Esquerda que não lutou contra o golpe pressiona o PT a abandonar Lula para virar um PSDB

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As eleições foram fraudadas. Essa não é um constatação unitária do PCO, mas de todos aqueles setores que não se deixaram levar pelo “canto da sereia”do poder das urnas. As eleições foram, sim, fraudadas de cabo a rabo, por um motivo muito simples: os “donos do golpe” de Estado estabeleceram as eleições como o marco da institucionalização do golpe, que objetivamente iniciou-se com a deposição absolutamente ilegal da presidenta Dilma e que teve como maior cartada a perseguição, a prisão e o impedimento de Lula em concorrer à presidência em uma das operações mais sinistras já realizadas contra um líder popular no mundo. São fatos incontestes.

Do outro lado da trincheira, temos a unidade do imperialismo e da burguesia “nacional” associada, que se utilizam do fato de serem donos do Estado e, obviamente, de suas instituições, para produzir todo tipo de falcatrua a fim de construir “uma verdade” disseminada numa gigantesca campanha de manipulação, calúnias e mentiras por parte da imprensa deles.

Uma pessoa mais leiga poderia concluir que de um lado estão os que mandam no país e de outro a esquerda que procura lutar contra essa dominação e, por isso, a perseguição que sofre. O problema é que a lógica da conclusão não vale para a luta de classes real. Existe um cortina de fumaça intencionalmente criada no interior da própria esquerda, que visa criar confusão para favorecer, em última instância, os donos do Estado, os donos do golpe.

Do período que vai do impeachment da presidenta Dilma até a capitulação da direção do PT em abrir mão da candidatura de Lula, esses setores agiram diuturnamente para evitar qualquer movimento de reação ao golpe. Figuras públicas da direita do PT como os Humberto Costa, Jaques Wagner e Tarso Genro do PT foram porta-vozes de posições que iam de encontro a qualquer perspectiva de luta contra o golpe, que teve como sua primeira vítima o próprio partido do qual fazem parte.

Humberto Costa em entrevista à revista Veja, logo após o impeachment, defendeu que o seu partido deveria “virar a página” do golpe, pouco depois da deposição da presidenta Dilma. Genro defendeu que o PT deveria fazer “autocrítica” no momento em que Sérgio Moro e a Globo desfechavam uma violentíssima campanha contra o Partido com as denúncias forjadas de corrupção. Jaques Wagner chegou ao cúmulo de defender que Lula, preso político em Curitiba, com mais de 40% das intenções de voto, abrisse mão de sua candidatura a favor do direitista Ciro Gomes, um testa-de-ferro histórico do PSDB.

Ainda cabe uma menção ao candidato substituto de Lula, que defendeu durante a campanha eleitoral a Lava-Jato e o juiz colocado a dedo à frente da operação para condenar e prender Lula e que ao final do 2º turno desejou sucesso ao presidente eleito sem sequer considerar a sorte de um governo Bolsonaro será a desgraça do povo brasileiro.

Se em condições normais essa já seria uma política absolutamente nefasta. De um ponto de vista da independência de classe dos trabalhadores diante da burguesia, nas condições de golpe de Estado, é um verdadeiro cavalo de Tróia, que tem por objetivo abrir caminho para a consolidação do golpe.

Alguém ainda mais ingênuo poderia objetar que essas declarações guardavam apenas um “cálculo eleitoral” e que agora o PT terá unidade para combater o golpe. Será que se tratam mesmo apenas de opiniões?

Passadas as eleições, eis que se intensifica nos meios jornalísticos ligados à imprensa golpista e entre partidos ditos de esquerda (PDT, PSB e PCdoB) uma campanha que visa, justamente, levar à frente às sementes plantadas pelos arautos da direita do PT, a partir da constituição de um frente ampla parlamentar de oposição. Trocando em miúdos, as eleições legitimaram o golpe, resta à esquerda fazer oposição ao governo da extrema direita no circo do Congresso Nacional.

Para dar ares pomposos a essa política de colaboração de classes, de subserviência aos golpistas, não poderia faltar a fina flor da intelectualidade acadêmica”.

Um dos eméritos em voga patrocinado pela “democrática” imprensa brasileira é o “filósofo socialista” Ruy Fausto, que com o seu discurso de “conhecedor de Marx”, justifica a necessidade da política de “virar a página” do golpe, com um discurso emprenhado de sociologuês barato.

Em entrevista concedida à revista Carta Capital, publicada em 07/01/2018, em que não faz uma única menção ao golpe em curso no país, Fausto inicia afirmando que a vitória de Bolsonaro tem como “fatores fundamentais (…) a utilização do tema da corrupção, o problema da violência, a orquestração desonesta em torno de temas “de sociedade”. E que em quase tudo isto, a responsabilidade da direção do PT foi imensa”.

Subtraindo a “violência” e a “orquestração desonesta”, aspectos absolutamente secundários da entrevista, o problema central é a “corrupção”. Quer dizer, o PT foi corrupto, não foi vítima do golpe, sequer existiu golpe. As “investigações independentes” realizadas pelos “probos” Ministério Público e Polícia Federal é que constaram a corrupção sistêmica engendrada por Lula e o PT.

Ruy Fausto vai além. Relaciona Lula e o PT ao populismo e ao patrimonialismo no Brasil, uma concepção sociológica que vincula o “casamento” de interesses públicos e privados, reforçando a campanha de que o PT, de fato, meteu os “pés pelas mãos”, se locupletou.

Em um outro momento, Fausto classificou, ainda, como erro do PT ter lançado a candidatura de Lula por este representar “a continuidade”, se referiu à Haddad como “muito maior que o PT”, enfim corroborou com toda a política canalha da direita do PT em culpar o próprio Partido pela vitória de Bolsonaro, por não ter lançado o “plano B” com Ciro e que depois com Haddad, pelo menos no 1º turno, era um mero poste de Lula e que depois foi tarde.

Finalmente, do alto da sua soberba “intelectual”, o celestial professor “conhecedor a fundo da doutrina de Marx” e da sua concepção de luta de classes como motor da história, acrescenta “o fato de que, desde o início, se sabia que a candidatura de Lula dificilmente obteria registro legal. Essa ênfase em sua candidatura não é inocente: a burocracia do partido vive do mito Lula. Ela sabe que se ele tiver um sucessor, principalmente se for um bom sucessor, ela está morta”.

Quer dizer, Lula não é a expressão da luta contra o golpe no atual estágio da luta de classes no Brasil, mas, simplesmente, uma figura criada pela burocracia do PT e que por determinadas circunstâncias, provavelmente diabólicas, se transformou em um mito, que essa burocracia se utiliza para controlar a esquerda.

Esse é o significado maior da frente ampla preconizada pelos setores que vão englobam os “democratas” golpistas, a direita do PT, a esquerda pequeno-burguesa e uma intelectualidade inculta, se é que isso não é um atentado à filosofia do professor “marxista”, um ardoroso defensor de um PT como o novo PSDB do Brasil.