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Imprensa independente por quê?

“Não existe jornalismo na imprensa burguesa”

Causa Operária TV Entrevista com o jornalista Leandro Fortes

A imprensa tradicional é uma ditadura dos interesses da burguesia – Reprodução

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Leandro Boavista Fortes, jornalista, professor e escritor.

O jornalista Leandro Fortes foi recebido no programa Causa Operária TV Entrevista para um debate sobre a função da imprensa independente. Leandro é articulista do Diário do Centro do Mundo (DCM) e também da agência Cobra Criada. Fortes nasceu no Rio de Janeiro, foi criado na Bahia e se formou pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele trabalhou em diversos órgãos, não somente da imprensa independente, mas da grande imprensa como Globo, Estadão, Correio Braziliense, além de passagem pela rádio no programa A Voz do Brasil.

A conversa com Leandro Fortes ocorreu na segunda-feira do dia 5 de abril. Além das perguntas realizadas pelos companheiros Francisco Muniz e Eduardo Vasco, o nosso convidado especial também foi questionado através de Super Chats na plataforma do Youtube pelos expectadores da Causa Operária TV. Na discussão foram abordados diversos aspectos de suas experiências profissionais na imprensa burguesa, de sua participação na comunicação da campanha do PT e sobre a importância dos veículos de comunicação independentes.

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Antônio Carlos Magalhães, coronel baiano falecido em 2007, fundador da TV Bahia, foi governador da Bahia na ditadura militar e ministro da comunicação.

Inicialmente, nosso entrevistado conta sobre as dificuldades da sua formação jornalística, suas primeiras experiências como jornalista e sobre a luta do jornalismo de esquerda contra o Carlismo no final da ditadura militar. O jornalista fala da manobra de Antônio Carlos Magalhães que passou de apoiador do regime militar a ministro das comunicações de Tancredo Neves e depois do Jose Sarney. E como os coronéis nordestinos e suas famílias dominaram os meios de comunicação nos respectivos estados (José Sarney no Maranhão, Tasso Jereissati no Ceará, a família Collor de Mello em Alagoas, Albano Franco no Sergipe).

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Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-presidente neoliberal, encoberto pela imprensa golpista, liquidou grande parte da industria nacional, privatizou centenas de estatais e colocou 46 milhões brasileiros na fome.

Fortes também explicou como se davam as relações de trabalho na imprensa burguesa quando se iniciou no jornalismo e como se transformaram com o desenvolvimento da situação política no País. Leandro trabalhava no Globo quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era presidente e foi demitido, assim como outros companheiros, por não concordar com a política de blindagem imposta pela chefia. Nosso entrevistado relata que, devido a sua orientação política, não conseguiu aceitar os modos de trabalho da grande imprensa e abandonou esses espaços.

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Deltan Dallagnol, coordenador da operação farsesca da Lava-jato, responsável pelos vazamentos de informações sigilosas à Globo, usadas na campanha contra Lula e o PT.

Sobre a operação Lava Jato, Leandro condenou a relação promíscua entre os procuradores do Ministério Público Federal com a imprensa burguesa golpista. Fortes, que é especialista na área, denunciou não haver nada de jornalismo e tampouco de investigativo no enredo narrado pela Rede Globo. O jornalista considerou imoral a ligação ente Deltan Dallagnol, coordenador da investigação farsesca como comprova a Vaza-jato, e o repórter Vladimir Netto, filho de Miriam Leitão (pseudojornalista da Globo) e autor do livro que buscou promover Sérgio Moro a herói do combate à corrupção no Brasil.

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Merval Pereira, jornalista abutre da Globo, porta-voz oficial da família Marinho.

Nosso convidado denunciou ainda o funcionamento do que se entende por jornalismo hoje, onde os jornalistas cumprem um papel meramente figurativo, suas vozes seriam alugadas para emitir a opinião do patrão como se fosse a sua. Dentre os expoentes que se prestam ao trabalho sujo da máquina antijornalística, destacou Merval Pereira como funcionário mais servil da Globo, o principal porta-voz da família Marinho seria responsável por emitir ordens direitas de seus patrões para os ministros do Supremo Tribunal Federal.

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Reinaldo Azevedo, jornalista golpista da Veja, Jovempan, Folha S.Paulo e da Band News, que cunhou a expressão “petralha”.

Neste sentido, Leandro Fortes condenou a entrevista que o ex-presidente Lula da Silva concedeu ao Reinaldo de Azevedo que foi um dos principais jornalistas a participar da campanha golpista contra a presidenta Dilma, o PT e o próprio Lula. Para o jornalista, isso acaba gerando audiência e credibilidade dentro da esquerda para a Band News ganhar dinheiro, em primeiro lugar, e também para reciclar a imagem de um dos maiores expoentes do antipetismo na imprensa. As críticas se estenderam a Fernando Haddad e Guilherme Boulos que cumprem o mesmo propósito como colunistas da Folha S.Paulo.

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Guilherme Boulos, colunista da Folha de S.Paulo e militante do Patido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Ao final, nosso convidado relatou as dificuldades que encontrou para criar a agência de comunicação do PT e defendeu que todos os partidos de esquerda deveriam ter sua própria imprensa. O jornalista de esquerda, como ele mesmo se identifica, manifestou a necessidade de se constituir imprensas de esquerda no País para se combater as mentiras contadas pela Globo e pelo conjunto de meios de comunicação golpistas. E ressaltou a importância de iniciativas como DCM, 247 e do Diário Causa Operária.

Confira a entrevista na íntegra:

Francisco Muniz: Você já atuou em diversos jornais da grande imprensa como Estadão e Correio Braziliense. Gostaria de saber como é para uma pessoa de esquerda, que tem uma mentalidade progressista, atuar em veículos como esses. Existem dificuldades? Como é o ambiente?

Leandro Fortes: Eu tenho uma trajetória muito típica de jornalistas da minha geração. Tenho 55 anos, me formei na Universidade Federal da Bahia em jornalismo e comecei, em Salvador, trabalhando num jornal muito pequeno que existe até hoje e chama-se Tribuna da Bahia. Um jornal pequeno e precário que não tinha muito destaque porque o jornalismo baiano era monopolizado por um grande jornal regional chamado A Tarde. Eu comecei muito jovem, ainda com 19 anos, trabalhando na Tribuna da Bahia e, para mim, foi uma escola muito determinante em tudo que eu faria dali para frente. Quando se inicia na precariedade, se aprende a construir ferramentas para o seu ofício. Assim, se entende com muito mais eficiência essas ferramentas do que quem tem tudo à sua disposição (carro, máquinas de escrever da melhor qualidade, disponibilidade das fontes). Então, foi uma escola muito importante em meados dos anos 1980. Fui para outro jornal também pequeno, mas já melhor, que é o Jornal da Bahia, um jornal que não existe mais. Depois, vou ser repórter de televisão, por um curto período, na TV Itapuã que na época era o SBT. Eu saí da Bahia e cheguei em Brasília no dia 15 de janeiro de 1990, portanto, há mais de 30 anos. Mas aquele período em salvador, de construção da minha personalidade jornalística, foi definitivo para tudo que viria. Não trabalhava em jornais de esquerda até porque eles não existiam, mas me forjei na luta contra o Carlismo na Bahia, contra a dominação coronelista de Antônio Carlos Magalhães. A Tribuna da Bahia era um jornal de oposição ao Jornal da Bahia e continua um jornal de oposição. Eu já entrei na imprensa no momento, período do fim da ditadura e início da redemocratização, que havia uma luta visceral entre grupos políticos da esquerda na Bahia, que tentavam se firmar como jornais de oposição para tomar o poder que estava nas mãos Carlos Magalhães desde 1964. Então, me forjei nessa batalha, uma briga muito feia e difícil. Antônio Carlos Magalhães tinha uma personalidade cruel e vingativa que não permitiu oposição, os perseguia… Então, foi uma maneira de começar no jornalismo já na luta política.

Eduardo Vasco: Sobre Antônio Carlos Magalhães, ele foi ministro das Comunicações e tinha uma relação com a Rede Globo. Inclusive no documentário Muito Além do Cidadão Kane é citada essa relação. Qual era sua percepção sobre isso? Como era, na época, a relação do ACM com a Globo?

LF: Essa relação era tão incestuosa. Antônio Carlos serviu a ditadura como poucos homens fizeram, só que mudou de lado quando percebeu que o negócio estava degringolando. Fez parte da chamada Frente Liberal, com o então MDB, para escolher Tancredo Neves como presidente da república no colégio eleitoral em 1984. E, em 1985, às vésperas da posse de Tancredo, ele foi escolhido ministro das comunicações. Depois que Tancredo morreu, José Sarney assumiu a presidência e manteve ele no ministério. Nesse mistério, ele fez e aconteceu. Foi quando a família Magalhães ficou realmente rica, porque ele passou a controlar todas as concessões de rádio e televisão no Brasil. Ele concedeu a si mesmo uma televisão em Salvador, na Bahia. Primeiro, essa chamada TV Bahia era concessionária da TV Manchete. Mas ele queria a globo, que já estava muitos anos na mão outra emissora, a TV Aratu (canal 4). Eu nasci no Rio, mas fui pequenininho para ser criado em salvador. Então, falo que sou baiano porque não tenho nenhuma relação com o Rio. Mas quando era criança, só existiam duas emissoras de televisão, a TV Aratu que era da Globo e a TV Itapuã que era a TV Tupi. Então, a Globo sempre foi da TV Aratu, mas Antônio Carlos deu um golpe, retirou do ar de forma arbitrária e deu o sinal a ele mesmo. Assim, começou um império de comunicação a partir da TV Bahia, que deixou a família milionária, com retransmissores em várias cidades do estado da Bahia, rádios no jornal chamado Correio da Bahia, que ele usava da forma mais inescrupulosa. Não há parâmetros no Brasil, da utilização espúria de uma mídia como foi a de Antônio Carlos na Bahia. Para perseguir, difamar, caluniar e destruir a vida dos seus inimigos, porque ele não existia adversários políticos. O ministério das comunicações foi uma arma muito poderosa na mão de Antônio Carlos Magalhães, ao ponto que graças à ação dele, José Sarney conseguiu estender o mandato, que era pra ser de 4 anos e passou a ser de cinco anos. A partir daí, Antônio Carlos Magalhães passou a praticamente mandar na República. Tirando o período do presidente Itamar Franco, que foi presidente tampão entre o impeachment do Collor e a chegada de Fernando Henrique Cardoso, ele mandou em todos os governos, só parou quando chegou os governos dos governos do PT e, em seguida, morreu. Mas enfim, a dominação de Antônio Carlos Magalhães é muito emblemática porque representa exatamente a dominação dos antigos coronéis, que mandavam nas terras do nordeste e que se transferiram para essas emissoras de televisão. Era Antônio Carlos Magalhães na Bahia, José Sarney no Maranhão, Tasso Jereissati no Ceará, a família Collor de Mello em Alagoas, Albano Franco em Sergipe. Então, os coronéis transferiram seus poderes de terra para esse meio eletrônico para continuar mandando e, principalmente, sugando os recursos dos cofres do Estado. Enriquecendo de maneira absolutamente sem controle, a partir da retirada de verbas publicitárias. Quase 100% de todas as verbas publicitárias dos governos da Bahia iam para o Grupo Magalhães Comunicação (o grupo da TV Bahia). Era assim que funcionava. Então, eu fui criado nesse ambiente, do lado da oposição. Embora tenha participado durante o movimento estudantil junto com a esquerda, foi no jornalismo, nessa briga, que me forjei na esquerda. E aí, quando decidi ir para Brasília, entrei no outro campo de batalha que era o da mídia mais profissional, da chamada grande mídia, que tinha os grandes jornais, das grandes televisões. Eu comecei, então, a crescer trabalhando nesses veículos. É interessante entender que, nessa época de 1990, quando cheguei em Brasília, até a eleição do Lula em 2002, não havia uma radicalização de posições dentro das redações. O convívio era muito mais tranquilo, na verdade era bastante tranquilo. Como não havia polarização política fora das redações, não se transferia para dentro delas. Eu sempre fui eleitor do Lula, falava abertamente que votava no Lula, meus companheiros (quase todos) também votavam no Lula e não havia um problema nas relações internas das redações porque não havia esse problema fora. Apenas depois da eleição do Lula, com a polarização política do país, passou também a ter uma polarização dentro das redações. Passaram a não aceitar mais jornalistas com perfil de esquerda.

FM: Era nesse sentido mesmo que gostaria de perguntar. Por exemplo, no Correio Braziliense se vê uma diferença muito grande de orientação política, a forma como era antes e como é hoje. A guinada à direita foi muito grande, não só nesse jornal, mas em todos. Você acha que há uma diferença hoje dentro desses jornais com relação a como era antes, como que se dá isso?

LF: Vamos pegar esse exemplo do Correio Braziliense. Sempre foi um jornal regional até a chegada do jornalista Ricardo Noblat à redação em 1995. Era um jornal provinciano sem destaque nenhum, mas exercia dentro da sociedade brasiliense certo fascínio porque tratava das coisas locais. Enquanto todos os jornais instalados na capital federal eram sucursais, havia dois jornais que faziam o trabalho da interlocução local. Um era o Jornal de Brasília, que era um jornal menor, mais fraco e até hoje é. E o Correio Braziliense que tinha mais destaque porque ele abrigava o colunista mais famoso da cidade e tinha mais verbas publicitárias. Um jornal que sempre puxou o saco do governo, não importa qual governo, um jornalismo de baixa qualidade. O Ricardo Noblat, como veio do Jornal do Brasil e da Veja, conseguiu profissionalizar mais essas relações, numa época que isso não necessariamente era coisa ruim. Ele conseguiu melhorar os salários, aumentar a redação, profissionalizar a relação da redação com o poder local e com poder nacional. Deu mais status ao jornal e o jornal cresceu. Foi nessa época, que eu trabalhei lá por pouco tempo (11 meses). Eu estava no jornal O Globo e tive uma briga por conta das eleições de 1998. O Franklin Martins – que foi ministro da Secretaria de Comunicação Social do Lula, foi guerrilheiro e sequestrou Charles Elbrick em 1969, embaixador dos Estados Unidos que libertou 15 presos políticos, que foram para o México, entre eles José Dirceu – enquanto eu era do Jornal do Brasil, me chamou para trabalhar no Globo quando assumiu a sucursal de Brasília em 1997. Fui para lá como repórter e depois virei coordenador de política nacional. A gente fazia um trabalho muito centrado na realidade do Brasil, de uma maneira bastante crítica. Quando chegou a reeleição do Fernando Henrique Cardoso em 1998, o jornal não queria mais isso. Já estava acumulando força na direita para preparar o projeto neoliberal, de maneira que se tornasse reversível qualquer ação contra ele. Nós não aceitamos isso na redação, nem o Franklin e nem outros companheiros. A gente se colocou de maneira muito crítica contra àquela mudança e o Franklin acabou sendo demitido. Botaram um cara no lugar dele, um sujeito paga pau, que me demitiu também, alegando que eu não aceitava ordens, aquelas coisas típicas das redações. É importante entender uma coisa, não sei como é hoje, mas naquela época as redações replicavam de maneira muito idêntica as relações sociais fora do jornal. A hierarquia dentro das redações era uma coisa muito dura. Então, se repetia dentro das redações, as relações sociais da classe dominante e da classe trabalhadora fora delas. Os chefes, os editores, o “aquário”, como a gente chamava as pessoas que ficavam dentro daquelas portas de vidro, tinham um poder determinante sobre tudo e sobre todos. Se reproduzia exatamente a forma como a burguesia trata a classe trabalhadora e isso foi provocando cada vez mais um incomodo em mim. Eu estava envelhecendo, com quase 30 anos, já estava muito politizado, sempre fui leitor de Marx, um cara de esquerda, já tinha uma militância de esquerda que todos conheciam e incomodava muita gente. Fui então começando a ter problemas dentro das redações, da chamada mídia corporativa, e aos poucos fui tendo que me afastar dela. Trabalhei no Estadão, trabalhei no Globo… trabalhei na TV Globo – para se ter ideia, lá fui montar um núcleo de investigação jornalística e em pouco tempo pedi demissão porque achei aquele lugar horrível.

EV: A respeito da investigação jornalística, quando eu estava na faculdade, cheguei a ler um livro seu justamente sobre o assunto. Tenho partes do livro até hoje que guardei porque tem serventia, os capítulos que fala a respeito de se fazer jornalismo investigativo através da própria internet, sem sair de casa. É muito interessante…

LF: Era uma novidade na época que eu escrevi o livro. Era uma novidade que hoje se tornou imperativo por conta da pandemia, por exemplo, tem que se aprender a fazer isso.

EV: É curioso você falando da imprensa burguesa e da sua experiência. Não existe mais jornalismo investigativo, pelo menos na imprensa burguesa, na minha opinião. Desde, principalmente, a questão da lava-jato, enterrou-se completamente qualquer resquício de investigação jornalística. Os jornalistas apenas recebiam, da “República de Curitiba”, documentos e vazavam. Não existia nada, nenhuma investigação, o que impede também qualquer tipo de interpretação crítica das fontes. Uma relação muito íntima entre os jornalistas e as suas fontes, uma jogada casada. A gente sabe que a imprensa foi tão importante quanto o judiciário no golpe, nada de jornalismo investigativo. A imprensa soou como um alto-falante para os procuradores e eles se vendem como se fossem jornalistas investigativos, embora sejam mais uma assessoria de imprensa do judiciário…

LF: Eles estão se vendendo agora como jornalistas profissionais, o que é uma piada. Eu vou explicar isso, sua avaliação é corretíssima. Não existe mais jornalismo investigativo, salvo uma ou outra exceção que acontece assim fora da curva. Mas o pano de fundo disso é o seguinte, com o tempo, a profissão de jornalismo foi se degradando e perdeu uma coisa que era muito cara, por exemplo, para minha geração, que era a condição de intelectual (de pensador). Para ser jornalista, naturalmente se agregava à sua persona o intelectual. O Jornalista era intelectual por natureza porque, quando se fazia jornalismo, as pessoas sabiam que estava dentro de um ambiente onde circulava o conhecimento, a filosofia, a leitura de livros clássicos, o conhecimento da história com profundidade. Então, nós tínhamos uma vaidade intelectual muito grande. Ser jornalista significava também se posicionar dentro da sociedade como um intelectual. Isso era uma construção que se compartilhava com todos dentro do ofício. A partir dos anos 1990, sobretudo do governo Fernando Henrique Cardoso, com a história do neoliberalismo e o conceito de meritocracia, foi instalado, não só dentro das redações, mas nas escolas e faculdades, o slogan “formação de líderes e tornar-se competitivo”. O jornalismo nem é uma profissão para se formar líderes no sentido empresarial do empreendedorismo como também não deve ser uma profissão competitiva porque ela é essencialmente solidária. Se recolhe uma série de informações, entrevistas, documentos, pronunciamentos, gráficos… Enfim, um mundo de informação que são pegas desorganizadas para se estruturar de tal forma e dentro de uma linguagem bastante acessível, que o cidadão na outra ponta possa entender o mundo no qual ele vive. É fornecido às pessoas, a informação estruturada para que elas possam desenvolver o senso crítico sobre a realidade. Esse é o trabalho do jornalista, não é dar furo, não ser o primeiro a noticiar, não é derrubar ministro, não é derruba presidente. Isso foi sendo esquecido. A investigação jornalística, por si só, demanda tempo, paciência e dinheiro porque tem que se fazer uma investigação profunda sobre as coisas. Tem que se infiltrar, não no sentido policial, no sentido jornalístico. Tem que se entrar naquela realidade, perceber, ouvir as pessoas, ver as coisas e transformar isso tudo depois num produto de muito maior fôlego. Isso que é o jornalismo investigativo. Então, se não se tem repertório intelectual, nem informação para fazer isso, não se consegue fazer. Por isso, foi colocado muito bem, que a lava-jato encerrou esse processo de criação de jornalistas investigativos e de reportagens investigativas para virar, na verdade, uma chicana onde se distribuía tarefas para redações. Os repórteres recebiam as informações na mão e as transmitia, praticamente, sem nenhum tratamento para o público. Isso é resultado também do processo de seleção na mídia monopolista das grandes corporações, que passaram a contratar pessoas para suas redações por meio dos chamados cursos de trainee. O que é um curso de trainee? É um filtro poderosíssimo onde se pega a gente muito jovem, entram 200 e se tem 10 vagas, então se escolhe os piores. Por que eu falo os 10 piores? Porque são os mais violentos, mais agressivos, mais submissos, mais servis e mais dispostos a ascender socialmente dentro da estrutura da redação. Por isso, são capazes de fazer literalmente qualquer coisa pelo patrão. Normalmente, jovens de classe média, brancos, que falam dois ou três idiomas, que moraram no exterior. Então, se acabou com a pluralidade, inclusive social dentro das redações, que passaram a ser de classe média e média alta. Entre esses jovens se estabeleceu também uma relação de parentesco, muitos jornalistas da minha geração e de gerações mais velhas passaram a empregar os seus filhos e a doutriná-los dentro do seu espectro político, meio que uma capitania hereditária. Basta ver a situação da Miriam Leitão que é jornalista da TV Globo, um filho dela trabalhou na Revista Época e o outro é Vladimir Netto, autor do livro da Lava-jato. O Vladimir Neto é o repórter que aparece na Vaza-jato, naquelas mensagens do Telegram. O Deltan Dallagnol, que é o chefe da quadrilha da República de Curitiba, disse que era o repórter da TV Globo quem revisava as notas do Ministério Público. Em troca, o Deltan Dallagnol revisava o livro que ele escreveu sobre Sérgio Moro. Uma relação absolutamente incestuosa que não tem nada de jornalismo. Não há sequer percepção de jornalismo.

EV: Tendo sua experiência no jornalismo dito profissional (jornalismo burguês), você pode falar taxativamente que existe auto censura dentro das redações por parte dos altos escalões, evitando que se fale em determinados assuntos ou mesmo cortando aqueles jornalistas que tem uma posição mais crítica? Eu já vi vários jornalistas da esquerda, que também trabalharam em grandes redações, falando que desde o processo de seleção, como você falou, existe um filtro ideológico para impedir um jornalista de esquerda de entrar na redação. Com base na sua experiência, existe realmente censura? A gente pode dizer que as redações se tornaram uma espécie de ditadura, onde tudo é filtrado para ser publicado de acordo com os interesses dos donos dos jornais?

LF: Essa limpeza foi feita durante os primeiros anos do primeiro governo Lula, todos os jornalistas de esquerda foram afastados das redações dos grandes jornais da mídia corporativa. Os que ficaram passaram a dançar conforme a música, muitos eram de esquerda inclusive. Não quero julgar as pessoas porque é a questão da sobrevivência, volto a dizer que toda discussão filosófica resvala na sobrevivência. Tomo pelo meu exemplo, não consegui mais sobreviver dentro dessas redações porque não conseguia mais compactuar com o tipo de jornalismo que estava sendo feito. Antigamente, quando comecei nos anos 1980, a redação era toda de esquerda, o de direita era o dono do jornal. Mas havia, então, um equilíbrio natural entre o que era produzido e os interesses comerciais da empresa, estando no sistema capitalista não há como fugir disso. Havia uma separação, que nós dizíamos que era separação da igreja e do estado, o departamento comercial não fazia parte da redação. A partir dos anos 1990, o departamento comercial passou a ditar o que os jornalistas iriam fazer ou deixar de fazer. Isso destruiu o jornalismo. Transformou o jornalismo numa atividade comercial, não numa atividade social, muito menos uma atividade intelectual. Hoje, eu digo com toda certeza, quem trabalha dentro da mídia corporativa não tem nenhuma liberdade para expressar uma posição contrária do seu patrão. Muitos, inclusive, perderam a capacidade de fazê-lo. Quando a situação política sofre uma infecção muito rápido, se percebe, por exemplo, na bancada da Globonews, que jornalistas da TV Globo ficam sem saber o que falar porque ainda não receberam a orientação correta para tratar daquele tema. São absolutamente coordenados a partir dos interesses do patrão para emitir opinião como se fosse sua, pra alugar a sua voz para dar opinião do patrão. Exemplo super prático, o jornalista Merval Pereira, que é o porta-voz da família Marinho dentro do grupo Globo, escreveu uma coluna dizendo que o ministro Edson Fachin iria mudar o seu voto em relação à anulação das sentenças contra o ex-presidente Lula da 13ª Vara de Curitiba, decisão que ele tomou achando que conseguiria barrar o processo de suspeição contra o ministro Moro e não conseguiu. Ficou com a broxa na mão e agora pediu que o assunto seja tratado no plenário do STF por conta de um recurso da procuradoria geral da república. Então, o que Merval está dizendo é que o ministro Fachin, que é lava-jatista e que tem uma relação muito estranha com esta operação, vai mudar a própria opinião sobre sentença que ele mesmo proferiu de forma monocrática. Por que o Merval Pereira está falando isso? Porque é isso que a Globo está mandando o Edson Fachin fazer. Está avisando aos outros ministros o que será feito. Então, o Merval Pereira é o paroxismo, a caricatura do que acontece nas redações em todas as instâncias. Ninguém faz nada por conta própria, tudo é demandado a partir da ideologia e dos interesses do patrão.

FM: Eu tinha visto essa questão do Fachin e achado muito esquisito mesmo, claramente é um controle do poder judiciário por meio desse pessoal…

LF: No caso do Merval, é uma ordem de comando, ele está avisando aos jornalistas o que a Globo vai defender agora e avisando o STF sobre o que vai acontecer.

Super Chat: Qual sua análise da imprensa dita progressista?

LF:  Primeiro, quero deixar claro uma coisa, eu não gosto dessa expressão, até uso de vez em quando para poder facilitar a comunicação. Progressiva me parece aquele tipo de embalagem que cabe todo mundo dentro. Eu falo que sou de esquerda, imprensa de esquerda, frente de esquerda, política de esquerda. Essa coisa de progressista, me lembra muito uma área de escape onde pessoas que não são de esquerda, mas que naquele momento não querem se colocar como direita ou estão participando efetivamente, por exemplo, do combate contra o Bolsonaro. Não quero discriminar, mas acho que a gente tem que aprender a falar que tem que ter uma imprensa de esquerda. Imprensa de esquerda no brasil, não há. Tem algumas iniciativas de esquerda, de verdade, como por exemplo o Diário da Causa Operária que é uma imprensa de esquerda. Mas venho debatendo com outros partidos e com outras pessoas que é preciso ter uma imprensa de esquerda mesmo, porque senão essa mídia corporativa, que é de direita, acaba capturando personagens de esquerda. Rouba a credibilidade dessas personagens para dar uma fachada de pluralidade ideológica dentro dos seus veículos. Uma coisa hipócrita e mentirosa. O Fernando Haddad, por exemplo, por muito tempo escreveu na Folha. Eu sempre fui um crítico disso, acho que ninguém de esquerda deveria escrever artigo na Folha, em Globo, Estadão… Não deveriam frequentar esses ambientes. A esquerda tem uma atração fatal para dar entrevista nas páginas amarelas da Veja, para aparecer na TV Globo, para escrever um artigo na Folha. O Boulos está escrevendo artigos na Folha achando que está furando a bolha. Até brinco que existe a chamada esquerda fura bolha, uma esquerda que basicamente se preocupa em furar a bolha. Não se preocupa com luta de classes, não se preocupa em organizar sindicatos, não se preocupa em se manifestar, em ir para rua. Só se preocupa em furar bolha, acha que escrever um artigo na Folha de S. Paulo é furar a bolha. Eu, por exemplo, fui um crítico e continuo sendo crítico ferrenho da participação do ex-presidente Lula no programa do Reinaldo Azevedo, que prestou credibilidade e audiência a um canalha da pior qualidade, um liberal no sentido mais venal, mais deletério, uma pessoa de baixíssimo nível. Mas que construiu, de uma forma bastante inteligente, um processo de lavagem da própria biografia quando foi pego lá atrás pela Lava-jato, ele percebeu que ela iria pegá-lo. Então, se tornou um crítico da Lava-jato, um legalista, passou a defender um julgamento justo para o presidente Lula. Perceba que ele nunca defendeu a inocência do presidente, ele defendia um julgamento justo. Daqui a pouco a Justiça de Brasília condena o Lula de novo e ele vai falar que houve um julgamento justo, que o Lula é bandido mesmo e tem que ficar na cadeia. Essas pessoas não têm escrúpulo, não tem caráter. O Reinaldo Azevedo, em particular, é o criador do antipetismo estrutural dentro da mídia brasileira, ele era bússola disso, ele criou o termo petralha, ele tratava o Lula de apedeuta, ele ironizava, ridicularizava qualquer coisa que viesse da esquerda com grande repercussão… Escreveu livro com seguidores do nível dele, alimentou o antipetismo, o anticomunismo, alimentou essas bestas fera que depois acabam elegendo o Bolsonaro. Então, eu não acredito nessa história. Nós ainda não temos uma mídia de esquerda consolidada da forma que deveria ter, como tem outros países. Na Inglaterra tem jornal e portal de esquerda antigo, na França a mesma coisa, na Holanda a mesma coisa e na Alemanha a mesma coisa. Aqui não, toda mídia corporativa é de direita. Há pouco tempo, a gente começou a ganhar espaço dentro da internet criando portais de esquerda que generosamente são classificados de progressistas. Tem o DCM, o 247…

EV: Você trabalhou na comunicação do PT, é verdade aquela história de que tinha um pessoal que achava que não precisava de jornal porque tinha Folha de São Paulo?

LF: É verdade. Eu conversei sobre isso com Rui Costa Pimenta esses dias, ele falou que sabia que tinha gente falava “pra que ter um jornal de esquerda, se a gente tem a Folha de São Paulo?” Olha o nível de ingenuidade. Eu trabalhei 2013/2014 até depois das eleições, na verdade, até 2015. Coordenei a área digital da campanha da Dilma desde antes da eleição 2014 até um pouco depois. Coordenava uma equipe grande, mais de 440 pessoas que cuidavam do Facebook da Dilma e do Facebook do PT. E criei a Agência PT pensando nisso “o PT precisa ter uma agência de notícias sua”. Por que como é que vai funcionar isso, vai confiar na mídia? E ouvi, mais de uma vez, isso que o Rui falou “a gente não precisa, a gente tem a Folha de São Paulo” É de uma ingenuidade inacreditável. Folha, que logo depois da Dilma ser eleita, daria uma página inteira pra uma notícia falsa, uma ficha falsa da Dilma. Depois daquela ficha falsa, a Dilma foi para o aniversário de 90 anos da Folha. Uma falta de compreensão, dentro da esquerda, de qual é o papel da mídia de direita, do papel da mídia corporativa e o papel das esquerdas. Eles não se misturam, não podem se misturar.

FM: Sobre Agência PT, você encontrou dificuldades, como é que foi para criar essa agência? Não sei se ainda existe ou está em baixa…

LF: Existe sim, mas não tem mais nenhuma relevância. Quando assumi essa posição na campanha da Dilma, o PT tinha um site, uma coisa muito mal feita, muito antiga, aquela estrutura de site dos anos 1990, uma coisa horrorosa. Não era responsivo, não tinha conexão com as redes sociais. Um site muito velho como era a cara das pessoas que cuidavam daquilo. Falei que não dava para trabalhar no campo eleitoral com um site desses – em 2014, o pau já estava comendo nas redes – e a gente tem que produzir as nossas próprias informações para gerar uma espécie de central de argumentos, para as pessoas entrarem nas redes com esses argumentos e entrarem na luta política. O cara quer brigar com a direita, quer brigar com Reinaldo Azevedo, com os seguidores dele, mas ele não tem os argumentos. Ele precisa de alguém que dê esses argumentos, para isso tem que ter uma agência de notícias para produzir as notícias do partido, as verdades do partido, as fontes do partido. As pessoas entrarem ali e nas redes pra obterem esses argumentos e irem para luta política. Ainda mais durante uma campanha. A dificuldade que eu tive, na verdade, foi que as pessoas não queriam mudar a cultura porque eram pessoas mais velhas, pessoas mais velhas do que eu e algumas da minha idade. Mas há pessoas, sobretudo jornalistas, que não conseguiram fazer a transição do seu tempo analógico para o tempo das redes sociais. Não conseguiram, não gostam, não querem, não conseguem se libertar sequer do jornal de papel. Eu, por exemplo, não leio jornal de papel há mais de 15 anos, não toco no jornal de papel, nem sei mais como ler aquilo. Não gosto. Agora, tem pessoas, tem amigos meus jornalistas, grandes amigos meus, que não conseguem viver sem como se fosse espécie de droga. Tem que pegar aquele calhamaço, tem que ler, abrir no fim de semana. Sente falta daquilo. Eu abandonei aquilo porque achei que o que veio depois é muito melhor. Assim como, o computador é muito melhor do que a máquina de escrever. Como achava, o CD era muito melhor do que vinil. Hoje gosto muito mais de streaming do que qualquer outro tipo de mídia sonora. Eu sempre tive a cabeça voltada para essa evolução porque achei que o jornalismo pode ser muito bem feito dentro dessas novas estruturas, que só servem para contribuir. Por isso, pensei na Agência PT. Tem de ser uma agência ágil, com Layout do cacete, com rapidez, utilizando as novas ferramentas. Tem que ser responsivo, fácil de aceitar. Então, demorei um período muito longo, muito mais longos do que eu pretendia, pra convencer as pessoas dentro do PT de que é importante ter uma agência. Foi um processo longo, muitos achavam que não precisava porque tinha a Folha, outros achavam que o site era bom daquele jeito mesmo, outros que não devia ter nada disso porque tinha que fazer panfleto e jornalzinho de papel. É uma discussão muito mais cultural do que estrutural na questão da Agência PT.

EV: Aquela campanha em 2014 já foi muito polarizada e demonstrou a ânsia golpista da direita. Como é que foi pra você e para o pessoal da área de comunicação da Dilma e do PT lidar com a imprensa com direita tão fervorosamente contra a reeleição da Dilma?

LF: Foi muito polarizada porque já havia uma profusão muito grande de notícias falsas, o Whatsapp já existia, circulavam em todas as mídias. Já havia o esqueleto do que seria no governo Bolsonaro, essa espécie de gabinete do ódio, ou seja, de pessoas fabricando notícias falsas dentro do PSDB, imputando notícias falsas ao PT. Há uma mística que nunca foi resolvida, uma história de que o PT fez uma enxurrada de fake news contra Marina Silva dizendo que ela era de direita. A Marina Silva era de direita. A Marina Silva apoiou o Aécio naquela eleição. A Marina Silva se deslocou para a direita alegremente, não precisava ninguém produzir notícia falsa sobre isso. O que se tinha era notícia sobre isso, de como ela tinha traído a esquerda, traído o Partido dos Trabalhadores. Para chegar ao poder ela estava fazendo o mesmo jogo barato e sujo da direita brasileira. Não tinha fake News nenhuma, ela se protegeu pra evitar a pecha de traidora, de direitista e de arrivista. Como depois a Marta Suplicy, por exemplo, fez em relação ao PT, dizendo que sofreu um massacre. Aí chora aquela toda santinha da floresta, diz que foi perseguida. É mentira. Em 90% do nosso tempo, era produzido informação pra tentar combater notícias falsas que davam sobre a Dilma. Uma coisa misógina, machista, escroto, num nível inacreditável. E a gente tinha um combate semanal, por exemplo, com as capas da Veja. Toda semana a Veja vinha com uma capa tentando destruir a candidatura da Dilma e sempre era uma mentira. Então, a gente gastava muita energia nisso.

FM: Teve uma capa bomba da Veja, na véspera da eleição, que ficou famosa. Hoje em dia a campanha contra as fake news é colocada como se fossem uma coisa da internet, dos blogs sujos. Diante de um fato como esse como é que fica essa discussão, qual é verdade sobre isso?

LF: Hoje essa mídia corporativa, a Veja não tem mais nenhum poder, ninguém lê aquela porcaria. Qual é a capa da Veja da semana passada? Todo mundo sabia porque era uma coisa que vinha para destruir, a Editora Abril tinha muita força e, o que saia na Veja, imediatamente era lida no Jornal Nacional que passava a bola para frente. Então, a gente gastava uma energia enorme combatendo essas mentiras que eram produzidas. Hoje, o nosso grande desafio não é a mídia corporativa que está completamente decadente. É a produção de notícias falsas no Whatsapp. É a disseminação de notícias falsas pelo Whatsapp. O bolsonarismo criou uma situação esdrúxula na relação da mídia com o poder, ele deslocou o poder da Globo para empresas menores e servis como a Record e SBT, que não tem o profissionalismo, digamos assim, que a Globo tinha para fazer esse tipo de coisa. São empresas “sub-Globos”, são globos de terceira categoria. Ao mesmo tempo, o bolsonarismo demonizou a TV Globo, os bolsominions chamam de Globo Lixo. E, no momento que a Globo, por exemplo, produz críticas ao Bolsonaro, mostra essa questão da vacinação, umas matérias interessantes sobre descalabro da crise sanitária, os absurdos que o Bolsonaro comete, isso não atinge mais a essa massa de eleitores que está ligada exclusivamente ao pelo gabinete de ódio por vários sites e no Whatsapp. Essas pessoas nem mais veem a globo e nem mais tem acesso informação nenhuma, vivem exclusivamente nesse mundo fantasioso do Whatsapp e acreditam literalmente em qualquer absurdo, em qualquer coisa. Ao mesmo tempo, tem uma coisa que não se pode perder de vista, os jornalistas não tem senso crítico nenhum, nenhuma liberdade, são paus-mandados completamente e eles tem uma relação esquizofrênica. Algum tempo atrás, os jornalistas foram autorizados, por exemplo, em alguns jornais da Globo, a falar mal dos maus modos do Bolsonaro, mas não pode falar mal da agenda econômica. É justamente a agenda econômica e não os maus modos do Bolsonaro que está destruindo o Brasil. Os maus modos de Bolsonaro, os palavrões do Bolsonaro, as grosserias do Bolsonaro, a estupidez que ele distribui diariamente são coisas terríveis. Mas o que tá destruindo realmente o Brasil é o desmonte do estado, a venda de refinarias da Petrobras, a PEC 32 da Reforma Administrativa que vão destruir o Estado brasileiro, que vai precarizar o serviço público, de tal forma, que não vai vir mais estado tal qual nós conhecemos, o conceito de Hobbes por exemplo. Vai ter uma massa heterogênea de serviços precarizados que vão ser dominados, a classe dominante vai utilizar para super explorar a classe trabalhadora. O país definitivamente se tornará dependente dos interesses dos Estados Unidos e da União Europeia. É entrega do Pré-sal que está destruindo o Brasil e não os maus modos. Mas a imprensa, de certa forma, está liberada para falar dos maus modos, mas não pode falar do que é importante, que é a agenda econômica tocada pelo Paulo Guedes.

EV: Você falou a respeito de Whatsapp, concordo que a extrema-direita tem sabido usar bastante as redes sociais pra fazer o jogo sujo, que é típico da extrema-direita. Agora, tem a questão da campanha de fake news pela imprensa tradicional contra Dilma em 2014 e, depois, ao longo de todo o processo do golpe de estado. A imprensa burguesa, que foi a primeira fabricar de fake News, a grande fábrica de fake news, fala até a respeito das fake news da extrema-direita, mas ela bate nisso daí justamente para tentar perseguir a esquerda porque curiosamente ela fala dos blogs sujos. Quando teve o golpe em 2016, uma das primeiras medidas do Michel Temer foi cortar o financiamento dos blogs sujos justamente aproveitando essa campanha da imprensa burguesa, dizendo que os canais alternativos da imprensa de esquerda eram canais chapa-branca, comprados pelo governo para fazer propaganda do PT. Então, tem essa questão, a extrema-direita divulga fake news pela internet a rodo. Agora, a esquerda tem que tomar cuidado com a campanha da Veja e da Globo contra fake news por que quem são eles pra falar de fake News?

LF: Essas agências de checagem, que foram criadas justamente para dar uma fachada de credibilidade em relação a fake news, não interessam a eles. No Brasil, desde os anos 1940, a mídia brasileira faz fake news contra a esquerda. Em 1982, a TV Globo montou uma enorme fake news contra o Leonel Brizola para ele não ser eleito no Rio de Janeiro. Em 1989, foi uma quantidade enorme de notícias falsas que circularam pelos veículos de comunicação. Naquela época, diziam que se o Lula ganhasse a eleição, 800 mil empresários iriam fugir do país no outro dia com medo do comunismo, que a classe média ficou apavorada com a vitória do Lula,  que todos os apartamentos das zonas nobres, de todos os bairros das capitais brasileiras, seriam imediatamente expropriados e entregues a classe trabalhadora, que a burguesia teria que dividir os seus apartamentos com os pobres. Isso foi espalhado por toda parte, desde então, nunca se parou. O que o Bolsonaro fez em 2018, foi utilizar um instrumento muito mais poderoso, com gente muito mais competente, dentro de uma organização de um movimento mundial, comandado pelo Sr. Steve Bannon nos Estados Unidos, a partir da eleição de Donald Trump. Então, se profissionalizou, em níveis nunca antes experimentados, a produção de notícias falsas para um objetivo político específico, dentro de um processo maior denominado guerra híbrida, da qual a produção de fake news é parte das ações de destruição da política, de demonização da política e, não exatamente, de políticos. A produção de fake news, na verdade, se juntou a Lava-jato. A utilização do instrumento jurídico para perseguir adversários, ao mesmo tempo, que corroíam o tecido social no que diz respeito à reputação dos políticos. Evidentemente, todos de esquerda ou qualquer um que se metesse no caminho deles. A confluência dessas ações é que gerou a eleição do Bolsonaro em 2018 e essas ações foram integralmente apoiadas pela mídia, quando eles perceberam que o candidato com chance de ganhar na direita era o Bolsonaro e não Geraldo Alckmin. Eles não queriam o Bolsonaro, eles queriam uma direita mais limpa, massa cheirosa, eles queriam uma direita que soubesse usar talheres, que não fala palavrão, que recebesse a imprensa, que tratasse bem os jornalistas. Mas que fizesse exatamente o que o Bolsonaro está fazendo na área econômica, desmontando o estado, privatizando as estatais, vendendo refinarias a preço de banana, entregando Pré-sal para interesses estrangeiros, entregando a administração fundiária aos latifundiários, armando esses latifundiários e tentando criar no congresso nacional legislações que favoreçam a expansão desses interesses dentro do Brasil. Isso seria feito da mesma maneira com Alckmin.

SC: O Reinaldo de Azevedo logo vai atacar o Lula novamente? O que fazer com a esquerda que insiste nesse tipo de fantasia?

LF:  Não tenho dúvidas. O Ciro Gomes vai estar se apresentando para ser a figura de centro-direita, mas não vão aceitá-lo. O PT já está no segundo turno de 2022, a dúvida é saber se vai ter Bolsonaro como opositor. Quando chegar 2022, se não tiver uma opção de centro, que eles estão tentando produzir, se a disputa de novo for entre Bolsonaro e o PT, toda burguesia nacional vai fechar o nariz e apoiar integralmente Bolsonaro. Ou alguém acha que o Reinaldo Azevedo vai voltar no PT? Quando perguntado sobre em quem votou em 2018, disse ele que votou no Henrique Meirelles. Ninguém votou no Henrique Meirelles, nem o próprio Henrique Meirelles votou no Henrique Meireles, não existe eleitor do Henrique Meireles. O Reinaldo de Azevedo votou no Bolsonaro, mas não quer dizer que votou. E, no segundo turno, falou que votou em branco. Então, ele votou no Bolsonaro. Quem votou em branco no segundo turno, votou em Bolsonaro. Portanto, é mentira que não votou em Bolsonaro. Em 2022, essa direita toda que está aí estupefata com os maus modos do Bolsonaro, se tiver que decidir entre Bolsonaro e Lula, vai de novo votar no Bolsonaro. A mídia vai de novo com Bolsonaro, essa mesma mídia que está pedindo impeachment do Bolsonaro, que o acusa de genocida, que diz ser absurdo o tanto de gente morta, que o considera um presidente asqueroso. Essas pessoas e essas corporações não tem nenhum interesse público, vivem em outro país, vivem num estado muito próprio, pregam o estado mínimo, a reforma do estado. Mas, desde que, continuem sugando os recursos estatais, elas precisam manter esse estado de coisas. Preferiam que fosse com um funcionário deles que geralmente é um tucano. O Reinaldo Azevedo é um tucano clássico. A Vera Magalhães, Merval Pereira, as pessoas do Globo, aquela bancada inteira do Globo News é de tucanos. Eles gostariam muito de voltar ao tempo de Fernando Henrique Cardoso, onde trocavam salamaleques, das viagens para Nova Iorque, do tango na Argentina, foram a França e Paris é uma maravilha. São caboclos querendo ser ingleses, mas, na verdade, são tratados como subalternos que são. Então, quando chegar em 2022, o Reinaldo Azevedo, se tiver que optar de novo entre Bolsonaro e Lula, vai optar por Bolsonaro por fazer parte de um sistema do qual ele não pode sair. Reparem naquela entrevista do Lula para o Reinaldo Azevedo. Primeiro, no Youtube, cortaram os comentários. Não tinha comentário porque é claro que a audiência da Band News iria xingar o Lula. Quem deu audiência para o Reinaldo Azevedo foram os petistas, aquelas 180 mil pessoas eram simpatizantes do Lula, que emprestaram a sua audiência assim como Lula emprestou sua credibilidade para a “Bandida News” ganhar dinheiro. Quando acabou entrevista, imediatamente eles foram prestar satisfação a sua audiência real que é bolsonarista. Botaram o Cláudio Humberto Rosa e Silva – o porta-voz do Collor, que é um sujeito que puxa o saco do Bolsonaro no programa da Band News pelas manhãs de uma forma vexaminosa, uma coisa desavergonhada sem nenhum amor próprio – para chamar o Lula de mentiroso compulsivo, dizer mentiras sobre o Lula, para chamar o Lula de vagabundo. E a vida continua com esses caras e essa tentativa de conciliação… Eu converso sempre com Rui Costa Pimenta e a gente concorda que não há mais espaço para essa política de conciliação porque não há possibilidade de conciliação. Não há possibilidade de conciliação entre a classe trabalhadora e a classe dominante no Brasil porque isso intrinsecamente é proibitivo. A luta de classe nos impõe uma outra relação com a burguesia nacional. Essa relação pode ser dialética, mas jamais conciliatória. Então, não há mais espaço para conciliar. Se for tiver um novo governo Lula e com uma nova política de conciliação, vai acontecer exatamente o que ocorreu em 2016. Eles acumulam força e quando podem dão um golpe, destroem tudo da noite para o dia. Todos hão de convir que os governos do PT foram muito importantes do ponto de vista de políticas de assistência social, de distribuição de riqueza, de retirada de milhões de pessoas da pobreza, de transformação do Brasil em protagonista internacional, de descoberta do Pré-Sal, de controle de gastos públicos e coisas muito interessantes como ato civilizatório. Tudo isso foi destruído porque essas reformas no sistema capitalista não se sustentam, porque elas não mexem com a estrutura do sistema. A única maneira de mexer com essa estrutura é romper com capitalismo. Por isso, que me interesso cada vez mais por essa novíssima geração de militantes de esquerda dos diversos partidos, que estão colocando na pauta de novo a discussão do socialismo, a discussão do marxismo. O léxico marxista está voltando a boca das pessoas, falam em mais-valia, sobre acumulação primitiva… Os termos de natureza marxistas são discutidos abertamente com muita audiência nas redes, para as pessoas entenderem de várias formas, tudo sobre marxismo, leninismo, trotskismo, stalinismo… As pessoas voltaram a falar sobre esses assuntos, falam sobre o socialismo, falam sobre a revolução brasileira, falam sobre os erros da experiência socialista no leste europeu, da união soviética e também sobre os acertos. Trazem de novo a literatura marxista para as pessoas conhecerem, lerem, entenderem e fazerem correlações políticas e históricas importantíssimas para se entender o nosso contexto. Pra mim, isso é o prenúncio de uma revolução. Se ela vai acontecer agora ou 30 anos depois que eu morrer, para mim, não faz diferença. Mas o fato de estarmos rediscutindo isso em outros termos, é um super lento para mim. Eu espero viver para ver essas superestruturas serem notificadas e finalmente ter uma experiência socialista no Brasil.

EV:  Houve uma guinada à esquerda no final da campanha da Dilma em 2014. Na sua opinião, isso foi fundamental para vitória dela contra o Aécio Neves? E já que você falou da questão do Lula, há quem entenda que isso seria fundamental para sua vitória em 2022. Como você falou, não dá para ter conciliação e, entre Lula e Bolsonaro, a burguesia vai votar no Bolsonaro, assim como voltou em Aécio em 2014.

LF: Na campanha 2002, o PT tinha colocado sobre a mesa a possibilidade de chegar ao poder porque o governo Fernando Henrique Cardoso, que se encerrando, tinha sido um desastre absoluto e as pessoas queriam mudanças. O eleitorado brasileiro queria mudanças, mas a classe média e mesmo as camadas mais populares temiam que houvesse uma mudança radical por várias razões. Então, o Lula fez aquela carta aos brasileiros e já entrou na campanha pregando a conciliação de classes. Dizendo que iria cumprir todos os contratos, que ninguém se preocupasse. Ele não radicalizou para a esquerda porque havia um sentimento de que era preciso mudar desde que não fosse uma coisa abrupta, que não chocasse a sociedade, nem provocasse rupturas que não se saberia como enfrentar. Acho que hoje o quadro é completamente diferente, há uma ânsia na sociedade, inclusive percebo em parte da classe média, de que é preciso ver uma mudança completa em tudo. O Brasil está tão destruído, a crise sanitária tem mais de 330 mil mortos pela COVID-19, mais de 3 mil pessoas morrendo por dia, a destruição da economia, a inflação, a alta dos preços, a desesperança absoluta em relação ao país como nação. O Brasil está de quatro para os Estados Unidos, se submetido aos interesses estrangeiros, vendendo as suas riquezas, entregando as suas riquezas naturais, a fome voltando de uma forma absurda.  Então, hoje o clima é diferente, um clima de é preciso fazer uma ruptura imediatamente. Ao meu ver, essa é minha opinião, não sou petista e nunca fui filiado ao PT, que e o PT não radicalizar para esquerda, corre o risco de ver o Bolsonaro capturar essa narrativa e transformar em trunfo eleitoral para 2022. Na verdade, diante de tudo isso, ele vai fazer a ruptura pela direita, pelo fascismo, pelo autoritarismo. Mas não deixa de ser uma ruptura. Não deixa de ser um processo onde se rompe com tudo que está acontecendo para tentar uma coisa completamente nova. As pessoas tendem a acreditar nisso principalmente porque a base do eleitorado bolsonarista ainda está muito vinculada às comunidades pobres, nas periferias dos grandes centros urbanos, que foram cooptados pelo bolsonarismo, como antes haviam sido cooptadas pelo petismo por razões diferentes. Mas, hoje, sobretudo pela influência das igrejas pentecostais, essas comunidades pobres e periféricas estão todas cooptadas para o bolsonarismo. Então, se não houver uma ruptura de esquerda que agrade essas pessoas – que lhes dê esperança, que lhes ofereça perspectiva de ter uma vida melhor, de que vão conseguir fazer três refeições por dia novamente, de que o gás de cozinha não passa de R$ 100, de que poderão comprar alimentos com mais fatura – não vão votar no PT. Não vão votar na esquerda porque esse espetro social é muito volúvel, vai de um lado para outro de acordo com as circunstâncias, não é politizado. Sempre se fala que foi um erro muito grandes dos governos PT, eu concordo, de que o cidadão foi incluído na discussão política pelo consumo e não pela politização. Então, a esquerda as perdeu imediatamente para o golpe 2016 e elas elegeram o Bolsonaro com 57 milhões de votos. Essas comunidades pobres, que são massacradas pela polícia, por exemplo, votaram no Bolsonaro. Pra reverter isso, respondendo à pergunta, é preciso que haja uma radicalização pela esquerda, uma radicalização da luta dos trabalhadores que seja colocado claramente. Mas aí, se no meio de uma entrevista, o Lula fala que é possível que a Caixa Econômica Federal possa ser de economia mista, mela esse processo. Tem que dizer que não.

FM: Nós já estamos chegando ao final e eu gostaria de fazer algumas perguntas que considero importantes. Hoje com o seu trabalho no DCM, também em outros órgãos de imprensa alternativa que você passou, qual a importância de se ter uma imprensa de esquerda? No mesmo sentido, você considera que os partidos políticos, particularmente os de esquerda, deveriam ter imprensa própria?

LF: Sim, eu sempre defendi isso. Todos os partidos deveriam ter imprensa própria e profissionalizada. Quando falo profissionalizada significa que não adianta ter um cacete armado. Os partidos tem que montar suas estruturas de comunicação e pensar nelas como uma ponte estratégica fundamental para sobrevivência do partido. Pra isso, tem que ter equipamentos de qualidade, tem que montar um portal/site de qualidade, tem que contratar jornalistas, pagar esses jornalistas de forma justa, pensar estrategicamente na produção dos conteúdos, de forma extremamente profissional, fazer uma ligação permanente e também muito profissional entre o que é produzido de conteúdo, por exemplo, no site e o que é distribuído nas redes sociais, dentro das estratégias específicas de cada uma dessas redes sociais. Tudo tem que ser muito profissionalizado. Não adianta todos partidos terem site, Facebook, Twitter. Qual que é a relevância disso do ponto de vista da comunicação? Ainda é muito precária, extremamente precária. Eu não estou falando de furar bolha, não suporto essa história. Estou falando em expandir a bolha, ativar muitas pessoas que estão órfãos, que estão à espera de uma comunicação e se veem obrigadas a ouvir CBN, a ficar lendo o portal do UOL, da Folha, do Globo, do Estadão. E também esses jornais regionais ultrarreacionários (Correio do Povo, Diário Catarinense, Zero Hora, Estado de Minas). Enfim, as pessoas ficam reféns dessa mídia tradicional. Precisamos chegar a elas, mas de forma extremamente profissional. Não pode ser cacete armado. Tem que ter jornalistas, tem que ser uma coisa pensada profissionalmente, tem que ser pensada uma estrutura de portal de notícia, como ela funciona, tem que saber tem que entender a lógica dos algoritmos, para trabalhar dentro deles nas redes sociais, tem que criar alternativas à mídia. Inclusive, não chamo, há muito tempo, de mídia alternativa porque isso nos reduz a coisas pequenas. Mídia alternativa era chamada a mídia nanica durante a ditadura militar, pequenos jornais que se viravam para fazer uma resistência e não exatamente para comunicar. Nós, não. Hoje nós comunicamos, temos uma amplitude dada pela internet, pelas redes sociais que é uma amplitude de comunicação. Então, nós não somos mídias alternativas, somos alternativa à mídia, que é um conceito maior e melhor. A gente tem que pensar como mídia porque senão eles ficam se autodenominando mídia profissional pra dizer que fora do espectro deles, daquela turma de paus mandados, as pessoas não são profissionais, que somente eles são.  E não é verdade, é justamente o contrário, nós podemos e devemos ser muito mais profissionais do que eles, porque temos os valores certos para fazer jornalismo, que é o trato com a realidade a partir da formação crítica do consumidor de notícia. Não fazemos chicana, não ficamos recebendo documentos do ministério público para publicar e para destruir a reputação de alguém. Nós analisamos a realidade, tratamos essa realidade, criamos uma linguagem que as pessoas possam compreender também a realidade onde vivem. Esse é o nosso trabalho. Por isso, nós somos muito mais profissionais e temos que ter várias imprensas de esquerda no Brasil. Para que as pessoas possam ter alternativas muito melhores para consumir informação do que se têm hoje com essa mídia apodrecida e venal, feita por tarefeiros de chicana, pessoas completamente descoladas da realidade e que são paus mandados dos patrões. Essa é a nossa realidade.

FM: Leandro, deixamos um espaço pra você fazer o encerramento.

LF: Primeiro, quero agradecer a oportunidade de ser entrevistado. É sempre uma experiência interessante para quem é jornalista, que está sempre do outro lado. Eu faço entrevista diariamente, todo dia há mais de um ano no DCM. Eu sempre peço para fazerem as considerações finais, agora estou na posição de fazer as minhas. Quero agradecer vocês, que são jovens, pessoas publicizadas e inteligentes, que tem propriedade naquilo que falam e naquilo que perguntam. Isso é uma coisa rara e fico bastante entusiasmado em saber que tem gente assim trabalhando na imprensa do PCO. A outra coisa é o seguinte, a gente tem que fazer essa articulação com mais frequência, temos que nos falar mais, nos prestar mais a isso. O Rui Costa tem uma disposição enorme, fala comigo no DCM, vai também no 247, tem o programa dele na Causa Operária. Um cara que dispõe a conversar inclusive com pessoas que são adversários dele dentro do pensamento marxista. Isso acontece porque ele tem uma disposição intelectual para compreender e analisar a realidade. A gente até brinca lá no DCM, que o Rui acaba com as nossas ilusões porque ele faz análises muito frias, muito corretas sobre a realidade, que acabam se tornando realidade e acaba com as nossas fantasias. E é isso, no fundo, que é parte do nosso trabalho, a gente tem que acabar com as fantasias, temos que nos deter sobre a realidade. Isso é materialismo histórico. Temos que nos deter sobre o que é verdade, sobre o que é real, porque senão as nossas análises não servem para nada. O jornalismo de esquerda fundamentalmente tem que atuar dentro desse campo do real, o campo do que verdadeiramente acontece na vida das pessoas. Fico muito contente pelo convite.

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O Diário Causa Operária atravessa um momento decisivo para o seu futuro. Vivemos tempos interessantes. Tempos de crise do capitalismo, de acirramento da luta de classes, de polarização política e social. Tempos de pandemia e de política genocida. Tempos de golpe de Estado e de rebelião popular. Tempos em que o fascismo levanta a cabeça e a esquerda revolucionária se desenvolve a olhos vistos. Não é exagero dizer que estamos na antessala de uma luta aberta entre a revolução e a contrarrevolução. 

A burguesia já pressentiu o perigo. As revoltas populares no Equador, na Bolívia e na Colômbia mostraram para onde o continente caminha. Além da repressão pura e simples, uma das armas fundamentais dos grandes capitalistas na luta contra os operários e o povo é a desinformação, a confusão, a falsificação e manipulação dos fatos, quando não a mentira nua e crua. Neste exato momento mesmo, a burguesia se esforça para confundir o panorama diante do início das mobilizações de rua contra Bolsonaro e todos os golpistas. Seus esforços se dirigem a apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe, substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular. O Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra a burguesia, sua política e suas manobras. 

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