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Dentro do campo da esquerda brasileira ao longo do aprofundamento do golpe de Estado, a cúpula do PCdoB tem se alinhado sucessivas vezes com a burguesia golpista – numa linha oportunista que acaba por disputar com o Psol o posto de nova esquerda totalmente adaptada à ditadura militar que vem sendo implementada. O último episódio dessa trajetória de sucessivas capitulações deu-se nessa semana, no dia 15, com o anúncio do apoio do bloco de parlamentares ditos “comunistas” ao DEM de Rodrigo Maia na sucessão à Presidência da Câmara dos Deputados.

Como bem ressaltou a presidente do PCdoB Luciana Santos, “a aliança com Rodrigo Maia não é nova”. De fato, desde o afastamento seguido de prisão de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) ainda em julho 2016, o Partido apoiou a candidatura de Maia, ao que se seguiria novo apoio no início do ano seguinte e mais uma vez agora, na terceira vez consecutiva em que a liderança do DEM aspira ao cargo. Segundo reza a cartilha centrista de viés estalinista do PCdoB, todo cargo vale a pena – e o apoio nas eleições da Mesa Diretora se dá em troca de cargos secundários nas comissões da Casa. Trata-se assim de uma política meramente paroquial: os parlamentares do PCdoB trocam seu apoio ao avanço do golpe em seu conjunto por pequenas prebendas que os permitam realizações locais no Maranhão (estado governado pelo Partido com Flávio Dino), ou em prefeituras compostas por eles. No limite, querem ter suas realizações parciais aferidas por sua base eleitoral de modo a manterem seus cargos de Deputados.

Tal fisiologismo tem sido especialmente marcante da atuação do PCdoB desde o processo de impeachment fraudulento que afastou a presidente Dilma Rousseff do poder em 2016. Dentro da própria Câmara, a aliança com o DEM de Rodrigo Maia por exemplo representa nada menos que uma parceria com um dos setores mais direitistas do golpe – aquele ligado à grande burguesia internacionalizada. Vale lembrar os chamados Democratas são na realidade o novo nome do antigo Partido da Frente Liberal, o qual foi nada menos que um racha direitista do PDS – a Arena dos militares. Do ponto de vista da luta de classes, talvez seja o partido mais puramente ligado ao imperialismo no cenário institucional brasileiro.

Alinhada com os golpistas, a cúpula do PCdoB colaborou em vários momentos para a desagregação ou a capitulação da esquerda. Começou por descolar-se do PT nas eleições presidenciais ainda no final de 2017 – uma aliança que vinha mantendo desde 1989. O lançamento da candidatura de Manuela D’Ávila (PCdoB/RS) – com histórico parlamentar de pouca relevância e uma insistência quase adolescente em temas ditos identitários evidentemente não era autônoma: servia de ponte para um possível acoplagem à candidatura de Ciro Gomes (PDT), a qual, como se viu, serviu apenas para dividir os votos do PT. Em meados do ano passado, Flávio Dino e outras lideranças do PCdoB chegaram a anunciar abertamente o apoio a Ciro. Após muita pressão de sua base, retornaram ao apoio ao PT como cavalo de Tróia em agosto de 2018. Manuela compunha com Fernando Haddad uma bizarra dupla candidatura à Vice-Presidência na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva, encarcerado desde abril em Curitiba.

A chamada chapa triplex tinha o propósito claro de consolidar o “Plano B” quando os golpistas investissem mais resolutamente contra a candidatura de Lula, e foi o que aconteceu pouco mais de um mês depois, numa das maiores capitulações da esquerda nacional desde 2016, quando os partidos da coligação optaram por levar adiante a candidatura presidencial de Haddad e Manuela: representantes das alas mais direitistas do PT e do PCdoB, como se viu na malfadada campanha eleitoral, em que os candidatos abriram mão da cor vermelha, comungaram com padres e declararam-se contrários à legalização do aborto – uma pauta fundamental na luta das mulheres que Manuela diz priorizar –, elogiaram Sérgio Moro, o Mazzaropi da Odebrecht, e a lava-jato –, e buscaram descolar-se ao máximo de suas bases populares e sindicais, supostamente apresentando-se como candidatos de centro, capazes de agradar até mesmo aos conservadores mais empedernidos.

O elemento decisivo para a eleição de Jair Bolsonaro foi justamente a fuga do chamado centrão, composto também pelo DEM, da base de Geraldo Alckmin (PSDB) para a do capitão do exército. No mundo parlamentar, tal apoio pode ser atestado por exemplo pela presença do PSL, do presidente, dentre os apoiadores de primeira hora da candidatura de Maia à reeleição.

É ao PSL de Bolsonaro que o PCdoB agora quer se associar. Segundo Luciana Santos, “programaticamente não temos nenhuma relação com Maia, temos pautas completamente antagônicas e vamos seguir assim. Trata-se de uma aliança democrática”. O argumento da “democracia versus barbárie” – já analisado diversas vezes nas páginas desse diário – não merece qualquer credibilidade.

A “democracia” como valor abstrato povoa desde as colunas do jornal O Globo, passando pela página de Olavo de Carvalho, até os discursos de parlamentares de esquerda. Tornou-se uma palavra mágica, irmã de pragmatismo e prima da realpolitik, que abre as portas para todo tipo de capitulação e hipocrisia, a todo tipo de conluio com a burguesia que articula nada menos que o aprofundamento de um regime brutalmente ditatorial, capaz de destruir os direitos dos trabalhadores, aquilar as lideranças e organizações populares e reduzir o país a um deserto econômico e social. É bom lembrar: em nome da “democracia”, vinha se articulando a aliança com os setores mais radicalmente golpistas da direita durante as eleições, como o próprio PSDB de Alckmin.

Trata-se de evidente fisiologismo e cretinismo parlamentar. Afinal, se a presença do PCdoB na base de Rodrigo Maia representasse algo além disso, se representasse de fato alguma conquista política da classe trabalhadora, o golpe não teria se aprofundado rumo à militarização do regime que vemos hoje – certamente o pior dos cenários. A experiência ensina.

 

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