A reboque da direita
Portugal, Inglaterra, EUA são exemplos de que a esquerda brasileira deve abandonar completamente as ilusões de qualquer aliança com a burguesia
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A Geringonça portuguesa | Ilustração: Helder Oliveira
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A Geringonça portuguesa | Ilustração: Helder Oliveira

O resultado das eleições presidenciais em Portugal nesse final de semana comprova o fracasso da política de frente ampla para a esquerda.

Marcelo Rebelo de Sousa, da direita tradicional, foi reeleito presidente com 60% dos votos. E, surpreendendo a todos, André Ventura, do partido de extrema-direita Chega, alcançou o terceiro lugar, com quase 12%.

Esse partido defende, entre alguns dos pontos de seu programa, a castração química de estupradores, a pena de prisão perpétua e a proibição do aborto.

Ventura conquistou mais votos do que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português juntos. Ficou apenas um ponto percentual atrás de Ana Gomes, que pertence ao Partido Socialista mas concorreu sem o apoio da agremiação, que decidiu não lançar candidatura.

Com medo do fascismo, todos pulam no colo da direita

A extrema-direita vinha apresentando um certo crescimento em Portugal nos últimos anos. Fundado em abril de 2019, o Chega elegeu Ventura para o parlamento apenas seis meses depois. Sua ascensão é fruto da crise capitalista que atingiu em cheio o país após 2008 e que, em 2015, levou a burguesia a apostar em um governo do PS apoiado pelo BE e pelo PCP a fim de conter a insatisfação popular.

A esquerda, ao aceitar apoiar um governo como o do PS, partido neoliberal e direitista, perdeu boa parte de sua relativa independência e ficou na mão da burguesia. Quando já havia estabilizado de certa forma o regime, a burguesia expulsou o PCP e o BE da frente popular conhecida como Geringonça e edificou um governo exclusivo do PS.

Ao invés de aprenderem a lição e organizarem os trabalhadores de maneira independente, esses partidos pequeno-burgueses voltaram a acreditar na aliança com a burguesia.

Enquanto a política de ficar a reboque do PS era justificada por um discurso de reconstrução nacional baseada em reformas sociais, agora a esquerda – incluindo o PS – deu seu apoio a Rebelo, do Partido Social-Democrata, sob a desculpa de impedir a vitória do fascismo. A famosa política do “mal menor”.

O percentual de 60% dos votos contra 13% do segundo colocado evidencia isso. Todos se uniram junto com a direita tradicional para votar em peso em Rebelo a fim de evitar André Ventura. Por isso o resultado pífio da candidata do PS sem o apoio do PS e por isso o resultado pífio do BE e do PCP.

Portugal, Inglaterra, EUA…

A política de frente popular (ou frente ampla) está simplesmente destruindo a esquerda. Na Inglaterra, apesar de agrupar um amplo movimento de base do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn não conseguiu se desvencilhar da ala direita do partido, do neoliberalismo blairista. Na “hora H”, quando concorreu contra Boris Johnson, sucumbiu à pressão do imperialismo ao defender a União Europeia e sua política de rapina contra os trabalhadores. Foi derrotado nas eleições para primeiro-ministro e ainda suspenso do “Labour” após perseguição política da ala direita.

Bernie Sanders nos EUA é a mesma coisa. Não levou adiante um enfrentamento contra a direita do Partido Democrata e terminou por apoiar taxativamente o reacionário Joe Biden. A esquerda que não pertence ao partido, por outro lado, vive em sua periferia e também não consegue executar uma política independente, classista. É praticamente nula, tendo sofrido uma derrota histórica. Não passa de um apêndice dos democratas.

Uma reprise de 2002

Já no Brasil, a esquerda tenta ir pelo mesmo caminho que leva ao precipício. Caminho esse que já foi traçado antes. Em um primeiro momento, a esquerda até saiu vitoriosa, encabeçando a frente com o MDB e levando Lula à presidência em 2002. Mas o PT nunca conseguiu se desfazer dessa aliança, que se comprovou absolutamente maléfica com a traição do MDB no golpe de 2016.

Desde então o PT e a esquerda não aprenderam a lição. O PT fez inúmeras coligações com o MDB em 2020, por exemplo. Tudo isso sob o pretexto de “derrotar o bolsonarismo”. Dessa forma, apenas fortalece a direita tradicional (o “centrão”), que, devido à polarização, vinha desmoronando. E torna-se dependente dele.

Agora, diferente do que foi em 2002, a política promovida pela esquerda não é a de liderar a frente popular, ou frente ampla. É de ficar a reboque da direita nessa frente, igual fez a esquerda em Portugal, na Inglaterra e nos EUA.

Com medo da extrema-direita, a esquerda fortalece a direita tradicional e torna-se uma nulidade política, sem conseguir criar uma alternativa para os trabalhadores.

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