Especulação e crise mundial
A especulação gigantesca que está sendo promovida nas bolsas de valores é reflexo de uma economia em crise e que não se sustenta
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Bolhas especulativas alimentam crise nas Bolsas | Foto: Divulgação
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Bolhas especulativas alimentam crise nas Bolsas | Foto: Divulgação

A Bolsa de Valores de Nova York é um retrato da especulação financeira hoje. Depois da crise de 2008 o valor das ações tem crescido com regularidade, mas nos últimos anos o preço das ações cresceu muitas vezes mais que a realidade das empresas permitiria. Matéria de Fernando Carzian, no jornal Folha de S.Paulo de 8/2/21, mostra, em detalhes o que tem ocorrido e que justifica o enriquecimento espetacular (e imaginário) dos super-ricos do planeta.

Os exemplos são claros. Agora, no final de janeiro, a maior cadeia mundial de cinemas, a AMC Theatres, emitiu 44,4 milhões de ações e conseguiu com isso US$ 600 milhões na Bolsa. O interessante é que isso ocorre um ano após as salas de cinema estarem fechadas. As ações da empresa que não tem receita, estão valendo mais agora do que quando ela tinha receitas e os cinemas estavam cheios. Outro exemplo claro da fantasia da Bolsa é a empresa Hertz, vice-líder mundial em aluguel de veículos. A empresa está em recuperação judicial, quase na falência, mas suas ações valem 900% mais hoje que há um ano. A Carnival Cruise, empresa líder em cruzeiros marítimos, hoje com receitas que beiram a zero, conseguiu captar no mercado de ações US$ 4,5 bilhões.

Esse ambiente é de pura especulação. Nos últimos anos se formou e cresceu assustadoramente uma bolha financeira que reflete nas Bolsas de Valores. A empresa Apple, demorou muitos anos para conseguiu atingir o valor de mercado de US$ 1 trilhão. Isso em 2018. Mas em plena pandemia de 2020 ela terminou o ano valendo US$ 750 bilhões a mais.

Não dúvida que são preços artificiais. A movimentação das Bolsas internacionais giram centenas de bilhões de dólares por dia. Produzindo e mantendo na estratosfera riquezas monetárias inconcebidas anos atrás. É essa especulação que gerou a absurda condição de que tratamos aqui no DCO quando noticiamos que só o ganho dos 10 maiores milionários do mundo com a pandemia seria suficiente para vacinar todas as pessoas do planeta. Veja no gráfico abaixo como as Bolsas subiram em meio à crise dos últimos anos.

Essa artificialidade das Bolsas é garantida em grande parte pelas gigantescas transferências de recursos dos governos para o sistema financeiro, como forma de garantir a estabilidade do sistema financeiro mundial. Só no Brasil, um país atrasado e com dificuldades financeiras repetidamente alegadas pelo ministro da Economia e pelo presidente golpista, além da transferência de R$ 1,5 trilhão em março do ano passado, os bancos receberam uma quantia no mínimo igual do Banco Central com a compra de títulos podres, que estavam guardados desde a crise de 2008 e que já haviam sido contabilizados como prejuízo em grande parte. Na Europa e nos EUA as transferências também foram gigantescas, além de se manterem e ampliarem as garantias para os bancos e financeiras. Observe abaixo o quanto o Federal Reserve (FED), o Banco Central dos EUA, promoveu a liquidez dos bancos, gerando um estado artificial e insustentável.

O que este gráfico mostra é que o FED estadunidense injetou mais de 4 bilhões de dólares na economia por meio da compra de papéis de empresas e outros ativos durante a pandemia. E, agora em 2021, promete comprar pelo menos US$ 120 bilhões por mês até que a economia esteja melhor. As transferências que o novo governo democrata anuncia para os mais pobres e para os estudantes são migalhas frente ao que o governo transferirá para os mais ricos por meio do mercado financeiro.

Essa política de garantir lucros via transferências gigantescas de recursos para o sistema financeiro e para as Bolsas de Valores tem limite. Não é porque o governo tem a maquininha de imprimir dinheiro que ele pode tudo indefinidamente. A dívida pública é também um indicador de fragilidade internacional, ainda mais neste período em que os EUA mede forças comerciais com um dos principais financiadores da dívida dos EUA, a China. Outro fator de instabilidade de fragilidade dessa política é a inflação. A elevação dos preços no mercado interno norte-americano pode gerar uma série de dificuldades para as empresas e conflitos salariais que gerariam um efeito dominó na política interna.

O desemprego naquele país continua muito elevado e o governo promete um arrojado plano de investimentos públicos em construções para promover empregos, mesmo com restrições apontadas por seus correligionários que temem um processo inflacionário alimentado por esses gastos.

Em termos de valores, não há como comparar esse processo com a crise de 1929. Nem é possível comparar o processo de formação da bolha das ações que está sendo alimentada pelas transferências governamentais. De 1929 para cá, a cada crise econômica que o capitalismo vivenciou, as instituições financeiras e os instrumentos do Estado para minimizar os efeitos das crises foram sendo reforçados e adaptados. Isso não impediu que as crises continuasse ocorrendo, pode ter evitado algumas, mas não todas. Hoje, assim como nas principais crises econômicas, não são os efeitos especulativos do capitalismo que estão estabelecendo a dinâmica e os limites do sistema. São suas contradições internas que estão tornando insustentáveis os processos de extração de lucro nas atuais condições de exploração dos trabalhadores. A forte tendência de queda da taxa de lucro das gigantescas empresas mundiais, está forçando disputas entre elas por mercados e por condições de exploração dos trabalhadores que permitam que continuem crescendo e gerando lucros em meio a um momento de transição tecnológica.

A crise que está sendo vivenciada ainda pode estar em seu início, encoberta pela pandemia e não incentivada por ela. A bolha das ações pode ser um momento importante da instabilidade que está por vir. Será mais cedo ou mais tarde sua explosão, a depender de como e quanto os governos poderão continuar a gerar transferências financeiras que alimentam a insaciável fome de lucros (mesmo que sem qualquer base material) das empresas capitalistas.

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