Empurrões

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No decorrer da última semana assistimos a uma série de demonstrações de como será a vida parlamentar no Brasil depois das últimas eleições. Esperando tranquilas cerimônias, as assembléias legislativas do país receberam os novos deputados para sua diplomação. Vestidos em seus belos ternos, cascos calçados com sapatos lustrosos, os calouros da extrema-direita foram receber a procuração para escalpelar o povo pelos próximos quatro anos. Para supresa dos pobres democratas, eles não foram nada discretos.

O ator pornô e pedagogo do projeto Escola sem Partido, Alexandre Frota, protagonizou o principal incidente na diplomação dos deputados estaduais de São Paulo. Membros do PSOL foram impedidos por Frota de acompanharem uma colega que seria diplomada. Com seu tamanho de gorila de circo, o ator se impôs no palco, empurrou pessoas, e meteu uma joelhada nas costas de um deles. Ao ser questionado por jornalistas, disse que sua vítima teve sorte de não ter sido arremessada na platéia. Em entrevista ao site UOL, que classificou a agressão de Frota como “confusão”, afirmou:

“Quero que o ritual do cargo de deputado vá pra casa do caralho.”

Eduardo Bolsonaro, chanceler fantasma do futuro governo e garoto propaganda de Donald Trump, elogiou a atitude do colega do PSL no Twitter, e disse que no ano que vem haverá vários Frotas no congresso. Já Jesus dos Santos, militante do PSOL agredido por Frota, fez um discurso sobre racismo estrutural que nem a faxineira da USP mais bem informada compreenderia.

Em Minas Gerais, mais dois casos de intimidação. A deputada Beatriz Cerqueira, presidenta da CUT Minas, teve uma placa com os dizeres “Lula Livre” levada sem maiores explicações por uma funcionária do cerimonial da diplomação, a senhora Maria Berenice Sobral, que não esconde em sua conta do Facebook sua simpatia pelo bolsonarismo. Na sequência do evento, o petista Rogério Correa ergueu a mesma placa, e foi surpreendido pela ferocidade do cabo Junio Amaral do PSL, que tentou baixar o cartaz à força. Rogério reagiu e pregou a mão na cara do cabo, que ensaiou uma reação mas não acertou o petista bom de esquiva. Pra tristeza de quem sofre com a ilusão do decoro em tempos de polarização, a turma do deixa disso entrou em cena e a treta foi apartada.

De volta à São Paulo, mais uma ocorrência, que apesar de não ter acontecido na cerimônia de diplomação, vale a pena ser citada. Em audiência sobre a reforma da previdência dos servidores municipais, o deputado com nome de garoto de programa Fernando Holiday (DEM), atacou a vereadora Sâmia Bonfim (PSOL), acusando-a de ter estourado o tempo de fala. Toninho Vespoli, também do PSOL, reagiu para defender a colega e os dois trocaram empurrões. A cena acabou ficando um pouco ridícula, pois eles se peitaram até serem separados e nada mais aconteceu. Vespoli não conseguiu se impor, e Holiday continuou com mais um de seus já conhecidos espetáculos de histeria. É assustador imaginar que até agora nenhum vereador mais normal tenha perdido a esportiva e metido um soco na cara desse bostinha.

Essa compilação de bravatas e intimidações da extrema-direita têm uma inspiração e um modelo: a famosa agressão que Jair Bolsonaro, pai de todos esses quadrúpedes, cometeu contra a deputada petista Maria do Rosário, ainda em 2003, ano da posse do presidente Lula. Bolsonaro disse que a deputada “não merecia ser estuprada”, chamou-a de vagabunda, e a empurrou, em pleno corredor do Congresso Nacional. Nenhum assessor, nenhum jornalista, nenhum colega, nem sequer um assistente ou estagiário, ninguém impediu o milico reformado de agredir uma mulher na frente das câmeras. Um episódio que é motivo de vergonha para toda a esquerda, que nunca reagiu energicamente às provocações do fascista, preferindo o caminho do discurso, da conscientização, da moderação, da paz e do amor. Bolsonaro não foi enquadrado em sua truculência contra Maria do Rosário, repetiu essa conduta em outras inúmeras ocasiões e nunca foi atacado de volta. O fascismo não foi enfiado de volta no buraco quando resolveu ver como estava a coisa na superfície, e agora temos que lidar com os empurrões daqueles que ele encorajou.

Que a atitude de Rogério Correa de revidar à altura sirva de exemplo, pois sinto informar à esquerda, mas como aprendemos nas eleições deste ano, o amor não vai vencer o ódio.