ao imperialismo. Num passe de mágica, desde junho, Geraldo Alckmin (PSDB) – membro da Opus Dei –, Henrique Meirelles (MDB) – banqueiro –, ou Rodrigo Maia (DEM) passaram a ser tratados pela imprensa como Centrão. Todos esses personagens macabros exercem política brutalmente direitista de ataques à população, mas vestem o manto de ponderados e distintos senhores “preocupados com o destino dos brasileiros”.

São a encarnação da “defesa da democracia” do Estadão: um bizarro encontro de personagens alienígenas num cenário de fazer inveja aos ilustradores de Flash Gordon, comandados com pompa e cerimônia por uma jornalista de plástico fingindo gravidade. Desnecessário pontuar que ali se discutiu tudo menos os reais destinos do Brasil, que dependem fundamentalmente da capacidade de aprofundamento do golpe por um lado e de mobilização dos trabalhadores por outro. Diante da envergadura dessa luta, as filigranas programáticas ali discutidas eram mero jogo diversionista, do qual participaram Alckmin, Meirelles, Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Podemos), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (Psol).

O Estadão comemora, na verdade, as ausências do debate.

Não falamos do destemperado Cabo Daciolo (Patriota), que fora enviado para as montanhas para meditar sobre a iminência da “União das Repúblicas Socialistas da América Latina” (URSAL).

Não falamos tampouco do tradicional corte dos candidatos de partidos menores – algo completamente arbitrário imposto há mais de duas décadas pela imprensa burguesa: estavam ausentes Vera Lucia (PSTU), João Goulart Filho (PPL), José Maria Eymael (PSDC).

O nazista Jair Bolsonaro havia sido supostamente esfaqueado e estava ausente, para alívio do Estadão. O candidato do PSL encarna em sua política obtusa o verdadeiro cerne brutal das políticas de todos os demais direitistas. Bolsonaro, com suas maneiras de caserna, corporifica o verdadeiro caráter de Alckmin, Meirelles, Marina, Álvaro Dias.

Convém escondê-lo momentaneamente, ainda mais depois das duas advertências da ONU.

O principal candidato, o único que já ocupara a Presidência, contando com praticamente metade das preferências de voto, estava encarcerado injustamente numa masmorra em Curitiba: Luiz Inácio Lula da Silva.

Na abertura, a apresentadora declarou que o PT não teria direito a púlpito por supostamente “não ter candidato”. Declarou ainda solidariedade a Bolsonaro.

O circo de direita estava armado. E, bem, Boulos estava lá – supostamente fazendo “disputa de narrativa”, e na verdade capitulando para todo um processo eleitoral fraudulento.

A lucidez do Estadão está em comemorar a realização do debate sem Lula – a única força popular – e sem Bolsonaro – a cara da direita. A lucidez do Estadão está em garantir que ainda se entenda por “democrático” esse processo eleitoral conduzido pelos próprios agentes do golpe de estado.

A burguesia sabe que a eleição sem Lula é fraude. E celebra de antemão o sucesso dessa fraude e de sua peça de propaganda, que se tornaria realidade no dia seguinte, com a renúncia da candidatura de Lula e o lançamento do “Plano B” encarnado em Fernando Haddad. A burguesia celebra, na verdade, uma eleição sem candidatos reais.

Cabe à esquerda entender o sinal inequívoco da burguesia golpista, unindo-se não a ela, mas em torno à palavra de ordem Sem Lula é golpe!