Vox militum
Vítima de um regime militar fascista que durou 40 anos, o país ibérico volta a sofrer com os fantasmas do passado. Que na verdade nunca foram embora
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O rei Felipe VI recebeu o apoio de militares golpistas “nestes momentos difíceis para a Pátria" | Foto: La Moncloa

No final de novembro, a imprensa espanhola revelou trechos de uma carta assinada por 73 ex-comandantes do exército e enviada ao rei Felipe VI. No documento, os militares aposentados acusam o governo do PSOE-Podemos de ser “social-comunista, apoiado por filoetarras e independentistas” e que, portanto, estaria promovendo a “decomposição da unidade nacional”, “tanto em sua vertente política como econômica e social”.

Os antigos generais e coronéis ainda expressam seu apoio ao rei “nestes momentos difíceis para a Pátria”. 

Sua carta foi divulgada pouco depois de uma missiva semelhante, de 39 ex-comandantes da aeronáutica. Nesta, eles afirmam que o governo está levando a cabo o “aniquilamento da nossa democracia” devido à sua relação com “os herdeiros de terroristas”.

Ainda, um ex-general de divisão da aeronáutica, Francisco Beca Casanova, que encabeçou a carta citada acima, convocou em um grupo de WhatsApp o fuzilamento de 26 milhões de cidadãos. Outro participante do grupo afirmou que chegou a ser aventada a hipótese de um levante militar contra o governo.

Aqui no Brasil conhecemos muito bem esse tipo de posicionamento dos militares. Na verdade, eles sempre pensam assim. Mas antes de dar golpes, às vezes acabam escapando algumas dessas declarações. Foi assim em 1937, em 1964 e é assim nos últimos anos, com o golpe de 2016. Na Espanha, não é muito diferente.

“Social-comunista” foi o adjetivo usado por Santiago Abascal, líder do partido fascista VOX, em seu voto de desconfiança no governo em outubro. Ele usou esse termo nada menos do que 23 vezes durante seu discurso. Mostra clara de que os militares espanhóis – altos militares – estão perfeitamente alinhados com essa que já é a terceira força política na Espanha.

A respeito do apoio dos “filoetarras e independentistas”, é preciso fazer uma importante observação. Da mesma forma que PSOE-Podemos não têm absolutamente nada a ver com socialismo (são partidos burgueses e pequeno-burgueses totalmente integrados ao regime imperialista espanhol), eles não são favoráveis à independência do País Basco ou da Catalunha. Os “filoetarras” (que seriam adeptos do antigo grupo armado ETA) referidos na primeira carta são os membros do EH Bildu, um partido da burguesia nacionalista basca. Os independentistas são os capitalistas catalães. Eles dão suporte ao PSOE-Podemos no parlamento, a fim de garantir uma mínima estabilidade ao executivo e receber concessões do poder central.

Entretanto, o governo de Pedro Sánchez e Pablo Iglesias nunca mostrou disposição em apoiar a independência da Catalunha ou do País Basco. Na verdade, foi colocado pela burguesia imperialista espanhola justamente para conter as mobilizações insurrecionais dos catalães, cuja política linha-dura do governo anterior de Mariano Rajoy (PP) só fez aumentar.

O independentismo é um dos mais fundamentais aspectos da crise espanhola. Foi impulsionado devido à crise capitalista de 2008, que levou a Espanha a ser um dos países mais afetados em toda a Europa. A devastação econômica do país atingiu, logicamente, a classe operária. Mas também alcançou importantes setores capitalistas, como a burguesia catalã, cuja região é a mais industrializada da Espanha, juntamente com o País Basco.

A crise também levou à polarização política, com os trabalhadores se movimentando, seguindo os acontecimentos na Grécia e em Portugal. Foi aí que entrou em cena o Podemos que, assim como o Syriza grego, atendeu ao chamado da burguesia para desviar a luta dos trabalhadores para o terreno institucional. Passando-se por uma “alternativa de esquerda” ao PSOE, ganhou a bênção da burguesia para “representar” os oprimidos… no Estado opressor. E executar exatamente a mesma política do PSOE.

Uma derrota para os trabalhadores, até porque, no outro polo, a burguesia fez crescer o movimento da extrema-direita. Criou-se o VOX, um partido que reivindica o franquismo e que hoje se apresenta como o grande adversário da “velha política”, com seus discursos demagógicos que, com a ausência de sua contraparte de esquerda (que deveria ser um partido revolucionário), angaria cada vez mais apoio nos setores mais atrasados do proletariado, no lumpemproletariado e, principalmente, na pequena-burguesia.

Com a crise se acentuando a cada ano na Espanha, sem governos que garantam a menor estabilidade para o regime político em franca decomposição devido à crise capitalista, o VOX aparece como o maior perigo que os trabalhadores espanhóis poderiam imaginar desde Francisco Franco. E que tem o apoio, mesmo que velado, das forças armadas, viúvas do franquismo.

É preciso ter claro, no entanto, que o VOX não é um fenômeno que nasceu do nada. A ditadura fascista espanhola terminou devido a um acordo com os setores “democráticos”, incluindo o PSOE, para evitar que a mobilização revolucionária dos trabalhadores, no final dos anos 1970, levasse a uma verdadeira revolução que instaurasse um governo operário. A transição foi uma fachada tão mal feita como a que vimos no Brasil pós-ditadura. A Espanha continuou sendo uma monarquia, na qual o rei é o comandante-supremo das forças armadas e chefe de Estado. Os partidos políticos são um mais direitista que o outro: o PP é o herdeiro do franquismo, enquanto o PSOE não engana mais ninguém, sendo um dos maiores promotores dos golpes de Estado na América Latina.

O bipartidarismo tem os seus dias contados na Espanha. E quem o ameaça é o fascista VOX, junto com os militares. É um claro sinal de que a burguesia imperialista espanhola está desesperada com a crise cada vez mais profunda que ameaça a integridade do império. E situações desesperadoras exigem medidas desesperadas. A frente popular PSOE-Podemos (cujo governo é apoiado por toda a esquerda) fracassou. A última cartada da burguesia já está sendo colocada na mesa: o fascismo.

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