Em apuração
Impedido pelos golpistas de concorrer, o ex-presidente Rafael Correa leva seu candidato ao 2º turno numa grande polarização contra a direita neoliberal
Arauz-e-Correa
Campanha de Arauz, candidato de Rafael Correa | Reprodução: AFP
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Campanha de Arauz, candidato de Rafael Correa | Reprodução: AFP

Nesse domingo (7), ocorreram as eleições presidenciais no Equador. Até às 22:15, com 7% das urnas apuradas, o País caminha para o 2º turno, com Andrés Arauz, do Partido UNES (União pela Esperança) em 1º e Guilerme Lasso, em 2º.

Segundo pesquisas de boca de urna feita pelo Instituto Cedatos, Arauz, que é o candidato do ex-presidente nacionalista Rafael Correa, teria tido 34,94% dos votos, contra 20,99% de Lasso, o candidato da direita e 17,99% de Yaku Pérez, líder indígena que se colocava como alternativa ao “correismo”.

No início da noite, Arauz escreveu em sua conta no Twitter:

“Uma vitória retumbante em todas as regiões de nosso lindo país. Nosso triunfo é de 2 a 1 contra o banqueiro [Lasso]. Parabéns ao povo equatoriano por esta festa da democracia. Vamos aguardar os resultados oficiais para festejar.”

O Equador tem cerca de 13,1 milhões de eleitores, como no Brasil o voto é obrigatório. A eleição também contou com o líder indígena Yaku Pérez, também de esquerda e ao todo, 16 candidatos, incluindo a candidata do partido de Moreno, Ximena Peña, que procurou desvincular sua imagem do atual presidente.

Após acompanhar sua avó materna na votação, um ato simbólico, Arauz disse à imprensa que:

“A resposta dos cidadãos foi avassaladora em todas as partes do país e sabemos que isto vai se refletir no voto cidadão.”

Seu principal adversário, o direitista Lasso, disse que estaria nas urnas no 2 º turno com:

“…quem o povo equatoriano quisesse… No próximo dia 11 de abril, a vitória será esmagadora a favor da mudança.”

Assim como no Brasil, para vencer no 1º turno é preciso ter 50% dos votos mais 1. Ou ainda 40% com uma diferença de dez pontos percentuais em relação ao 2º colocado. Caso seja confirmada, a disputa do 2º turno ocorrerá em 11 de abril, expressando uma polarização política como a que toma conta da América latina neste momento.

De um lado a esquerda nacionalista, expressa na candidatura de Arauz, que é apoiado pelo ex-presidente Rafael Correa, embora seja muito mais direitista que este. De outro a direita neoliberal, do banqueiro Guilherme Lasso, que apesar da demagogia eleitoral em torno da “mudança”, expressa a tentativa velada de continuidade do governo golpista do atual presidente Lenin Moreno.

Correa fez um governo progressista, que auditou a dívida pública e suspendeu o pagamento de parte do assalto que os banqueiros causavam ao país. Após dois mandatos, elegeu seu sucessor, Lenin Moreno, que viria a traí-lo, numa espécie de golpe de Estado por dentro da sucessão, fazendo com que o governo desse uma guinada à direita, impondo um governo neoliberal de guerra contra a população, totalmente ao avesso do legado de Correa.

O destaque feito na Folha de S.Paulo ajuda a entender a semelhança com o Brasil e a perseguição ao ex-presidente Lula:

“Favorecido pelo boom de commodities, Correa aumentou o gasto público em políticas de redistribuição de renda durante seu mandato, e ainda é lembrado com carinho e lealdade por um setor importante da sociedade.

Isso apesar dos casos de corrupção pelos quais foi condenado e pelo escândalo da Odebrecht —a empreiteira brasileira admitiu ter pago em caixa 2 e em subornos mais de US$ 33 milhões (R$ 177 milhões) durante a gestão de Correa.”

Desta forma, na mesma linha dos golpes de Estado nos demais países da América latina, o governo de Moreno inaugurou no Equador uma perseguição implacável contra o ex-presidente Rafael Correa, que foi condenado à prisão, impedido de concorrer nas últimas eleições e acabou exilado na Bélgica, onde permanece até hoje.

Com essa postura reacionária, de ataque aos direitos e conquistas sociais dos trabalhadores e do povo indígena, o governo de Moreno enfrentou nos últimos anos uma enorme oposição popular nas ruas.

O País, que possui 17,4 milhões de habitantes foi duramente atingido pela acentuada queda do preço do petróleo, seu principal produto de exportação. Diante disto, em 2019, o governo de Moreno elevou os preços dos combustíveis tentando jogar a crise nas costas dos trabalhadores. Isto lhe rendeu protestos liderados pelos indígenas que explodiram e tomaram conta do País, quase derrubando seu governo. Sob o risco de ocupação, a sede do governo teve de ser transferida temporariamente da capital Quito para Guayaquil.

Após uma indefinição do movimento e um acordo que conseguiu salvar o governo, em 2020, com a pandemia, novamente a tensão tomou conta do Equador. A omissão total do governo neoliberal diante da pandemia do coronavírus fez com que a crise sanitária se alastrasse pelo País, criando um caos na saúde, com corpos deixados abandonados nas ruas, com urubus voando sobre as casas para comer os restos.

Estas informações são fundamentais para entender os bastidores das eleições deste domingo e o que está em jogo neste momento no País, que expressa inevitavelmente a polarização entre os golpistas, agentes do imperialismo norte-americano, contra a população, que é vítima do golpe e da perseguição ao nacionalismo.

“Embora seja iminente a tendência ao correismo ou ao anti-correismo, há uma porcentagem significativa do eleitorado procurando outra coisa. As pessoas consideram que o Equador deve enfrentar outros problemas”, como a pobreza (25%), o desemprego (8,59%) e a corrupção, que tem atormentado o correismo, diz a cientista política Karen Garzón Sherdek, da Universidade SEK.

A manobra criminosa de impedir o povo de votar no ex-presidente Rafael Correa e a possível vitória de seu candidato, Arauz, que foi seu ministro da economia, mostra a tendência vista no Bolívia, onde diante de uma enorme mobilização popular, os golpistas fizeram um acordo para que as eleições fossem vencidas por um elemento direitista da esquerda, que pudesse ser assimilado pelo regime, sem reverter o golpe e mantendo a exclusão dos principais líderes de massas do processo, eis a semelhança escancarada entre Evo Morales, Lula e Rafael Correa.

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