O melhor futebol do mundo
Em 1958, a seleção brasileira e a genialidade de Pelé assombraram o mundo e inauguraram o futebol moderno
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Garrincha e Pelé retratados no Museu do Futebol em São Paulo | Wally Gobetz

Para um brasileiro que já passou dos 45 anos de idade, a derrota para Itália na Copa do mundo de futebol na Espanha foi um dos primeiros traumas da vida relacionado ao esporte mais popular do mundo. Depois disso tivemos a final de 1998 na França e o 7 a 1 sofridos contra a Alemanha na Copa de 2014 aqui no Brasil.

Mas nada supera a comoção que foi a final da Copa do mundo de 1950 contra o Uruguai em pleno Maracanã. A vitória parecia certa, a ponto do então presidente da República Getúlio Vargas, pelo rádio, ter chamado a população para comemorar o título antes mesmo do jogo começar. Quando o Uruguai liquidou o Brasil de virada, a tragédia se confirmou no que ficou conhecido como o “Maracanazzo”.

Esse foi o primeiro trauma futebolístico de um menino de quase 10 anos chamado Edson Arantes do Nascimento, e que se tornará em pouco tempo depois mundialmente conhecido como Pelé.

A Copa seguinte, de 1954, foi marcada pelo que o dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. A superação desse “viralatismo” – no futebol, apenas! – ocorreu em 1958, na Suécia.

A imprensa esportiva da época, considerando o histórico do Brasil desde 1950, afirmava que os favoritos para o título eram Alemanha Ocidental, Hungria, União Soviética e Suécia.

O que ninguém contava era com a dupla Garrincha e Pelé, e continuaram sem saber disso nos dois primeiros jogos do torneio, já que Pelé, um jovem jogador do Santos de 17 anos que havia se contundido um pouco antes da Copa jogando contra o Corinthians, não entrou em campo, assim como Garrincha, que era reserva de Joel.

No terceiro jogo, contra a temida União Soviética, Pelé estava apto para entrar, e Garrincha, contrariando a recomendação do psicólogo da seleção, entrou em campo a pedido dos jogadores, depois da partida contra a Inglaterra, que foi o primeiro empate sem gols em uma Copa do mundo.

O que era para ser o exorcismo do “Maracanazzo” foi o início do assombro que mudou o futebol mundial.

Os soviéticos eram fisicamente muito maiores que os brasileiros e seu futebol representava aquilo que se chama de “futebol científico”, tanto que chegaram a garantir que haviam decifrado o futebol de Garrincha, e que o Brasil seria eliminado mais cedo ou mais tarde. Pois foi justamente quando o jogo se iniciou que ocorreu aquilo que se chama até hoje de “os 3 minutos mais incríveis da história do futebol”, quando Garrincha driblou quatro marcadores imensos e mandou a bola na trave, Pelé também carimbou a trave e Vavá acabou fazendo o gol. Tudo isso em 180 segundos e com todos os dribles de Garrincha para o mesmo lado – onde está a “ciência” agora? Aos 20 minutos do segundo tempo Vavá marcaria o segundo gol, deixando os soviéticos boquiabertos e sua “ciência” desmoralizada.

Nas quartas de final bastou um gol inacreditável de Pelé para destruir o País de Gales. Ele deu um chapéu no marcador e girou para marcar.

A próxima vítima foi a então poderosa seleção da França, na que talvez tenha sido a melhor partida do Brasil na copa. Vavá fez o primeiro gol aos dois minutos e a França empatou com Fontaine aos 8. O líder da seleção era Didi, mas quem buscou a bola dentro do gol brasileiro e a colocou no meio do campo foi Pelé, com apenas 17 anos. Ele e Garrincha deram trabalho sem parar para a defesa francesa, mas a bola não entrava. Apenas aos 39 do primeiro tempo Didi virou o placar novamente para o Brasil.

No segundo tempo, assim como na etapa anterior, o Brasil já mandava no campo, mas o placar não refletia isso. Foi Pelé que mudou a história aos 7 minutos com um gol de pé esquerdo. Aos 19 foi a vez do pé direito, depois de grande jogada de Garrincha. Dez minutos depois foi o terceiro gol de Pelé, depois ter matado a bola no peito. Aos 39 minutos a França diminuiu, mas a goleada já era fato consumado, assim como o assombro do mundo diante da seleção brasileira e principalmente de Pelé.

Em 29 de junho de 1958 se deu a grande final contra o país-sede da Copa e já não mais favorita Suécia.

Aos 4 minutos de partida a Suécia abriu o placar.

A alegria dos suecos durou pouco, pois aos 9 minutos Vavá empatava, e aos 32 ele virou o placar a favor do Brasil. Mas o grande momento ocorreu aos 10 minutos do segundo tempo, quando ocorreu o momento mais belo daquele mundial, e um dos gols mais bonitos de todos os tempos: Pelé recebe a bola na entrada da área, neutraliza o imenso defensor sueco dando nele um chapéu absolutamente perfeito e, sem deixar a bola tocar o chão, estufa a rede sueca.

Depois disso foi a vez de Zagallo marcar aos 23, a Suécia diminuir aos 35 e Pelé fazer o último gol do campeonato aos 45 minutos.

Foi 5 a 2 contra a Suécia e foi a primeira copa do mundo conquistada pelo Brasil, mas era muito mais do que isso. Era a superação do trauma de 1950 e a refutação dentro dos campos de futebol das ideologias racistas que permeavam os meios esportivos. Esse tipo de lixo pseudocientífico afirmava, entre outras bobagens, que Garrincha era incapaz de jogar futebol porque tinha as pernas tortas. Todos os zagueiros que ficavam sem a bola e sem entender como ele driblava daquele jeito são a melhor resposta que podemos dar.

Pois bem. Aquela seleção de 1958 inaugurou um novo tipo de futebol, que vai além do esporte, e que é o futebol-arte, expressão da cultura popular brasileira. Como nosso povo é negro e miscigenado, assim é nosso futebol. E foi essa a lição que o gigante sueco aprendeu ao sofrer o chapéu de Pelé e tomar o gol.

Esse estilo de futebol, o maior que já existiu e não superado ainda – apesar das bobagens ditas hoje em dia sobre a “toda poderosa Alemanha” pela imprensa esportiva pró-imperialista -, deu frutos em 1962 com a conquista da Copa do Mundo no Chile e depois em 1970 no México, fazendo do Brasil o primeiro tricampeão de futebol da história do futebol.

Todas essas copas tiveram Pelé jogando, e ele se tornou o maior artilheiro da seleção brasileira de todos os tempos, com 95 gols em 115 partidas. Chegou a atuar como goleiro em mais de uma partida e, por ser alvo de todos os zagueiros, que sempre queriam tirá-lo das partidas com violência, sabia também se defender e mostrava que não ia apanhar e ficar quieto. Além disso, chutava muito bem com os dois pés, o que dificultava o adversário.

O legado de Pelé está presente até hoje. Basta olhar para os tão festejados times europeus e ver que quem joga futebol mesmo nos bilionários times da Inglaterra e Alemanha, por exemplo.

Em língua inglesa, o estilo de futebol brasileiro inaugurado em 1958 é chamado de brazilian ginga. Ginga é uma palavra muito usada no Brasil e de origem africana. Não conseguiram ainda traduzir essa palavra, assim com ainda não conseguiram superar o futebol que começou com Pelé e seus companheiros nos campos da Suécia.

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