Demissão precoce de técnicos debilitam ainda mais o futebol brasileiro

alberto valentim

O encerramento dos campeonatos estaduais neste último final de semana em todo o país, veio acompanhado também do término do trabalho realizado por muitos dos técnicos que atuam no caótico futebol brasileiro. Não é novidade nenhuma para os torcedores e mesmo para o grande público em geral que clubes brasileiros e trabalhos de longo prazo com treinadores são dois elementos que não casam.

Os clubes brasileiros são – já há algum tempo – reféns das empresas que os patrocinam, com estas exercendo uma enorme pressão junto às diretorias para que os resultados apareçam, sem minimamente considerar as circunstâncias e as situações adversas que envolvem os times nacionais.

O futebol brasileiro está, certamente, entre aqueles onde os treinadores das equipes permanecem por menos tempo no cargo. Em tom de brincadeira – mas que não deixa de ser um fato – costuma-se dizer que técnico de futebol no Brasil é uma das profissões com menor estabilidade no emprego.

O adágio popular “a corda sempre quebra do lado mais fraco” encaixa-se perfeitamente quando a questão se trata de encontrar um “culpado” pelo fracasso do time. Os técnicos são sempre os primeiros a serem apontados como os responsáveis pelo mau desempenho dos times nos certames.

Um dado muito ilustrativo desta situação pode ser encontrado no campeonato brasileiro de 2018. Dezessete das vinte equipes que disputaram a Série A não mantiveram o mesmo treinador com o qual iniciaram a temporada. Somente três clubes mantiveram seus treinadores. Cruzeiro, Internacional e Grêmio foram a exceção à regra. Não pode ser considerado fortuito o fato de que os três terminaram o “Brasileirão” da última temporada ocupando as primeiras posições, com classificação assegurada para as competições continentais.

Neste final de semana, onde foram encerrados os campeonatos estaduais, pelo menos seis técnicos foram demitidos dos seus cargos. No Rio de Janeiro, Alberto Valentim, treinador do Vasco, foi comunicado de sua exoneração logo após a derrota para o Flamengo, a segunda pelo mesmo placar de 2 x 0, na decisão do título carioca que garantiu a taça ao rubro-negro da Gávea.

No time do Ceará, onde realizava um trabalho considerado muito bom, tendo garantido o time na divisão de elite do futebol brasileiro em 2019, livrando o time do rebaixamento, o técnico Lisca foi dispensado pela diretoria, depois de duas derrotas consecutivas para o arquirrival Fortaleza, na decisão do título estadual.

Em Goiânia, capital, o técnico do Goiás, Marcelo Barbieri, também foi mais uma vítima de derrota e perda do título estadual para um rival. O Atlético-GO foi o campeão goiano da temporada, o que acabou por precipitar a demissão de Barbieri.

Zé Ricardo e Levir Culpi também foram atropelados no meio do caminho. O Botafogo dispensou Zé Ricardo, depois da eliminação do alvinegro da Copa do Brasil, derrotado pelo Juventude pelo placar de 2 x 1. Situação semelhante foi vivenciada pelo veterano e experiente Levir Culpi, depois de mais uma passagem pelo Atlético-MG, onde deixou o time em “estado de coma” na Libertadores, sem praticamente nenhuma chance de seguir adiante na competição, depois da inesperada goleada sofrida fora de casa para o Cerro Porteño pelo placar de 4 x 1. Para completar o calvário atleticano, o time perdeu a disputa do título mineiro para o arquirrival Cruzeiro, em partida realizada no último sábado, com a equipe azul-celeste sagrando-se bicampeã estadual.

Os técnicos que dirigem as equipes brasileiras são vítimas de um conjunto de circunstâncias que estão fora do seu alcance superá-las ou resolvê-las. Os clubes de futebol do país se tornaram prisioneiros dos patrocinadores, dos capitalistas, do futebol-empresa, futebol-negócio, onde o que interessa são os resultados imediatos, as vitórias, os títulos, as conquistas e não o trabalho de médio e longo prazo, estrutural, formador.

É preciso dar um basta a esta situação de caos absoluto no futebol nacional colocando os clubes brasileiros sob o controle de suas torcidas, em primeiro lugar garantindo o amplo direito de organização e manifestação dos torcedores e suas organizadas.